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terça-feira, 17 de março de 2015

Legado de vida

                                         
                   Sentado à mesa, depois de haver engolido a costumeira merenda, um palito de fósforo no canto da boca, Gonçalo espreguiça o corpo, passa a mão na nuca e deixa as vistas correrem... Olha porta afora, o que lhe permite ver apenas um estreito ângulo do lugar. Seus olhos passam pelo pedaço do terreiro, pelo pomar, e se detêm lá no alto, lá adiante, na cumeeira da pastagem. Verde, tão viçosa que chega a encantar as vistas. Na verdade olha, mas não vê. Sua cabeça está longe. No tempo e no espaço... Divagando, feito alma sem corpo. Que foi feito de sua vida?! Ali, com seus sessenta e poucos anos, corpo moído, sem expectativa que não seja a subsistência... O que aconteceu com seus planos? Onde tudo começou a dar errado?
                   Sonhava ser proprietário! Não queria muita terra, apenas a que bastasse para viver e criar seus filhos, independentemente. Nunca fora ambicioso, talvez aí esteja o erro. Ambição nunca foi traço de sua personalidade, mas submissão, sim. Como era submisso! Subserviente mesmo! Fiel ao patrão como unha e carne... Era seu braço direito. Mais que isso! Era o peão pronto a qualquer hora, em qualquer circunstância, sob qualquer condição. A vontade do patrão era uma ordem! Mais de trinta anos ali. Naquele mesmo pedaço, naquela mesma casa. É certo que muita coisa mudou! Agora tem água encanada, luz elétrica, fogão a gás. Muito mais conforto que há algum tempo. Tempo duro! Água de cisterna, luz de lamparina, fogão de lenha.  Comparada a essa de agora, foi uma vida de animal. O progresso foi tanto que até mesmo linha de ônibus passa na estrada, perto da porteira! Mas, que importa? Pensa na idade... Por quanto tempo ainda conseguirá trabalhar? E depois, onde irá morar?  Nem casa tem!
                   Seus olhos ficam marejados. Sente no peito a aflição da insegurança. Não tem rancor, não guarda mágoa. Na verdade mesmo, nunca se preocupou, nunca parou para pensar nisso tudo. Meneia a cabeça. Esses pensamentos nunca vieram lhe tirar o sossego. Por que isso agora?! Deve ser coisa de velho... Agradece a Deus todos os dias pela saúde de leão que tem. Nestes anos todos, nem gripe conseguiu tirar-lhe a força, o ânimo da lida diária. Mas, a idade é implacável! Ela vem para todos sem que isso possa ser mudado. Parar de trabalhar nesse serviço pesado é inevitável. Faz parte da natureza humana, é assim que vai ser. E depois, o que fazer?
                Dentro de sua cabeça revive, como num passe de mágica, todo o tempo trabalhado. Lembra, com riqueza de detalhes, cada boiada cuidada, cada roça colhida.  Foram tantas as empreitadas que se torna impossível quantificar.
                      E sua velha?! Companheira e cúmplice de todos esses anos. Uma leoa para o trabalho, e uma santa para o trato. Os filhos? Alguns casados, trabalhando nas redondezas, outros partiram em busca de sustento nas cidades. De vez em quando chega uma carta, que o patrão lê. Nem isso Gonçalo consegue! Ele e a mulher são analfabetos de pai e mãe... Nem sempre as notícias são boas. A vida na cidade também está difícil, e pior ainda para seus filhos! São despreparados, nasceram e cresceram no mato. A competição na cidade grande, para eles, chega a ser desumana. Que fazer? Eles escolheram o destino. Volta a pensar em sua velha. Daqui a pouco ela não terá a mesma disposição. Nem poderia ser diferente! É pouco mais nova que ele, é verdade, mas mesmo assim, percebe-se que sua força está na descendente. Gonçalo reconhece seu empenho, relembra saudoso o nascimento de cada um dos seus oito filhos... Dieta era coisa que sua velha não guardava! Paria num dia, no outro parecia estar inteira. Claro que os dois sabiam que não estava tão inteira assim, mas era o costume. Nunca reclamou. Foram anos e anos de alegria, de serenidade. A comida, por mais parca, acrescida com o carinho do preparo, parecia sempre um banquete! Gonçalo agora prende as vistas no terreiro. Sua velha estende a roupa no varal. Não tem a mesma agilidade de antes. Seus movimentos são mais demorados, custa a se erguer quando dobra o corpo para pegar a roupa molhada na bacia. Companheira querida! Se fosse possível, ele lhe daria o céu.
                     Passa a mão pelo rosto, coça os olhos. Essa água que teima em escapar dá-lhe  uma coceira danada nas vistas! Chorar, não! Gonçalo nunca foi dado a chorar. Se bem que há muito tempo não tem motivo para isso. A vida lhe tem sido generosa! Não sabe o porquê, mas hoje parece estar de miolo mole. Coisa de gente velha, só pode ser! Está assim, sentado no mesmo lugar, o palito de fósforo já todo mascado, os cabelos em completo desalinho, tantas as vezes que passou a mão pela cabeça. Nem se dá conta de quanto tempo está ali, perdido em suas divagações... Sobressalta-se quando ouve o som da buzina, e voltando os olhos para a janela, vê o carro do patrão encostando. Num pulo, põe-se de pé e vai ao encontro dele.
        - Gonçalo, o que está acontecendo, homem?!
                Assustado, Gonçalo nem consegue atinar. Sabe que o patrão está estranhando o fato de não ter sido recebido na porteira. Foi, e é sempre assim... Basta ouvir o barulho do carro na estrada, e Gonçalo rapidamente segue em direção à porteira para encontrá-lo. Mas, hoje, não sabe o que aconteceu com sua cachola! Deve estar com algum parafuso solto! Não bastassem os pensamentos que o afligiram há pouco, ainda perdeu o tino e não escutou o ronco do carro do patrão! Faltou com o costume...
                   -  Desculpe, Seu Mateus! Juro pro senhor que não escutei o carro!
                    Se pudesse falar por onde andava seu pensamento, das dúvidas e comichões que lhe fervilharam os miolos! Bobagem, rabugice de velho!
        - Dona Teresa, dá uma chegada aqui!
                    Gonçalo está atrapalhado. A chegada inesperada do patrão, a cabeça atordoada pela retrospectiva, e agora, o patrão chamando a mulher para conversar... É tudo muito diferente! Assusta. Parece que seus pensamentos podem ser lidos, e isso faz com que Gonçalo evite olhar o patrão nos olhos. Não quer que ninguém saiba o que sua cabeça andou matutando. Deus o livre! Não quer parecer ingrato, afinal, seu patrão foi muito bom nestes anos todos! Seu pagamento nunca atrasou, sempre foi bem tratado, tinha relativa fartura ali na fazenda. Não tem mágoa dele, muito pelo contrário! Tem profunda gratidão. Se alguma coisa não saiu como planejara, Gonçalo sabia não ser culpa do patrão. Foi cilada da vida, ou até mesmo resultado da sua falta de expediente. Gonçalo nunca fora atirado. Tem consciência de que as chances devem ser procuradas, nada cai do céu. Ele se acomodou... O salário dava para sobreviver, tinha teto, que mais desejar? A vida para ele era muito simples, pouco lhe bastava...
                    -  Gonçalo, hoje estou aqui numa missão especial!
                    O velho peão não consegue entender nada. Ou melhor, sente um aperto no estômago, um mal estar inexplicável. Será que já não produz o suficiente e o patrão está pensando em substituí-lo?!
                     - Sabe, Seu Mateus, o senhor pode falar claro. Não precisa ficar rodeando...
                     - Está bem, Gonçalo! Vou procurar ser o mais claro possível. Hoje estou aqui para realizar um sonho que carrego e acalento comigo há muitos anos. Você e sua família trabalharam incansavelmente pelo meu progresso. Eu cresci amparado pela sua fidelidade e lealdade. Por inúmeras vezes parei para refletir sobre tanta dedicação. Dedicação que me foi dada espontaneamente, sem exigências e cobranças. Durante todos esses anos tive o privilégio, a grata felicidade de tê-lo como esteio, como alavanca, como parceiro mesmo, nessa empreitada. É hora de retribuir. Se bem que a gratidão não se mostra apenas com recompensas materiais. Nunca poderei retribuir toda a dedicação que recebi, mas sei que Deus se encarregará da outra parte. Resumindo, Gonçalo, eu quero que vocês tenham um cantinho próprio, um lugar onde possam envelhecer dignamente. Retira da pasta uma papelada e a coloca sobre a mesa. Gonçalo está confuso. Entre confuso e emocionado. Entre surpreso e apreensivo. Afinal, apesar de notar o reconhecimento pelo seu trabalho através do respeito, do bom trato do patrão, nunca havia ouvido tantas palavras bonitas!
                    - Gonçalo, aqui está a escritura de compra e venda de uma chácara. Pegada à vila. Tem uma casa muito boa, um pequeno curral, um pomar formado, uma horta vasta e um pedaço de terra pra você cultivar o que quiser. Pode lhe parecer muito, mas não é nem o mínimo de todo o seu mérito, meu bom parceiro!
                    Gonçalo fica como que petrificado. Pálido, as pernas fracas. Não consegue nem raciocinar direito! Só tem força suficiente para jogar o corpo contra o patrão, e dar-lhe um abraço tão continuado que parece traduzir todo o tempo a ele dedicado.
                    - Deus lhe pague! Deus lhe pague, Seu Mateus!
                    Fica abraçado a ele por um bom pedaço de tempo. Quando abre os olhos, Gonçalo vê, por sobre o ombro do patrão, sua velha. Ela, amassando a ponta do avental entre as mãos, chora. Está feliz! Desvencilha-se do abraço do patrão e se volta para ela. Que abraço gostoso! Chega mesmo a erguê-la do chão! Assim, abraçado a ela, percebe que, sem a menor sombra de dúvida, a preocupação que o angustiava poucos minutos atrás, também já havia passado pela cabeça da parceira.
         Seu Mateus fica de lado. Está emocionado, e assiste a tudo com o coração à pele. Afinal, é um sonho que se realiza.
                     - Seu Mateus, desculpa pela pergunta, mas pra quando é isso tudo?
            - É pra hoje, Gonçalo! Vou lhes dar um tempinho, o necessário para se aprontarem. Vamos até à vila cuidar do registro no Cartório, e passamos pela chácara, assim vocês conhecem a nova morada! Depois disso, podem mudar quando quiserem...
                     - Mas, Seu Mateus, e o senhor?! Como fica sem empregado?           
                 - Não fique aflito, Gonçalo! Está tudo resolvido. Também estou parando. Já passei toda a tarefa de comando pro meu filho. E, quanto ao empregado, seu filho Jeremias me procurou. A cidade não deu certo pra ele. Nesta semana mesmo ele volta a trabalhar aqui. Tudo recomeça, meu velho amigo!...


  
Menção Honrosa - Concurso Nacional de Contos de Ponta Grossa-PR - 2014                                                                      

O louco do Faustino

                           
           Começo de tarde massacrante, calor extremo, desalentador...
         Coração amarrado na saudade do meu canto, saudade da casa de minha avó, saudade do sítio de onde nunca imaginei sair.
         Deixo a escola, como de costume, e planos ardilosos correm pela minha cabeça. Hoje, nada nem ninguém conseguirá me impedir. Daqui a pouco boto o pé na estrada e, em menos de duas horas, chego ao meu reduto. Passo a noite lá, bem juntinho de minha avó. Amanhã bem cedo volto com o caminhão do leiteiro, e não perco a hora da escola.
         Devoro a comida numa rapidez assustadora. Aproveito que minha mãe conversa com a vizinha na cerca do fundo do quintal, escrevo um bilhete, deixo do lado do prato e, a passos largos, sigo pela rua principal.
         Logo deixo a vila para trás, e sigo a estrada de terra. Eu caminho quase sempre com os olhos baixos. O sol é forte, e olhar adiante, visualizar aquela estrada imensa, comprida, feito uma serpente vermelha com cauda fina lá em cima, junto à linha do horizonte, desperta um desânimo que deixa as pernas lerdas, pesadas, e faz com que as tiras do chinelo incomodem ainda mais os dedos.
         Pela altura do sol, acho que ainda não são duas horas. Sorrio... Que sensação deliciosa caminhar por esta estrada! É tudo tão familiar, tão cheio de histórias, tão povoado de sonhos! Quantas vezes eu passei por aqui... Mas, só, é a primeira vez. E, talvez por isso, tem o sabor de aventura.
         A figueira grande aponta na primeira curva da estrada. Imensa, majestosa, imponente, secular. A sombra de sua vasta copa é um convite ao repouso, e é nisso que penso agora. Ela é um referencial da estrada. Não há vivente por estas bandas que não a conheça, e que não tenha desfrutado da sua sombra.
        Aperto o passo pensando no conforto de sua sombra, e à medida que me aproximo, percebo alguém encostado ao seu tronco. Quem será?
         Diminuo a marcha... Um arrepio me percorre a espinha. Acho que chego mesmo a parar no meio da estrada. Fixo os olhos, e o sol forte faz com que, instintivamente, eu coloque as mãos sobre a testa.
         É ele... Por que não pensei nisso antes?! Tantas vezes ouvi falar que ele andava por esta estrada, e não fiz conta! Agora, ele ali, parado, encostado no tronco da figueira, braço cruzado sobre o peito, o queixo apoiado numa das mãos...
             O louco do Faustino!
        Minhas pernas tremem, o meu corpo todo treme. Se ao menos tivesse uma roça na beira da estrada, eu me enveredaria por ela até despistá-lo! Mas, que nada... É pastagem dos dois lados!
         Penso em dar meia-volta e sair numa carreira desenfreada. Mas, como?! Estou petrificada, com os pés colados no chão quente da estrada. Não sei se as pernas estão pesadas demais a ponto de não conseguir movê-las, ou se estão leves demais a ponto de não conseguir coordená-las. O que eu sei é que estou paralisada.
         Ele fica me olhando demoradamente, impassível, imóvel. Tão alheio que chego a pensar que, se continuasse a caminhada, eu passaria por ele pacificamente. Esse pensamento enche-me de coragem de tal maneira que quase mudo o passo adiante. A voz de comando já havia partido do meu cérebro quando, de repente, ele, numa cambalhota circense, se coloca no meio da estrada. O susto foi tamanho que por pouco não caio sentada.
         Minha cabeça gira, pensamentos não se encontram, nem consigo raciocinar! Fico tentando imaginar o que o louco estará maquinando.
      Seu rosto é estranho. Maxilar saliente, pele amarelada, ossos proeminentes nas faces carentes de carnes, olhos fundos e com brilho assustador. Seus olhos têm a tristeza dos velhos e o tremular ofuscante de expectativa das crianças. Paradoxal, mas verdadeiro.
        Abre um sorriso largo, o que o deixa ainda mais débil e assombroso. Dentes ele não tem, apenas alguns cacos teimosos grudados às gengivas murchas. O clima é tão apavorante que, além do desconforto, vejo-me encurralada, sem saída. Se tentar correr ficarei em desvantagem, afinal a cabriola que acabei de presenciar, demonstra bem a agilidade que ele tem com as pernas.
         Se pelo menos passasse alguém por aqui! Nem me atrevo a olhar para trás, meus olhos estão presos à figura do meio da estrada.
         Uns dez metros nos separam. Dez metros que, pela nitidez com que enxergo os traços do seu rosto, mais parecem dez centímetros. E o louco continua no meio da estrada...
      Agora seu sorriso se aplaca. Fica sério. Os olhos ganham ar enigmático. Não sei bem se enigmático ou ausente. Tudo é tão apavorante que nem posso compreender.
         De repente, ecoa um som estranho que parece um grunhido, e ele irrompe em gargalhadas. Gargalhadas horríveis, guturais, forçadas. Se não forçadas, pelo menos sem razão aparente, sem justificativa. Gargalha tanto, e tão incontrolavelmente, que chega a semicerrar os olhos, entortando o corpo todo, num esforço desumano.
         Meus pelos estão eriçados. E, como tudo tão estranho que ele faz, num repente, silencia. Passa as mãos pelos cabelos, como se só agora percebesse a quentura do sol, e volta a me encarar. Meus olhos não perdem um movimento. Vigiam cada contração do rosto daquela estranha criatura. Meus olhos, assim como todo o meu corpo, temem e sofrem diante da expectativa daquele “o que virá agora?!”.
         Por que ele é assim?! Será que se chama Faustino, ou esse é o nome do seu pai? Será que ainda tem pai? Tem mãe? Por que tanto desmazelo com seu corpo?
         Todas essas indagações brotam involuntariamente na minha cabeça. Para que me preocupar com isso? O que interessa se ele tem pai ou não? Ainda mais agora, nesta situação?
         O sol deve estar incomodando porque ele passa as mãos repetidas vezes pelos cabelos ensebados indo até à nuca, deixando de fora os cotovelos erguidos, ossudos, que escapam pelas mangas rotas da velha camisa. É extremamente magro. Cadavérico, mesmo!
       Meu susto não poderia ser maior quando o vejo mover os pés. Lentamente, arrastando com os dedos a areia solta da estrada, vem em minha direção. Ele se aproxima, seu rosto fica cada vez maior. Sinto vertigens, mas continuo ali, estática, nem mesmo os braços eu consigo mover! Para dizer a verdade, nem os olhos consigo piscar! Seu rosto está muito próximo. Posso sentir sua respiração ofegante, seu hálito de rapé, o cheiro azedo do seu corpo.
         Para diante de mim. Olha-me, curioso. Sinto-me como um bicho no zoológico, como uma cobaia na mesa de cirurgia. Ele olha demoradamente meus cabelos, meus olhos, meu nariz, meu pescoço. Olha como se estudasse alguma coisa. Depois, vira o corpo e anda em redor de mim. Não posso vê-lo, mas sinto que ele está próximo, muito próximo. Seus pés jogam areia nos meus calcanhares.
         Volta à posição de frente, e olha profundamente nos meus olhos. Ergue o braço e passa a mão, suavemente, pelo meu rosto. Contraio-me toda, não sei se de medo, de nojo, ou de aflição. É horrível!
         Seus olhos são agora incrivelmente límpidos, serenos, mansos. Neste momento não transparecem a loucura que toma conta da criatura. Desce o braço lentamente, e junto com ele as pálpebras, olhando fixamente o chão.
         Gira o corpo sobre o calcanhar e segue, lentamente, rumo à figueira. Vendo-o agora, com o andar arrastado, ombros caídos como se levasse o mundo nas costas, chego a sentir pena.
         Senta-se no barranco, junto ao tronco da velha figueira. Coloca os cotovelos sobre os joelhos, prende a cabeça entre as mãos, e cai num choro convulsivo.
       Posso ouvir os soluços como se ao seu lado estivesse. É um choro sentido, profundo, lúcido, e, pelo que consigo perceber, voluntário. Sente vontade de chorar, e chora...
         Sinto ímpeto de consolá-lo, mas o pavor vivido naqueles poucos minutos é mais forte e me faz retroceder. Melhor mesmo é imitá-lo.
         Giro, então, o corpo sobre os calcanhares, mas não ando. Desato a correr. Corro como se as pernas fossem asas, e só paro quando vejo que estou na entrada da vila.
         Aonde eu ia mesmo?!
         Não sei... E não importa...
         Agora, só quero ir pra casa...

                

Menção Honrosa - Concurso Nacional de Contos de Ponta Grossa - PR - 2014                                

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Juvenal e o entregador de pães

O dia de Finados estava se aproximando... Época do ano que rendia um ganho a mais para Juvenal, e que o ajudava a remendar as dívidas. Era pintor de parede, ajudante de pedreiro, enfim, era o que precisava que fosse. Pau pra toda obra! O que não lhe faltava era disposição. Homem de meia idade, sem estudo, nascido e crescido por ali. Benquisto, transitava bem entre todos os moradores da vila. O cemitério, que ficava na saída da vila, na parte alta, podia ser visto de longe. Era imenso, todo cercado com muro de tijolos. Dentro, muito espaço. A pequena capela ficava perto do portão de entrada, e, por toda a volta, túmulos largamente espalhados. No fundo do terreno, uma área enorme, desocupada, reservada para servir aos futuros funerais por muitos e muitos anos. Alguns jazigos eram religiosamente cuidados durante todo o ano. As famílias visitavam seus mortos semanalmente, quinzenalmente. Limpavam, podavam as plantas que cercavam as sepulturas, cuidavam da pintura quando descorada. Esses jazigos sempre estavam impecáveis! Os demais ganhavam trato apenas na época de Finados. E sempre havia muito trabalho. As chuvas, com as suas enxurradas volumosas, levavam a terra, as calçadas e os tijolos das sepulturas. E havia, ainda, as rachaduras provocadas pelas acomodações do terreno. Além disso, o sol impiedoso descorava as pinturas, deixava tudo muito triste, desgastado. Naquela época não havia floricultura nem flores plásticas. As flores, que eram colocadas nos túmulos, eram colhidas nos quintais das casas. As famílias as levavam no amanhecer do dia de Finados, e eram colocadas em vasos com água, sem a menor preocupação com doenças. Não se falava em dengue. Se não fosse dessa maneira, recorriam às flores de papel crepom e de pano, feitas em casa, ou às coroas de flores de lata. Compradas na funerária, pedidos feitos de acordo com as encomendas, essas coroas eram do tamanho de um aro de bicicleta. Tinham as folhas e flores feitas de lata, material parecido com o zinco, todas recortadas, trançadas, presas nos fios de arame que formavam a circunferência. E pintadas à mão. Essas coroas resistiam por anos e anos, mas desbotavam. Então, anualmente elas recebiam uma demão de tinta. Tinta a óleo verde para as folhas, e as flores sempre vermelhas, amarelas, ou brancas. Eram essas as cores que Juvenal usava. Não colocava outras cores. Nem sei se havia... Nunca ninguém ousou misturar o vermelho com branco para fazer a flor rosa. Vivi essa realidade por anos e anos a fio, e nunca vi uma flor de lata pintada de outra cor que não fosse vermelha, amarela, ou branca. E todos estes serviços, desde o aterramento dos túmulos até a pintura das coroas de lata, tudo era feito por Juvenal. Bastava olhar o túmulo no dia de Finados. Pelas cores da coroa era possível saber se tinha, ou não, recebido os cuidados do Juvenal. E, para dar conta de todo esse trabalho, Juvenal começava com muitos dias de antecedência. Primeiro fazia os serviços mais grosseiros. Aterrava, consertava as calçadas, recolocava os tijolos que faltavam, recompunha os túmulos com rachaduras, cuidava dos rebocos, da pintura dos jazigos. E eram muitos... Dezenas e dezenas deles. E, por último, ficava o serviço de pintura das coroas de lata. Que também eram muitas... Dezenas e dezenas delas. Trabalhava das seis da manhã às seis da tarde. Levava a comida num caldeirão com tampa, assim não perdia tempo em voltar para casa no meio do dia. E como trabalhava! Particularmente nesse ano, nesse período de Finados o trabalho estava atrasado. Talvez pelo calor excessivo, talvez por ter assumido mais tarefas que nos anos anteriores, ou até mesmo porque Juvenal estava mais velho, mais lento. Enfim, não importava a razão, o que importava é que o trabalho estava atrasado, e precisava ser feito em tempo. Assim, na véspera, faltando um dia para Finados, Juvenal, que precisava finalizar a pintura das coroas, e sabendo que para isso precisaria de mais horas de trabalho, decidiu que pintaria durante toda a noite. E assim fez. Afinal, uma noite em claro não o prejudicaria em nada. Quando começou a escurecer, pediu ao coveiro que, antes de sair, deixasse acesa a luz do poste ao lado da capela. Juntou ali as coroas ainda a serem pintadas, as tintas, os pincéis, a moringa com água, e continuou seu trabalho. Estava uma noite tranquila. Apesar do calor insuportável do dia, a brisa da noite era fresca. Noite escura, sem lua. E Juvenal trabalhava sem parar... Lá pelas cinco horas da manhã, contente por estar chegando ao fim da empreitada, começou a ficar incomodado. Estava com fome, e não havia nada para comer. Tinha trabalho para mais duas horas, mas estava com fome... Sem parar com as mãos nos pincéis, pensava, insistentemente, numa maneira de arrumar alguma coisa para comer. De repente, ouviu o trotar de um cavalo bem distante. Longe, bem longe... Apurou os ouvidos, e percebeu que era a carroça do entregador de pães. Isso mesmo! A padaria do Seu Miguelão Português, única da vila, oferecia esse serviço. Os pães eram feitos na madrugada, e o empregado saía com a carroça para fazer as entregas nas casas dos fregueses mensalistas. E também vendia pães para quem os quisesse comprar. Era uma carroça pintada de branco, feita de folha de flandres, ou de zinco, fechada, com portinhola na parte de trás. Nas laterais havia o desenho de um imenso bigode preto e uma boca com um discreto sorriso. Coisa do Seu Miguelão Português, que nem tinha bigode! Em cada entrega, o empregado parava a carroça, descia, abria a portinhola traseira, acondicionava os pães em sacos de papel, e os colocava no embornal pendurado no portão, ou na porta, ou na parede da casa do freguês. Sempre havia um embornal esperando. E, muitas vezes, o próprio freguês estava de pé, aguardando na calçada. Serviço trabalhoso e demorado. Juvenal se animou. Afinal, quando a carroça passasse por ali, ele poderia comprar dois pães e aplacaria a fome. E continuou pintando enquanto esperava que o entregador rodasse pelos quarteirões, e finalmente descesse pela rua do cemitério. Não podia perder tempo! Quando percebeu que a carroça estava bem próxima, Juvenal correu para o canto do muro do cemitério, subiu num cavalete de pau que ficava ali, e com a cabeça acima do muro, ergueu os braços e começou a balançá-los no ar para chamar a atenção do entregador de pães, sem que precisasse gritar. Afinal, ainda estava escuro, e muitas pessoas ainda dormiam. O cemitério ficava num terreno bem alto, a rua da frente era de terra, forrada de pedriscos e cascalhos soltos, e formava uma ladeira em direção da vila. Costumeiramente, quando o entregador de pães passava diante do cemitério, um tanto ressabiado, naquele lugar ermo, numa noite escura, tratava de fustigar o cavalo para que fosse mais rápido. Ao começar a descer a ladeira, vislumbrou no canto do muro a cabeça de Juvenal, os braços erguidos sendo sacudidos no ar... Na escuridão não dava para saber quem era quem. E ele nem queria saber... Ficou endoidecido! Soltou as rédeas, levou as mãos à cabeça, enfiou os dedos pelos cabelos e destampou a gritar. Urrava de pavor... O cavalo, com as rédeas soltas, desembestou numa carreira doida ladeira abaixo. A carroça quase nem tocava as rodas no chão. Voava! E foram tantos solavancos que as amarras se soltaram, a carroça se desvencilhou, tombou. O entregador de pães, aos berros, foi arremessado longe, caindo sobre uma moita de capim. E berrava. Sentado, com as mãos enfiadas nos cabelos, os olhos estatelados, gritava... Juvenal, atordoado, continuava no canto do muro, também com as mãos na cabeça. Tudo aconteceu tão rápido... Só então percebeu que havia assustado o entregador de pães Como estava sem a chave do cadeado do portão, o coveiro o deixara trancado, Juvenal fez um esforço danado para pular o muro e ganhar a rua. E, no escuro, saiu à procura do entregador de pães. Orientado pelos gritos, foi chegando perto. O cavalo escafedeu-se. A carroça estava ali, virada, de rodas para cima, pães esparramados pela rua inteira misturados com a terra, com o cascalho, uma desordem absurda! Tateando no escuro e guiado pelos berros, avistou o entregador de pães. Esgoelando, ensandecido! E procurou aproximar-se, devagarinho... Quanto mais se aproximava, mais ele berrava. E foi chegando gente... O entregador de pães acordara toda a vizinhança. Acho que toda a vila, tamanha a multidão que se juntava! E todo mundo ali querendo saber o que estava acontecendo, o entregador se esgoelando, arrancando os cabelos, e Juvenal no meio daquela doideira. Numa encabulação que fazia pena! Juvenal implorava ao entregador de pães que se calasse, ele queria explicar o que havia acontecido. Queria falar que foi ele quem acenou no muro do cemitério, que estava com fome, que estava trabalhando... Mas, que nada... Inútil. O entregador de pães só queria gritar... O dia estava clareando, e Juvenal continuava ali, sentado no capim, olhando para os pães espalhados pela rua, na terra. E o entregador, aos berros. Foi chamado o Seu João da botica, o único farmacêutico da vila. Ele tentou, por inúmeras vezes, falar com o entregador de pães. Inutilmente... Então, à força, cinco homens o imobilizaram e o levaram para o posto de saúde. E ele, gritando. Pelo que se conta, ele gritou por dois dias e duas noites, até que a voz acabou. E, por muito tempo, acordava no escuro da noite e punha-se a gritar. O entregador de pães se foi há muito tempo, mas durante o tempo em que viveu depois daquele dia de Finados, nunca mais foi o mesmo. E Juvenal, que se foi um pouco depois, nunca conseguiu explicar ao entregador de pães o que realmente acontecera naquela madrugada. Sempre que tentava, o entregador se transtornava, e os gritos voltavam. Então, ele desistiu. Deixou por isso mesmo... Regina Ruth Rincon Caires

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

O estranho visitante


A cada enxadada, fincando o chão seco, duro e praguejado, o suor escorrendo pelas costas abaixo, sob um sol impiedoso, Gregório, involuntariamente, matuta. Se ao menos essas lembranças o abandonassem um pouco, a força dos braços seria mais viva. Qual o quê? Ferem seu corpo como espinhos, ficam como acordes de tristeza a tocar-lhe a alma. Pensamentos teimosos! Por que não se vão feito a chuva?!
Gregório para um pouco... Tira o chapéu. Os cabelos grudados à testa, o suor caindo-lhe sobre as pálpebras enrugadas. Sente-se um caco! Olha a sua volta, demoradamente, e depois ergue seus olhos para o céu. Nada de nuvens! O céu infinitamente azul, e o sol, majestoso, reinando tirano. Tem sede... Olha para a moita de arbustos lá adiante, e sente-se desanimado calculando a distância que o separa da sua moringa. O jeito é arranjar forças para chegar até lá. Sem água nem é possível pensar, quanto mais continuar! Descansa a enxada sobre o torrão de terra que acabou de revirar e segue em direção dos arbustos.
Farto, saciado com a água fresca da moringa de barro, pensa num cigarrinho... Afinal, pressa num dia como hoje é bobagem! O corpo não suporta aquele calor infernal! Tem consciência de que hoje o trabalho rende pela metade.
Passa a botina pelo capim seco como se limpasse o chão, e solta o corpo num sentar extenuado. Passa a mão no embornal e dele retira um pedaço de fumo, o canivete, a palha de milho. A mão esquerda em forma de concha protege os fiapos de fumo que ele vai picando. Cheiro forte e bom! Não resiste... Coloca um naco na boca.
Cinco anos já se passaram desde que sua mulher se foi... Cinco anos doídos, arrastados, vazios. Doença maldita! Tudo tão rápido que não teve nem tempo pra se acostumar com a ideia. Teve que se acostumar, que se arranjar mergulhado na dor. Ficou muito difícil, tanto que até hoje não se resignou.
Nessa época do ano ainda é pior. Dezembro lhe dá um desconsolo, um desamparo. A solidão  é tamanha que parece transpirar pelos poros. Bom seria se não existisse este pedaço do ano!
Amanhã é Natal. Diacho de dia mais bobo! Ainda bem que já se preveniu... A garrafa de pinga o aguarda! É sempre assim... Começa a beber à noitinha e vara as outras vinte e quatro horas numa carraspana sem fim. Duro mesmo é o outro dia! Um vazio no estômago, enjoo, tremura no corpo, suadeira fria e um desânimo de dar pena! Pelo menos durante algumas horas não pensa. Apenas dorme... Se nos intervalos, entre um gole e outro, aquela saraivada de pensamentos teimosamente tenta chegar, Gregório não vacila. Sorve goles rápidos e constantes até que... adormece. É assim o seu Natal. Nem as portas da casa abre. Pra quê? Não carece...
Mas agora, ali sentado, dando tragadas longas e repetidas no seu cigarro de palha, sóbrio, não tem como afugentar suas idéias. Se ao menos um filho viesse! Que nada! Isso só aconteceu no primeiro ano... Depois, foi tudo só. Ele e a vida...
Tem dia que fala sozinho, ou mesmo com seu pangaré. Fala pra ouvir o som da própria voz. Naquele fim de mundo não arranja nem companheiro pra dar uma prosa! Às vezes fica pensando se ainda sabe falar. Passa dias e dias, semanas inteiras sem dizer palavra. Fica feliz quando vê, pela poeira da estrada, uma boiada a caminho. Sabe que ali vai um peão e que vai lhe sobrar um dedo de prosa. A conversa é sempre a mesma. A saudação, o calor, a falta de chuva ou uma doença que apareceu em alguma rês. Ele se empolga tanto nestas proseadas que, às vezes, chega a acompanhar o peão, beirando a estrada, por um bom trecho do caminho! Só para ter o gostinho da companhia.
Na vila não se anima muito a ir. Só vai mesmo quando a necessidade manda. É muito distante e seu pangaré anda muito judiado pela seca. Se forçar muito pode ser desastroso! Imagina perder seu companheiro! Só lhe restará falar sozinho!
O seu cachorro também se foi... Velho, já com o focinho branco, cego feito tamanduá. Foi definhando, ficou encaramujado e numa manhã Gregório o encontrou estirado. Dia triste!
Agora lhe resta o pangaré. Está um traste velho, mas ainda lhe serve de companhia! É só a chuva chegar e ele estará mais forte. A idade não tem jeito, mas o capim gordo lhe trará novas carnes. A chuva não tarda... O dia dos Santos Reis está por aí, e na vinda sempre traz  chuva!
Gregório ergue o chapéu, reverenciando os Santos. É assim... Mesmo quando pensa, quando invoca os santos de sua devoção, não deixa de reverenciá-los com seu chapéu. Santa veneração!
Joga o cigarro, e com a botina o pisoteia várias vezes até se certificar de que realmente não há risco nenhum da brasa queimar o capim seco. Tem pavor de queimadas! Já viu tantas, mas não consegue se acostumar a elas. Fogo é bicho que teme!
Hora de recomeçar a lida. Se bem que a vontade é nenhuma, mas a praga tem que se vencida agora, nesse tempo. É na terra seca que a raiz morre. É bem verdade que a sementeira fica na terra, mas até que a chuva não chega ela não germina. Dá tempo de recuperar o ânimo e preparar a nova roça. Nem sabe quantas vezes já capinou este mesmo trecho! Nem é bom pensar... Desanima.
E lá está Gregório novamente. Só se ouve o resvalo da lâmina na terra seca. São dezenas e dezenas de braçadas para capinar um pequeno trecho. A cada quarto de hora ergue o corpo, espicha a coluna para trás colocando as mãos nas cadeiras. Serviço bruto! Pior ainda com aquele sol a lhe castigar o lombo!
Suspira fundo e volta à capina. O assa-peixe este ano está de matar! Há touceiras tão imensas que chegam a desanimar. Gregório procura nem olhar o que está por fazer. Prende os olhos no trecho em que labuta. Que adianta olhar? Nem desanimar adianta.
De quando em quando lá está ele, parado. As mãos servindo de encosto pro queixo no cabo da enxada. Fica tempo olhando, perdido, nem sabe pra onde!...Sente pavor do escurecer! De noite a solidão é mais triste. Muito mais.
Olha para o céu... O sol já está indo, baixo. No horizonte, um vermelhão só. Sinal de que a seca continua. Santo Deus, até quando?!
Gregório acelera o ritmo. Parece não querer parar. Quer prolongar o dia. Ah! Se pudesse!... Já está bem escuro. Quase não consegue distinguir o trecho já pronto e bate várias vezes a enxada em torrões já revirados. Não adianta. É noite... Véspera de Natal!
Com a enxada nos ombros, o embornal de lado, e a moringa na mão, pega o trilho de casa. Nem assobia. Está com o corpo aniquilado, seus passos são curtos, pausados. Quer demorar ainda mais a chegar.
Apesar do cansaço do corpo, andaria a noite toda se isso lhe tirasse da cabeça todas aquelas lembranças. Daria tudo e faria qualquer coisa para não estar sozinho. Se ao menos tivesse alguém, uma única viva alma para prosear!
Bobagem! Ali só está ele. Ele e Deus, como costuma pensar. Pena hoje Deus não se tornar homem e passar o Natal ali, com ele! Poderiam conversar, comemorar, beber juntos. Arre, cada pensamento!...
Gregório chega em casa. Nem tem vontade de acender a lamparina. Banho então, nem pensar! Pra quê? Daqui a pouco encharca-se de pinga e aí é uma água só! Antes, porém, precisa comer alguma coisa. Ainda bem que deixou uma panela de arroz sobre o fogão de lenha, e tem linguiça dependurada na despensa. É o suficiente.
Enquanto acende a lamparina, faz uma oração para o Menino Jesus. Afinal, é o Seu dia! Tem que rezar agora porque depois não vai se lembrar nem do seu nome, quanto mais de oração!
Junta ao arroz uns pedaços de linguiça, atiça as brasas do fogão, coloca umas palhas de milho para aumentar o fogo e aquece a comida. O cheiro é divino! Chega a lhe dar água na boca!
Arranca as botinas, tira a camisa, passa as mãos pelos cabelos e puxa o banco para perto da mesa. Já ia enfiando a primeira colherada de comida boca adentro, quando ouve uma voz:
-    Ô de casa!
Gregório estremece de susto. Quem poderia ser a essa hora da noite? Pela voz imagina ser uma pessoa idosa. Voz rouca, trêmula mesmo!
-    Ô de fora! Já tô indo!
Ainda sem se refazer do susto, Gregório sai rapidamente pela porta da cozinha levando a lamparina nas mãos. Assusta-se ainda mais diante do que vê. Meu Deus, que trapo humano! Um homem, as roupas em farrapos, pés descalços, cabelos ensebados, barbas enormes, corpo magro, arqueado, rosto bem feito, mas incrivelmente abatido. Olheiras escuras e profundas. A magreza excessiva deixa-lhe os ossos da face saltados, salientes. À primeira vista, uma visão chocante, aterradora! Aos poucos, Gregório vai se aproximando e a chama da lamparina vai delineando mais seus traços. Olhos serenos, incrivelmente serenos!
-      Boa noite! O que o traz aqui?
-   Boa noite! Estou apenas à procura de um prato de comida. Espero que tenha sobrado alguma coisa por aqui. Estou faminto! Há vários dias que não sei o que é comer de verdade...
Gregório pensa na comida que acabou de esquentar e que estava prestes a devorar. É tudo que tem, mas não tem importância. Afinal, já almoçou hoje e não irá sucumbir se não comer agora. Rapidamente gira o corpo sobre o calcanhar e entra pela cozinha. Passa a mão no prato de comida sobre a mesa, volta e o entrega ao estranho visitante.
O homem ávido por alimento, num instante abraça o prato e com colheradas  rápidas e incessantes vai pondo fim a sua fome. Gregório fica espantado com a voracidade, com a rapidez com que o visitante esvazia o prato. Coitado! A que situação chegou!
Gregório está aturdido. Tanto que só agora percebe que não convidou o homem para se sentar! Meu Deus, ele devorou tudo aquilo de pé?! Que distração!
-       Desculpe a pergunta, mas qual é sua graça?
-       Mariano, meu bom homem. Mariano, seu criado!
-       Vamos chegar, Seu Mariano!
Ao ser convidado a entrar, o homem vira-se para o lado, abaixa o corpo e pega um pacote que estava no chão.
Já dentro da cozinha, Gregório diz:
-       Puxa a cadeira e senta um pouco...
-      Vou aceitar, Seu....
-      Gregório, isso... Meu nome é Gregório.
Mariano vai entrando. É realmente alto, tem que se curvar, baixar a cabeça para passar pelo batente da porta. Senta-se na cadeira de palha e encosta um cotovelo sobre a mesa. Gregório senta-se no banco, do outro lado, de frente para ele.
-  Então, Seu Mariano, agora que já comeu, amansou o estômago, conta aqui pra esse velho, o que faz por estas bandas?
-  Nada, não faço nada, Seu Gregório! Eu sou assim mesmo! Ando sempre, sem parada. Passo as noites ao relento, e vou comendo aqui, acolá, aonde me dão um prato de comida... Hoje é diferente! É véspera de Natal! Não queria ficar sozinho pela estrada. É uma noite muito bonita pra guardar só comigo! Lá da estrada vi a luz da lamparina, e pensei que bom seria juntar a minha alegria desta noite com a de mais alguém, ou até mesmo dividi-la... Espero não estar atrapalhando!
-  De maneira alguma, Seu Mariano! Eu tava até meio encabulado de ficar aqui sozinho hoje. Já fiz até minha oração porque... pensava em dormir cedo, não tinha nada que fazer!
Gregório sente vergonha de dizer que havia rezado antes porque planejara tomar um porre e cair pelas tabelas. Fica quieto. Apenas se cala, não vai mudar nada!
-  Sabe, Seu Gregório, quando começou a escurecer eu estava passando diante da sua porteira. O senhor estava na lida e parei pra observar. Vi que o senhor estava ansioso, querendo capinar mais e mais... A noite já havia caído e a enxada ainda zunia na escuridão. Deu-me a impressão de que não queria voltar pra casa. Estou enganado?
Gregório fica meio sem jeito de saber que foi observado, pensa um pouco e resolve falar.
-   Não, Seu Mariano. É isso mesmo! Não queria voltar porque a noite é muito triste, principalmente a de hoje. Sem família, sem ninguém pra conversar. Juro mesmo, minha vontade era de ...
-       Beber até cair, não é Seu Gregório?
-   Isso mesmo! Queria beber, beber até perder o tino e descansar esta velha cabeça que não para nunca. O senhor sabe o que é viver neste fim de mundo, sem escutar uma voz, tendo na cabeça as lembranças dos dias passados?! Fechando os olhos e vendo as crianças correrem de um lado pro outro, a patroa indo e vindo, cuidando da lida da casa... Abrindo os olhos e vendo o vazio, o silêncio, só isso, silêncio e solidão. É um fim de vida muito triste, Seu Mariano! Nunca pensei chegar a isso!
-   Não acontece só com o senhor, Seu Gregório! Quantos solitários há por este mundo de Deus?! Nem por isso a vida acaba! É preciso saber trabalhar esta solidão, este silêncio! Pensamentos amargos e lembranças que machucam não ajudam em nada! Temos que aprender a enriquecer a nossa fé. É no silêncio que alimentamos nossos mais nobres sentimentos! O silêncio não é inexistência de palavras. Elas soam e falam para a nossa consciência. É a maneira mais pura, mais verdadeira de conversar. Se todos ouvissem essa conversa silenciosa a que me refiro, todos seriam mais felizes, mais completos, mais íntegros! É preciso ouvir, ouvir muito...
Gregório presta muita atenção em tudo que o visitante diz. Se entendeu direito, ele fala que ficar sozinho e em silêncio não é de todo ruim. Passa a mão pela cabeça, como se com isso ajeitasse os pensamentos e guardasse cada palavra dita pelo visitante. Afinal, a fala dele é um presente para os ouvidos de Gregório! Há quanto tempo não proseia tão demoradamente com um amigo?! Ele, ali, hoje, só pode ser um presente do céu!
Gregório fica como que embevecido com a conversa do visitante. Nem se lembra da pinga, da aflição da tarde, para dizer a verdade, nem fome sente! É como se as palavras do amigo lhe tivessem abastecido o estômago, a alma. Só uma coisa o intriga!... O pacote que o visitante trouxe à mão e que, cuidadosamente, protege durante todo o tempo. Que será que tem dentro?
Conversam muito, até altas horas da noite. Na verdade nem sabem que horas são, mas o sono vem chegando. O andarilho, cansado da caminhada, e Gregório, extenuado pelo trabalho da capina.
Gregório percebendo o sono do amigo, adianta-se em arrumar uma cama no chão, ao lado da sua. Logo os dois estão deitados. Gregório tem vontade de continuar a prosa, até tenta, mas o cansaço é tamanho que nem consegue completar o pensamento. Dorme... Sonha sem parar. Sonhos bons!
É madrugada ainda quando Gregório acorda. No escuro, fica um tempo meio confuso... Os sonhos, o dia anterior, o anoitecer, a noite, o visitante... O visitante!
-      Seu Mariano!
No escuro, ele chama pelo amigo. Ninguém responde.
-      Seu Mariano!
Intrigado por não ouvir resposta, Gregório se levanta e acende a lamparina. Ninguém mais no quarto... A cama, estendida como na noite anterior. Ele havia se deitado! Deve estar na cozinha!
Gregório corre a casa toda. Nada. O visitante não está em canto algum. A casa continua toda trancada por dentro. O que teria acontecido?!
Os olhos de Gregório começam a percorrer tudo novamente. Aos poucos sua cabeça vai compreendendo tudo o que aconteceu ali. Olha a cozinha demoradamente. Para as vistas na mesa, onde conversaram. O pacote está lá, bem no centro. Gregório fica curioso! Que será que traz? Por que será que o amigo deixou o embrulho sobre a mesa?
Indeciso, Gregório começa a rasgar o papel. Fica receoso, mas sente que é um presente para ele. Finalmente, o papel todo rasgado deixa às vistas o presente. Que encanto de presente! Um rádio!
Gregório sorri, satisfeito. Liga-o rapidamente, gira o botão sofregamente, e numa sintonia ruidosa, quase inaudível, entrecortada, encontra uma emissora. Está começando a oração da manhã. A voz é rouca, doce, pausada, fala com o coração. Gregório apura os ouvidos... Conhece essa voz! Soa como a voz do visitante...
Não fica impressionado, nada o assusta. Afugenta as interrogações, não quer quebrar o encanto... Apenas entende, e reforça a sua fé.

                                                      
                                                       Regina Ruth Rincon Caires           

                                                                                      27/06/1991


                                     (Conto premiado no Concurso de Contos da Cidade de Jales -  1991)

domingo, 27 de outubro de 2013

A magia do circo


Naquela manhã de terça-feira, a carteira estava desconfortável. A professora falava sem parar, e com o burburinho da classe, sua voz alterada soava estridente, quase que insuportável. Não pensei duas vezes... Apoiei os cotovelos sobre a carteira, com as mãos espalmadas cobri os ouvidos e, lá de trás, fiquei olhando a lousa. Os olhos estavam fixos na pedra negra, ou verde escuro, mas nem enxergava. Pensava no circo... No circo que deveria chegar à vila naquela manhã. Eu queria tanto estar na rua vendo os carros, os caminhões trazendo os mastros, as tábuas das arquibancadas, as lonas, os trailers!
E estava ali, naquela carteira dura, entre quatro paredes e tendo que ouvir aquela voz estridente, ininterrupta. Se pelo menos ela não precisasse falar tanto!
Ficava até engraçado! Eu, com os ouvidos tapados, os olhos presos no quadro-negro, e a figura da professora aparecendo intermitentemente enquanto explicava pela quinta vez o mesmo problema, caminhando de um lado para o outro.
Era curioso vê-la mexer os lábios sem parar! Que será que falava naquele momento? Seria fácil saber, bastaria baixar as mãos!... Mas não queria... Queria pensar no circo...
Quando tocasse o sino avisando o final da aula, ia sair voando pelo portão da escola. Será que a duração do período havia mudado? Por que custava tanto a tocar o sino? Será que o servente havia cochilado? Se demorasse mais um pouco, ficaria de pé. Não aguentava mais aquela carteira!...
Bléim! Bléim! Bléim! Hora santa! Bendito seja este servente! Não suportaria mais um minuto!
A distância da escola até em casa nem vi, nem senti. E foi só o tempo de jogar a bolsa, tirar o uniforme, pegar um pedaço de pão e... pé no mundo... A rua principal da vila me aguardava! Era um trote só. Meus pés nem sentiam os degraus, as guias de sarjeta, os pedregulhos... De repente, era como se o chão fosse todinho plano.
Que decepção! A rua estava quase que deserta, parada demais. Apenas um ou outro andante, sem pressa. O que será que havia acontecido?!
Atravessei a rua num salto e olhei para o terreno vazio, ao lado da igreja. Nada de caminhões, nada de circo... A venda do Seu Chico!... Era lá que tinha que perguntar....
- Seu Chico, cadê os caminhões do circo?
- Que nada, Crovito!  Chegou nada não!
Caramba! Seu Chico não aprenderia nunca a falar meu nome. Já não era dos mais bonitos e, ainda por cima, falado errado!
Ajeitei-me na beira da calçada e só depois de alguns minutos, dei conta do pão amassado entre os dedos. Com os dentes ia rasgando os nacos e mastigando... O sol estava de rachar!
Será que o dono do circo havia mudado de ideia e resolvido ficar na vila vizinha onde o dinheiro corria mais solto?! Por que demorava tanto? Será que traria bichos? E o palhaço, seria bom de serviço? Ah! Claro! Eles sempre são bons! E o trapézio?! Melhor que não tivesse trapézio... Era um momento de sofrimento no circo. Não gostava da aflição que eu sentia no peito enquanto aqueles doidos faziam estripulias nas alturas. Mesmo sabendo que havia a rede de proteção, ficava agoniado, com as mãos suadas, o corpo retesado, e o pescoço doendo sem parar... Definitivamente, trapézio era aflição, e não distração.
Com os olhos semicerrados, ofuscados pela luminosidade excessiva do sol, fitava sem parar o começo da rua, lá na baixada perto da caixa d’água, na entrada da vila.
Minha expectativa se aguçava com qualquer ruído de carro vindo daquele lado. Chegava mesmo a me levantar! E ficava desapontado quando percebia ser apenas um caminhão de bois, ou um ônibus. Uma poeira infernal, sem falar do calor!
Lá pelas quatro da tarde, depois de haver saturado a paciência do Seu Chico para saber as horas, minha alegria ganhou alento.
Num barulho avassalador, alto-falante a toda prova, buzinas e gritarias, a frota do circo despontou na entrada da vila. Num salto, coloquei-me de pé e saí numa desabalada carreira. Queria ver cada movimento, dissecar com os olhos cada caminhão. Que alegria!
Quando me vi diante dos carros, fiquei estarrecido.  O motorista da frente buzinava sem parar e fazia sinais para que eu saísse da rua. Só então me dei conta de que estava atrapalhando a passagem, e pulei para o lado do caminhão, rente à calçada. E corri como nunca, acompanhando a caravana! Eu pulava, gritava, assobiava... Santa Maria! Que alegria eu sentia!
Quando cheguei à praça, estava ofegante. Sentei-me no banco e fiquei observando os forasteiros. Parece que a vila inteira se juntara ali. Brotavam pessoas em todas as esquinas, e iam se aglomerando, batendo palmas, acenando os braços, erguendo os chapéus. Cada um extravasava sua emoção como queria. Era tão espontâneo que, quando olhei pro Seu João da Farmácia, ele com os braços erguidos, sapateando como se dançasse catira, ficou meio sem jeito, fitou-me de relance e ajeitou os óculos sobre o nariz. Era tudo tão fantástico! O circo era, sem dúvida nenhuma, a alegria daquela vila quase sertão.
Grudei os olhos nos badulaques dos caminhões. Os artistas, todos em roupas coloridas, vivas, ciganas. As mulheres traziam várias voltas de colares e pulseiras, e na cabeça, cachos e cachos de flores. Tudo transpirava ilusão... Os ciganos alegres, trazendo nos sorrisos a ilusão do ganho para a subsistência, e nós, mostrando no delírio da receptividade, a avidez de ilusão para preencher nossa vivência.
Não perdia o menor detalhe! Era um circo pobre, visível na decrepitude da frota. Mas, não importava... O que valia mesmo era a euforia da chegada e a certeza de que o circo ficaria por ali uma, duas, três semanas... O tempo de permanência era determinado pela bilheteria. Tomara que todos fossem ao espetáculo... e todos os dias!
A caravana contornou a praça e instalou-se no terreno ao lado. Era um rebuliço só!  A multidão curiosa aglomerava-se ao redor dos carros atrapalhando até mesmo o desembarque das pessoas. Os artistas sorriam, acenavam, jogavam beijos, mas dava para se perceber que queriam ficar um pouco à vontade, pelo menos o tempo necessário para montarem o acampamento.
Pouco a pouco os curiosos foram se afastando. Seu João voltou para a farmácia, Seu Chico foi rapidinho para a venda... Todos se foram, menos eu. Gostava de ver o trabalho, a organização dos ciganos quando chegavam. O trabalho era tão dividido e tão sincronizado que em pouco tempo o acampamento estava montado. As barracas, num passe de mágica, iam pipocando na volta do terreno. Havia apenas dois trailers. Um era do dono do circo, e o outro era para guardar as roupas e apetrechos dos artistas. Não havia bichos, apenas três cachorros que serviam de guarda. Enormes e mal encarados, com grandes bochechas caídas, e babões... Ainda bem que ficavam amarrados!
Os ciganos falavam pouco. De vez em quando se ouvia a voz do chefe dando uma ou outra ordem. Era tudo muito bem repartido. Cada membro da caravana já sabia da tarefa que lhe cabia e a executava num piscar de olhos. Não descarregaram as tralhas da armação do circo. Isso ficaria para o dia seguinte. Seriam contratados trabalhadores avulsos, gente da vila mesmo, que ajudariam no serviço braçal. Pena estar escurecendo! Não demoraria muito e teria que voltar para casa. Pensando bem, até que seria providencial! Estava apertado, precisando de um banheiro, e meu estômago reclamava sem cessar! Percebi que as ciganas começavam a luta com as panelas, duas crianças com uns trocados nas mãos, correram para a venda do Seu Chico. Foram em busca de lingüiça e manjuba.
Meti as mãos nos bolsos, suspirei fundo e virei para casa. Ia assobiando, ora trotava, ora caminhava. Pensava sem parar na vida dos ciganos. Vida estranha! Povo sem casa, povo sem pátria... E unidos, extremamente unidos!... 
Na vila corria um boato de que eram ladrões. Quando estavam por ali, ninguém ousava deixar nada para fora, à noite. Minha mãe recolhia até os trapos do varal! Sabia lá até onde aquilo era verdade!...  E quando eles partiam, o povo ficava preocupado, com medo que a caravana levasse alguma criança da vila. A verdade verdadeira eu não sabia, mas percebia um certo temor na carinha das outras crianças quando se aproximavam dos ciganos.  Eu não! Medo eu não tinha, mas um pouco de cisma, não podia negar! Talvez todas aquelas histórias tenham sido inventadas, levando-se em conta a vida diferente dos ciganos. Era um povo sem raízes, sem parada, descompromissado, alegre demais diante da crueza da vida. Nem suas crianças conseguiam estudar direito! Era um “levanta-acampamento” sem fim!
Em casa, depois de uma bronca daquelas, uma comidinha gostosa para forrar o estômago tão castigado com as aventuras do dia.
O tempo gasto foi só aquele: o do banho e o da janta, e de novo na rua. A noite caiu pra valer! Escuro feito breu! Metido em roupas limpas, peguei o caminho da praça. Não via a hora de chegar no acampamento. Que beleza!... As tendas com os panos erguidos, lampiões espalhados por todos os lados. Ainda não tinham puxado a energia do poste da esquina. Uma grande fogueira no meio do terreno e as pessoas todas em volta. O barulho da música era estimulante. Tocavam guarânias e cantavam. Quando a música era mais fogosa, as mulheres punham-se de pé, puxavam seus parceiros e dançavam sem parar, rodopiando soltas, com as saias vastas e coloridas abrindo-se em toda dimensão. E como eram bonitas as ciganas! Que povo alegre!
Fiquei tempo acocorado num canto, observando tudo. Não perdia nada! Nem queria... De repente, dois pivetes vieram ao meu encontro. Os mesmos que foram à venda do Seu Chico. Eram mais ou menos do meu tamanho. Foram se chegando, e puxaram prosa.  Perguntaram meu nome, se estudava, e queriam saber onde eu morava. Não respondi de jeito nenhum! Não podia fazer amizade, minha mãe me mataria se eu aparecesse em casa com dois ciganinhos!...
Sentaram-se no chão e ficaram remexendo, com os dedos, a terra solta.
-  Você quer brincar com a gente?
-  Não! Quero dizer... Amanhã, quem sabe?!
-  Não precisa ficar com medo! Só queremos brincar, nada mais...
- E quem foi que disse que estou com medo? É que agora não posso, tenho que voltar pra casa...
Fui me levantando, fiz um aceno pouco convincente de que estava seguro, e rumei para casa. Não havia sentido medo, apenas achava que tinha que ficar mais chegado antes de brincar. Para falar a verdade, nem sabia que cigano brincava! Talvez eles nem conhecessem minhas brincadeiras!...
Ia andando e pensando, e cheguei a me irritar de imaginar que eles pudessem supor que eu era um medroso, um maricas. No dia seguinte eu poderia falar novamente com eles, e se a impressão tivesse ficado, poderiam perceber que não era nada daquilo!
Deitado de costas, eu olhava o teto e pensava longe. Fiquei matutando como que os ciganos dormiam. Não vi camas no acampamento! Será que dormiam no chão?!
Pensando, revivendo cada minuto do dia, revendo o rosto dos dois ciganinhos, seus sotaques, a maneira cantada de falar... Em meio a tudo isso, dormi profundamente...
Caramba! De novo naquela classe, naquela carteira dura, com aquele burburinho de moleques, a voz estridente da professora, e eu de novo com os ouvidos tapados. Que martírio!
À tarde, quando cheguei ao acampamento, a estrutura do circo estava quase toda montada. Uns trabalhavam nas estacas de sustentação, outros na montagem das arquibancadas, e os mais atirados se punham lá em cima, na colocação da lona. O martelo comia solto. Tudo tinha que ser executado com segurança, nada podia ser negligenciado.
Fiquei ligado na montagem do palco. Ali se desenrolariam os dramas, histórias costumeiramente repetidas, mas sempre cheias de encanto. Gostava de ver “O Ébrio”...  E chorava todas as vezes que assistia! Sabia de cor e salteado tudo o que aconteceria, mas era sempre um toque fundo na minha emoção. E chorava... Como chorava! Minha mãe também!
A estréia estava programada para a noite de sexta-feira. A dupla sertaneja que se apresentaria na grande noite seria “Tonico e Tinoco”. Na vila não se falava em outra coisa! No sábado, a atração principal seria o “Lambari”, um artista-palhaço muito querido por aquelas bandas. Eu não perderia um espetáculo. Nem que fosse pra vender pirulitos para a cigana!
Falando em pirulitos, gostava de ver a cozinha dos ciganos em dia de espetáculo. Era um corre-corre danado! Amendoim, pipoca, quebra-queixo, pirulitos de açúcar queimado e Q-Suco de cereja, se bem que o que eu via mesmo era licor de groselha sendo misturado! Eles usavam garrafinhas vazias de guaraná, e nelas colocavam o suco. Conforme iam esvaziando, as mulheres enchiam novamente, e o menino-vendedor voltava ao circo com novo estoque. Para dizer bem a verdade, nem lavavam os vasilhames entre uma enchida e outra. No final do espetáculo, os últimos a tomarem suco, ficavam enfastiados só de perceber o melado, o grude que cobria as garrafas. Higiene passava longe!... Mas, tudo era festa. O suco ali no circo era melhor que qualquer guaraná servido nas mesas do almoço de domingo. Gostoso era o momento! Gostoso era o encanto, a magia do circo!
O que mais me impressionava era a preocupação das mães das moçoilas da vila, quando chegava um circo. As moças, de miolos moles e de corações feito gelatina, se empolgavam com os artistas e, deslumbradas, eram vítimas de promessas vãs feitas em noites de luar. Minha prima mesmo deu a maior bandeira quando o circo anterior foi embora. Minha tia, já experiente, percebeu alguma coisa no ar, e ficou de olho. Qual não foi a surpresa quando, dentro do malão no quarto, viu a trouxa de roupa feitinha, estava tudo arranjado para fugir na madrugada seguinte com a caravana.
Foi um tendepá, o tempo fechou, o circo partiu e minha prima ficou debulhada em lágrimas. Se ficasse sozinha, chorava, se alguém lhe falasse, chorava. O negócio dela era chorar! Chorou durante uma semana, depois... passou. Àquela altura, com novo circo na vila, sua cabecinha já deveria estar a mil, pensando nos novos artistas. Planos maquiavélicos estariam lhe dando nó nos pensamentos, com certeza!
Engraçado como tudo se repetia. Uma, duas, três... Inúmeras vezes e não perdia o encanto! A cada chegada de circo era uma festa tão esperada, tão curtida que parecia ser a primeira. E eu amava aqueles momentos!
Tudo estava uma beleza! A lona estendida no chão apresentava rasgos enormes, buracos por onde passariam chuva e sol suficientes para amolar várias pessoas. Mas lá no alto, esticada, aberta sobre as estacas, aqueles furos pareciam insignificantes, quase que imperceptíveis. Chegava mesmo a ficar bonita! Imponente! Era listrada de vermelho e amarelo. Alegre, alegre como aquela gente. Alegre como a vila estava. Ou era eu?!
O tablado de madeira, bem alto do chão, era grande. Seria o palco das grandes emoções. Ficava sempre imaginando o vexame que seria, se no meio do ato em noite de espetáculo, fossem acesas as luzes do picadeiro! Em meio ao drama que se desenrolava lá em cima, na platéia era um choro só, se bem que disfarçado, é claro! Às vezes, uma ou outra dama mais descuidada, ou mais incontida, deixava escapar um soluço, ou mesmo uma fungada, daquelas que saem da garganta quando tentamos engolir o choro. Aí era um desconforto... O marido lhe chamava à atenção, os filhos a recriminavam, e os mais indiscretos ou insensíveis soltavam gargalhadas.
Meu Deus! Como a mulherada chorava!... Não era só a mulherada, eu também chorava. Por isso ficava sempre perto da minha mãe. Ela não se importava com o meu choro. Também, se olhasse para ela sabia com certeza o que iria ver. A cara vermelha, a mão cobrindo a boca como que para sufocar o soluço, e os olhos encharcados. Eu era discreto. Nem olhava... Meu pai cruzava e descruzava as pernas. Balançava a cabeça de um lado para o outro como se achasse a situação patética. E repetia mil vezes:
-  Não sei pra que chorar? É tudo de mentira!...
    
Insensível! Não importava que fosse de mentira. O que importava é que retratava o verdadeiro, o real. Ele nunca entenderia! Ou entenderia?!
Se eu fosse adulto estaria trabalhando ali, na armação do circo. Mas, moleque ainda, sobrava-me olhar e fazer de tudo para evitar ser escorraçado dali. Prestava uma atenção danada no movimento dos homens que estavam por perto. Sabia que se os atrapalhasse seria convidado a me retirar. Nem pensar! Arrumava sempre um canto para ficar onde não incomodasse ninguém. Só queria ver, e bem de pertinho!...
À noite, tudo se repetia. A fogueira acesa num canto, a festa, a dança, e os ciganinhos puxando prosa. Eram inofensivos. Não passavam de crianças como tantas outras. Crianças com os mesmos instintos, com as mesmas brincadeiras, com as mesmas vontades. A única diferença ficava por conta da vida sem parada, sem raízes, da vida sem história, ou com muitas histórias, não sabia! Nem amigos fixos conseguiam ter! As amizades eram sempre superficiais, efêmeras, não havia tempo para que amadurecessem, para que fosse criada a cumplicidade de espírito, de pensamento, de experiências.
Noite de sexta-feira. O adro da igreja estava apinhado. Gente saindo pelo ladrão! As moçoilas, alvoroçadas, corriam de um lado para o outro, olhando aqui e ali, procurando os olhos verdes, os olhos castanhos, o príncipe encantado. Parecia até que o povo todo do campo, em redor da vila, estava ali. O circo já havia programado duas sessões. A primeira certamente lotaria com o povo da roça! Nada mais justo! Afinal, teriam de voltar para casa, e a casa não ficava nada perto!
Eu estava tão afoito, tão contagiado com todo aquele burburinho que sentia até formigamento no corpo. Parecia até que meu sangue voava nas veias! Meu ingresso estava no bolso, e não precisava me preocupar em entrar logo. A cadeira guardada ficava por conta da minha mãe. Ela sabia que eu tinha que ficar num lugar privilegiado, e também sabia que eu seria o último a entrar...
Precisava viver cada momento, cada minuto daquele vaivém da praça. E eram tantas cenas engraçadas! As discussões na fila da bilheteria quando algum intruso, se julgando muito esperto, tentava furá-la, os palavrões cheios de insultos daqueles que tinham os pés pisados por outros mais descuidados, a mãe gritando alucinadamente com alguma criança que, distraidamente, se dispersava na multidão. Era um desassossego de pernas, de braços, de bocas. Era como se todos tivessem combinado de falar ao mesmo tempo. E como eu curtia tudo aquilo!
Antes do início do espetáculo, eles soavam uma sirene por três vezes, com intervalos de dez minutos. Acabava de soar o segundo aviso e eu achei que deveria me encaminhar para a entrada... Poderia ter fila!
Não queria perder nem a apresentação dos artistas, aquela apresentação que era feita no começo e no final do espetáculo. Era tudo tão colorido, tão brilhante, e a música que a banda entoava era eletrizante!
Corri para a fila. Ainda bem que não estava extensa. Não demorou nada e eu já estava sob a lona, afundando os sapatos na camada de pó-de-serra espalhada pelo chão, e sentindo a claridade ofuscante dos holofotes do picadeiro. Que lotação! Que burburinho! Era um empurra-empurra, um esfrega-esfrega, desculpa pra lá, desculpa pra cá, tantas as vezes que os cotovelos resvalavam ora na cabeça de um, ora nas costas de outro...
Passei os olhos na fileira da frente, a primeira, diante do picadeiro. Em segundos descobri minha mãe que sinalizava indiscretamente com os braços, feito torre de comando. Difícil foi chegar até ela! Era um deus-nos-acuda passar por entre as cadeiras lotadas. Insultos não faltavam!
Acomodado, os olhos faiscavam olhando as cortinas por onde sairiam os artistas. A banda, já em forma, aguardava o terceiro sinal para puxar a música. E meu coração, aos solavancos, contava os minutos que antecediam aquele momento. Foi num zás-trás! A sirene soou, comprida, chamativa. A banda detonou em seguida. A marcha alegre contagiava as pessoas, e por incrível que podia parecer, acalmava as crianças. Elas se acomodavam, procuravam seus lugares, os pequeninos corriam pro colo da mãe, ou do pai, e ficavam em clima de expectativa. Os olhos brilhavam contentes, ansiosos.
Entrou o apresentador, dono do circo. Em traje de gala, brilho para todo lado, vinha com passos decididos, sorridente, satisfeito com a imensa platéia. Tentava passar uma boa imagem do seu espetáculo. Agradecia, com seu sotaque pitoresco o comparecimento de todos, elogiava o povo da vila e apresentava seu elenco. Os artistas iam entrando na   sequência anunciada, ao som da marchinha alegre, as roupas brilhando feito jóias e enchendo nossos olhos de encantamento. Sorridentes, extremamente sorridentes!
Ah! Os palhaços... Quantos palhaços! Graciosos, engraçados, faceiros. Os dois palhaços-anõezinhos eram lindos! Peraltas até onde mais não podiam!
E tudo foi um sonho... As brincadeiras, as palhaçadas, as mágicas, o malabarismo, e a dupla caipira, esta sim encantou o meu pai. Ele ficou maravilhado, não conseguia fechar a boca diante de tanto fascínio! Foram cantadas aquelas mesmas músicas que ouvíamos no rádio, quase que diariamente. Do trapézio eu não poderia falar, porque a bem da verdade, nem olhei. Sofrer pra quê? Aproveitei o tempo e fiquei observando as pessoas. Sinceramente, estava até patético! Todos com os pescoços estirados, queixos para cima, corpos retesados, e o silêncio apenas era cortado pelo rufar dos tambores e pelo suspiro coletivo da platéia. Era um “uuuuuiiiiiii” fundo, comprido. Pelos semblantes apavorados podia imaginar as estripulias que aqueles malucos faziam lá em cima. Ainda bem que foi rápido! Trapézio era de lascar!
Para fechar a noite, a peça de teatro. Linda, e como sempre, extremamente triste. A cena se repetia. Luzes apagadas na platéia, o choro disfarçado, o assoar de nariz, a tosse dissimuladora...
E a sessão terminava... As luzes acesas, as palmas, os artistas voltando ao picadeiro, o aceno de despedida, a voz do apresentador agradecendo a presença de todos e propagando o espetáculo do dia seguinte, a banda dando os últimos acordes. Que pena! Ficaria a noite toda ali, se preciso fosse!
Na saída, os pequeninos já não caminhavam. Dormiam frouxos nos ombros dos pais amarrotados, das mães de olhos inchados. O comentário favorável era geral. Todos haviam gostado dos que viram, elogios pipocavam em todas as conversas. O povo estava satisfeito!
Nossa Senhora! Como estava a cara da Dona Isidora de tanto chorar! Parecia que tinha lutado boxe! Coitado do marido, estava até constrangido!
Em casa, eu nem conseguia dormir, tamanha a excitação vivida naquele dia. Diante dos meus olhos as cenas se refaziam. Os palhaços... Ah! Os palhaços...
Os dias voaram, os espetáculos voaram, uma, duas, três semanas... Até que chegou o triste dia. A partida da caravana... No mesmo ritmo acelerado da montagem aconteceu o desmanche do circo. Em horas de trabalho, tudo estava no chão, ou melhor, nos caminhões.
E a caravana partiu. Silenciosa, sem banda, sem buzinas, sem acenos, sem alvoroço. Os únicos que me saudaram na partida foram os ciganinhos. Pareciam tristes!  Minha cabeça era tão dura que só me lembrava do nome de um deles: Pablo. Também, o outro tinha um nome tão esquisito, tão complicado! Tão complicado como estava meu ânimo naquele momento. Vendo a caravana se perder em meio ao pó da estrada, sentia o peito apertado, um desânimo, uma desilusão...
Olhei o terreno vazio, havia muito lixo espalhado. Quanta diferença havia entre aquele silêncio e o vozerio dos dias passados! Só me restava pegar o rumo de casa... Sem pressa, mãos metidas nos bolsos, chutando um pedregulho aqui outro ali, cabisbaixo, descorçoado, num desalento só...
Não demorou muito e a notícia se espalhou. O rebuliço explodiu na vila, era um fala-fala danado! Eu havia percebido silêncio demais na partida. Foi muito às pressas, como se alguma coisa impelisse a caravana a deixar rapidamente a vila...
Minha mãe, percebendo o alvoroço das vizinhas, as vozes alteradas, correu até a porta, espantada. Para acalmá-la, fui ao seu encontro e, percebendo seus olhos aflitos e inquisitivos, falei calmamente:
-  Não foi nada, mãe... A filha da Dona Idalva partiu com a caravana...
                                              

                                              Regina Ruth Rincon Caires
(1ª Menção Honrosa – 24º Concurso de Contos Cidade de Araçatuba 2011 – categoria regional)