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quarta-feira, 30 de outubro de 2013

O estranho visitante


A cada enxadada, fincando o chão seco, duro e praguejado, o suor escorrendo pelas costas abaixo, sob um sol impiedoso, Gregório, involuntariamente, matuta. Se ao menos essas lembranças o abandonassem um pouco, a força dos braços seria mais viva. Qual o quê? Ferem seu corpo como espinhos, ficam como acordes de tristeza a tocar-lhe a alma. Pensamentos teimosos! Por que não se vão feito a chuva?!
Gregório para um pouco... Tira o chapéu. Os cabelos grudados à testa, o suor caindo-lhe sobre as pálpebras enrugadas. Sente-se um caco! Olha a sua volta, demoradamente, e depois ergue seus olhos para o céu. Nada de nuvens! O céu infinitamente azul, e o sol, majestoso, reinando tirano. Tem sede... Olha para a moita de arbustos lá adiante, e sente-se desanimado calculando a distância que o separa da sua moringa. O jeito é arranjar forças para chegar até lá. Sem água nem é possível pensar, quanto mais continuar! Descansa a enxada sobre o torrão de terra que acabou de revirar e segue em direção dos arbustos.
Farto, saciado com a água fresca da moringa de barro, pensa num cigarrinho... Afinal, pressa num dia como hoje é bobagem! O corpo não suporta aquele calor infernal! Tem consciência de que hoje o trabalho rende pela metade.
Passa a botina pelo capim seco como se limpasse o chão, e solta o corpo num sentar extenuado. Passa a mão no embornal e dele retira um pedaço de fumo, o canivete, a palha de milho. A mão esquerda em forma de concha protege os fiapos de fumo que ele vai picando. Cheiro forte e bom! Não resiste... Coloca um naco na boca.
Cinco anos já se passaram desde que sua mulher se foi... Cinco anos doídos, arrastados, vazios. Doença maldita! Tudo tão rápido que não teve nem tempo pra se acostumar com a ideia. Teve que se acostumar, que se arranjar mergulhado na dor. Ficou muito difícil, tanto que até hoje não se resignou.
Nessa época do ano ainda é pior. Dezembro lhe dá um desconsolo, um desamparo. A solidão  é tamanha que parece transpirar pelos poros. Bom seria se não existisse este pedaço do ano!
Amanhã é Natal. Diacho de dia mais bobo! Ainda bem que já se preveniu... A garrafa de pinga o aguarda! É sempre assim... Começa a beber à noitinha e vara as outras vinte e quatro horas numa carraspana sem fim. Duro mesmo é o outro dia! Um vazio no estômago, enjoo, tremura no corpo, suadeira fria e um desânimo de dar pena! Pelo menos durante algumas horas não pensa. Apenas dorme... Se nos intervalos, entre um gole e outro, aquela saraivada de pensamentos teimosamente tenta chegar, Gregório não vacila. Sorve goles rápidos e constantes até que... adormece. É assim o seu Natal. Nem as portas da casa abre. Pra quê? Não carece...
Mas agora, ali sentado, dando tragadas longas e repetidas no seu cigarro de palha, sóbrio, não tem como afugentar suas idéias. Se ao menos um filho viesse! Que nada! Isso só aconteceu no primeiro ano... Depois, foi tudo só. Ele e a vida...
Tem dia que fala sozinho, ou mesmo com seu pangaré. Fala pra ouvir o som da própria voz. Naquele fim de mundo não arranja nem companheiro pra dar uma prosa! Às vezes fica pensando se ainda sabe falar. Passa dias e dias, semanas inteiras sem dizer palavra. Fica feliz quando vê, pela poeira da estrada, uma boiada a caminho. Sabe que ali vai um peão e que vai lhe sobrar um dedo de prosa. A conversa é sempre a mesma. A saudação, o calor, a falta de chuva ou uma doença que apareceu em alguma rês. Ele se empolga tanto nestas proseadas que, às vezes, chega a acompanhar o peão, beirando a estrada, por um bom trecho do caminho! Só para ter o gostinho da companhia.
Na vila não se anima muito a ir. Só vai mesmo quando a necessidade manda. É muito distante e seu pangaré anda muito judiado pela seca. Se forçar muito pode ser desastroso! Imagina perder seu companheiro! Só lhe restará falar sozinho!
O seu cachorro também se foi... Velho, já com o focinho branco, cego feito tamanduá. Foi definhando, ficou encaramujado e numa manhã Gregório o encontrou estirado. Dia triste!
Agora lhe resta o pangaré. Está um traste velho, mas ainda lhe serve de companhia! É só a chuva chegar e ele estará mais forte. A idade não tem jeito, mas o capim gordo lhe trará novas carnes. A chuva não tarda... O dia dos Santos Reis está por aí, e na vinda sempre traz  chuva!
Gregório ergue o chapéu, reverenciando os Santos. É assim... Mesmo quando pensa, quando invoca os santos de sua devoção, não deixa de reverenciá-los com seu chapéu. Santa veneração!
Joga o cigarro, e com a botina o pisoteia várias vezes até se certificar de que realmente não há risco nenhum da brasa queimar o capim seco. Tem pavor de queimadas! Já viu tantas, mas não consegue se acostumar a elas. Fogo é bicho que teme!
Hora de recomeçar a lida. Se bem que a vontade é nenhuma, mas a praga tem que se vencida agora, nesse tempo. É na terra seca que a raiz morre. É bem verdade que a sementeira fica na terra, mas até que a chuva não chega ela não germina. Dá tempo de recuperar o ânimo e preparar a nova roça. Nem sabe quantas vezes já capinou este mesmo trecho! Nem é bom pensar... Desanima.
E lá está Gregório novamente. Só se ouve o resvalo da lâmina na terra seca. São dezenas e dezenas de braçadas para capinar um pequeno trecho. A cada quarto de hora ergue o corpo, espicha a coluna para trás colocando as mãos nas cadeiras. Serviço bruto! Pior ainda com aquele sol a lhe castigar o lombo!
Suspira fundo e volta à capina. O assa-peixe este ano está de matar! Há touceiras tão imensas que chegam a desanimar. Gregório procura nem olhar o que está por fazer. Prende os olhos no trecho em que labuta. Que adianta olhar? Nem desanimar adianta.
De quando em quando lá está ele, parado. As mãos servindo de encosto pro queixo no cabo da enxada. Fica tempo olhando, perdido, nem sabe pra onde!...Sente pavor do escurecer! De noite a solidão é mais triste. Muito mais.
Olha para o céu... O sol já está indo, baixo. No horizonte, um vermelhão só. Sinal de que a seca continua. Santo Deus, até quando?!
Gregório acelera o ritmo. Parece não querer parar. Quer prolongar o dia. Ah! Se pudesse!... Já está bem escuro. Quase não consegue distinguir o trecho já pronto e bate várias vezes a enxada em torrões já revirados. Não adianta. É noite... Véspera de Natal!
Com a enxada nos ombros, o embornal de lado, e a moringa na mão, pega o trilho de casa. Nem assobia. Está com o corpo aniquilado, seus passos são curtos, pausados. Quer demorar ainda mais a chegar.
Apesar do cansaço do corpo, andaria a noite toda se isso lhe tirasse da cabeça todas aquelas lembranças. Daria tudo e faria qualquer coisa para não estar sozinho. Se ao menos tivesse alguém, uma única viva alma para prosear!
Bobagem! Ali só está ele. Ele e Deus, como costuma pensar. Pena hoje Deus não se tornar homem e passar o Natal ali, com ele! Poderiam conversar, comemorar, beber juntos. Arre, cada pensamento!...
Gregório chega em casa. Nem tem vontade de acender a lamparina. Banho então, nem pensar! Pra quê? Daqui a pouco encharca-se de pinga e aí é uma água só! Antes, porém, precisa comer alguma coisa. Ainda bem que deixou uma panela de arroz sobre o fogão de lenha, e tem linguiça dependurada na despensa. É o suficiente.
Enquanto acende a lamparina, faz uma oração para o Menino Jesus. Afinal, é o Seu dia! Tem que rezar agora porque depois não vai se lembrar nem do seu nome, quanto mais de oração!
Junta ao arroz uns pedaços de linguiça, atiça as brasas do fogão, coloca umas palhas de milho para aumentar o fogo e aquece a comida. O cheiro é divino! Chega a lhe dar água na boca!
Arranca as botinas, tira a camisa, passa as mãos pelos cabelos e puxa o banco para perto da mesa. Já ia enfiando a primeira colherada de comida boca adentro, quando ouve uma voz:
-    Ô de casa!
Gregório estremece de susto. Quem poderia ser a essa hora da noite? Pela voz imagina ser uma pessoa idosa. Voz rouca, trêmula mesmo!
-    Ô de fora! Já tô indo!
Ainda sem se refazer do susto, Gregório sai rapidamente pela porta da cozinha levando a lamparina nas mãos. Assusta-se ainda mais diante do que vê. Meu Deus, que trapo humano! Um homem, as roupas em farrapos, pés descalços, cabelos ensebados, barbas enormes, corpo magro, arqueado, rosto bem feito, mas incrivelmente abatido. Olheiras escuras e profundas. A magreza excessiva deixa-lhe os ossos da face saltados, salientes. À primeira vista, uma visão chocante, aterradora! Aos poucos, Gregório vai se aproximando e a chama da lamparina vai delineando mais seus traços. Olhos serenos, incrivelmente serenos!
-      Boa noite! O que o traz aqui?
-   Boa noite! Estou apenas à procura de um prato de comida. Espero que tenha sobrado alguma coisa por aqui. Estou faminto! Há vários dias que não sei o que é comer de verdade...
Gregório pensa na comida que acabou de esquentar e que estava prestes a devorar. É tudo que tem, mas não tem importância. Afinal, já almoçou hoje e não irá sucumbir se não comer agora. Rapidamente gira o corpo sobre o calcanhar e entra pela cozinha. Passa a mão no prato de comida sobre a mesa, volta e o entrega ao estranho visitante.
O homem ávido por alimento, num instante abraça o prato e com colheradas  rápidas e incessantes vai pondo fim a sua fome. Gregório fica espantado com a voracidade, com a rapidez com que o visitante esvazia o prato. Coitado! A que situação chegou!
Gregório está aturdido. Tanto que só agora percebe que não convidou o homem para se sentar! Meu Deus, ele devorou tudo aquilo de pé?! Que distração!
-       Desculpe a pergunta, mas qual é sua graça?
-       Mariano, meu bom homem. Mariano, seu criado!
-       Vamos chegar, Seu Mariano!
Ao ser convidado a entrar, o homem vira-se para o lado, abaixa o corpo e pega um pacote que estava no chão.
Já dentro da cozinha, Gregório diz:
-       Puxa a cadeira e senta um pouco...
-      Vou aceitar, Seu....
-      Gregório, isso... Meu nome é Gregório.
Mariano vai entrando. É realmente alto, tem que se curvar, baixar a cabeça para passar pelo batente da porta. Senta-se na cadeira de palha e encosta um cotovelo sobre a mesa. Gregório senta-se no banco, do outro lado, de frente para ele.
-  Então, Seu Mariano, agora que já comeu, amansou o estômago, conta aqui pra esse velho, o que faz por estas bandas?
-  Nada, não faço nada, Seu Gregório! Eu sou assim mesmo! Ando sempre, sem parada. Passo as noites ao relento, e vou comendo aqui, acolá, aonde me dão um prato de comida... Hoje é diferente! É véspera de Natal! Não queria ficar sozinho pela estrada. É uma noite muito bonita pra guardar só comigo! Lá da estrada vi a luz da lamparina, e pensei que bom seria juntar a minha alegria desta noite com a de mais alguém, ou até mesmo dividi-la... Espero não estar atrapalhando!
-  De maneira alguma, Seu Mariano! Eu tava até meio encabulado de ficar aqui sozinho hoje. Já fiz até minha oração porque... pensava em dormir cedo, não tinha nada que fazer!
Gregório sente vergonha de dizer que havia rezado antes porque planejara tomar um porre e cair pelas tabelas. Fica quieto. Apenas se cala, não vai mudar nada!
-  Sabe, Seu Gregório, quando começou a escurecer eu estava passando diante da sua porteira. O senhor estava na lida e parei pra observar. Vi que o senhor estava ansioso, querendo capinar mais e mais... A noite já havia caído e a enxada ainda zunia na escuridão. Deu-me a impressão de que não queria voltar pra casa. Estou enganado?
Gregório fica meio sem jeito de saber que foi observado, pensa um pouco e resolve falar.
-   Não, Seu Mariano. É isso mesmo! Não queria voltar porque a noite é muito triste, principalmente a de hoje. Sem família, sem ninguém pra conversar. Juro mesmo, minha vontade era de ...
-       Beber até cair, não é Seu Gregório?
-   Isso mesmo! Queria beber, beber até perder o tino e descansar esta velha cabeça que não para nunca. O senhor sabe o que é viver neste fim de mundo, sem escutar uma voz, tendo na cabeça as lembranças dos dias passados?! Fechando os olhos e vendo as crianças correrem de um lado pro outro, a patroa indo e vindo, cuidando da lida da casa... Abrindo os olhos e vendo o vazio, o silêncio, só isso, silêncio e solidão. É um fim de vida muito triste, Seu Mariano! Nunca pensei chegar a isso!
-   Não acontece só com o senhor, Seu Gregório! Quantos solitários há por este mundo de Deus?! Nem por isso a vida acaba! É preciso saber trabalhar esta solidão, este silêncio! Pensamentos amargos e lembranças que machucam não ajudam em nada! Temos que aprender a enriquecer a nossa fé. É no silêncio que alimentamos nossos mais nobres sentimentos! O silêncio não é inexistência de palavras. Elas soam e falam para a nossa consciência. É a maneira mais pura, mais verdadeira de conversar. Se todos ouvissem essa conversa silenciosa a que me refiro, todos seriam mais felizes, mais completos, mais íntegros! É preciso ouvir, ouvir muito...
Gregório presta muita atenção em tudo que o visitante diz. Se entendeu direito, ele fala que ficar sozinho e em silêncio não é de todo ruim. Passa a mão pela cabeça, como se com isso ajeitasse os pensamentos e guardasse cada palavra dita pelo visitante. Afinal, a fala dele é um presente para os ouvidos de Gregório! Há quanto tempo não proseia tão demoradamente com um amigo?! Ele, ali, hoje, só pode ser um presente do céu!
Gregório fica como que embevecido com a conversa do visitante. Nem se lembra da pinga, da aflição da tarde, para dizer a verdade, nem fome sente! É como se as palavras do amigo lhe tivessem abastecido o estômago, a alma. Só uma coisa o intriga!... O pacote que o visitante trouxe à mão e que, cuidadosamente, protege durante todo o tempo. Que será que tem dentro?
Conversam muito, até altas horas da noite. Na verdade nem sabem que horas são, mas o sono vem chegando. O andarilho, cansado da caminhada, e Gregório, extenuado pelo trabalho da capina.
Gregório percebendo o sono do amigo, adianta-se em arrumar uma cama no chão, ao lado da sua. Logo os dois estão deitados. Gregório tem vontade de continuar a prosa, até tenta, mas o cansaço é tamanho que nem consegue completar o pensamento. Dorme... Sonha sem parar. Sonhos bons!
É madrugada ainda quando Gregório acorda. No escuro, fica um tempo meio confuso... Os sonhos, o dia anterior, o anoitecer, a noite, o visitante... O visitante!
-      Seu Mariano!
No escuro, ele chama pelo amigo. Ninguém responde.
-      Seu Mariano!
Intrigado por não ouvir resposta, Gregório se levanta e acende a lamparina. Ninguém mais no quarto... A cama, estendida como na noite anterior. Ele havia se deitado! Deve estar na cozinha!
Gregório corre a casa toda. Nada. O visitante não está em canto algum. A casa continua toda trancada por dentro. O que teria acontecido?!
Os olhos de Gregório começam a percorrer tudo novamente. Aos poucos sua cabeça vai compreendendo tudo o que aconteceu ali. Olha a cozinha demoradamente. Para as vistas na mesa, onde conversaram. O pacote está lá, bem no centro. Gregório fica curioso! Que será que traz? Por que será que o amigo deixou o embrulho sobre a mesa?
Indeciso, Gregório começa a rasgar o papel. Fica receoso, mas sente que é um presente para ele. Finalmente, o papel todo rasgado deixa às vistas o presente. Que encanto de presente! Um rádio!
Gregório sorri, satisfeito. Liga-o rapidamente, gira o botão sofregamente, e numa sintonia ruidosa, quase inaudível, entrecortada, encontra uma emissora. Está começando a oração da manhã. A voz é rouca, doce, pausada, fala com o coração. Gregório apura os ouvidos... Conhece essa voz! Soa como a voz do visitante...
Não fica impressionado, nada o assusta. Afugenta as interrogações, não quer quebrar o encanto... Apenas entende, e reforça a sua fé.

                                                      
                                                       Regina Ruth Rincon Caires           

                                                                                      27/06/1991


                                     (Conto premiado no Concurso de Contos da Cidade de Jales -  1991)

domingo, 27 de outubro de 2013

A magia do circo


Naquela manhã de terça-feira, a carteira estava desconfortável. A professora falava sem parar, e com o burburinho da classe, sua voz alterada soava estridente, quase que insuportável. Não pensei duas vezes... Apoiei os cotovelos sobre a carteira, com as mãos espalmadas cobri os ouvidos e, lá de trás, fiquei olhando a lousa. Os olhos estavam fixos na pedra negra, ou verde escuro, mas nem enxergava. Pensava no circo... No circo que deveria chegar à vila naquela manhã. Eu queria tanto estar na rua vendo os carros, os caminhões trazendo os mastros, as tábuas das arquibancadas, as lonas, os trailers!
E estava ali, naquela carteira dura, entre quatro paredes e tendo que ouvir aquela voz estridente, ininterrupta. Se pelo menos ela não precisasse falar tanto!
Ficava até engraçado! Eu, com os ouvidos tapados, os olhos presos no quadro-negro, e a figura da professora aparecendo intermitentemente enquanto explicava pela quinta vez o mesmo problema, caminhando de um lado para o outro.
Era curioso vê-la mexer os lábios sem parar! Que será que falava naquele momento? Seria fácil saber, bastaria baixar as mãos!... Mas não queria... Queria pensar no circo...
Quando tocasse o sino avisando o final da aula, ia sair voando pelo portão da escola. Será que a duração do período havia mudado? Por que custava tanto a tocar o sino? Será que o servente havia cochilado? Se demorasse mais um pouco, ficaria de pé. Não aguentava mais aquela carteira!...
Bléim! Bléim! Bléim! Hora santa! Bendito seja este servente! Não suportaria mais um minuto!
A distância da escola até em casa nem vi, nem senti. E foi só o tempo de jogar a bolsa, tirar o uniforme, pegar um pedaço de pão e... pé no mundo... A rua principal da vila me aguardava! Era um trote só. Meus pés nem sentiam os degraus, as guias de sarjeta, os pedregulhos... De repente, era como se o chão fosse todinho plano.
Que decepção! A rua estava quase que deserta, parada demais. Apenas um ou outro andante, sem pressa. O que será que havia acontecido?!
Atravessei a rua num salto e olhei para o terreno vazio, ao lado da igreja. Nada de caminhões, nada de circo... A venda do Seu Chico!... Era lá que tinha que perguntar....
- Seu Chico, cadê os caminhões do circo?
- Que nada, Crovito!  Chegou nada não!
Caramba! Seu Chico não aprenderia nunca a falar meu nome. Já não era dos mais bonitos e, ainda por cima, falado errado!
Ajeitei-me na beira da calçada e só depois de alguns minutos, dei conta do pão amassado entre os dedos. Com os dentes ia rasgando os nacos e mastigando... O sol estava de rachar!
Será que o dono do circo havia mudado de ideia e resolvido ficar na vila vizinha onde o dinheiro corria mais solto?! Por que demorava tanto? Será que traria bichos? E o palhaço, seria bom de serviço? Ah! Claro! Eles sempre são bons! E o trapézio?! Melhor que não tivesse trapézio... Era um momento de sofrimento no circo. Não gostava da aflição que eu sentia no peito enquanto aqueles doidos faziam estripulias nas alturas. Mesmo sabendo que havia a rede de proteção, ficava agoniado, com as mãos suadas, o corpo retesado, e o pescoço doendo sem parar... Definitivamente, trapézio era aflição, e não distração.
Com os olhos semicerrados, ofuscados pela luminosidade excessiva do sol, fitava sem parar o começo da rua, lá na baixada perto da caixa d’água, na entrada da vila.
Minha expectativa se aguçava com qualquer ruído de carro vindo daquele lado. Chegava mesmo a me levantar! E ficava desapontado quando percebia ser apenas um caminhão de bois, ou um ônibus. Uma poeira infernal, sem falar do calor!
Lá pelas quatro da tarde, depois de haver saturado a paciência do Seu Chico para saber as horas, minha alegria ganhou alento.
Num barulho avassalador, alto-falante a toda prova, buzinas e gritarias, a frota do circo despontou na entrada da vila. Num salto, coloquei-me de pé e saí numa desabalada carreira. Queria ver cada movimento, dissecar com os olhos cada caminhão. Que alegria!
Quando me vi diante dos carros, fiquei estarrecido.  O motorista da frente buzinava sem parar e fazia sinais para que eu saísse da rua. Só então me dei conta de que estava atrapalhando a passagem, e pulei para o lado do caminhão, rente à calçada. E corri como nunca, acompanhando a caravana! Eu pulava, gritava, assobiava... Santa Maria! Que alegria eu sentia!
Quando cheguei à praça, estava ofegante. Sentei-me no banco e fiquei observando os forasteiros. Parece que a vila inteira se juntara ali. Brotavam pessoas em todas as esquinas, e iam se aglomerando, batendo palmas, acenando os braços, erguendo os chapéus. Cada um extravasava sua emoção como queria. Era tão espontâneo que, quando olhei pro Seu João da Farmácia, ele com os braços erguidos, sapateando como se dançasse catira, ficou meio sem jeito, fitou-me de relance e ajeitou os óculos sobre o nariz. Era tudo tão fantástico! O circo era, sem dúvida nenhuma, a alegria daquela vila quase sertão.
Grudei os olhos nos badulaques dos caminhões. Os artistas, todos em roupas coloridas, vivas, ciganas. As mulheres traziam várias voltas de colares e pulseiras, e na cabeça, cachos e cachos de flores. Tudo transpirava ilusão... Os ciganos alegres, trazendo nos sorrisos a ilusão do ganho para a subsistência, e nós, mostrando no delírio da receptividade, a avidez de ilusão para preencher nossa vivência.
Não perdia o menor detalhe! Era um circo pobre, visível na decrepitude da frota. Mas, não importava... O que valia mesmo era a euforia da chegada e a certeza de que o circo ficaria por ali uma, duas, três semanas... O tempo de permanência era determinado pela bilheteria. Tomara que todos fossem ao espetáculo... e todos os dias!
A caravana contornou a praça e instalou-se no terreno ao lado. Era um rebuliço só!  A multidão curiosa aglomerava-se ao redor dos carros atrapalhando até mesmo o desembarque das pessoas. Os artistas sorriam, acenavam, jogavam beijos, mas dava para se perceber que queriam ficar um pouco à vontade, pelo menos o tempo necessário para montarem o acampamento.
Pouco a pouco os curiosos foram se afastando. Seu João voltou para a farmácia, Seu Chico foi rapidinho para a venda... Todos se foram, menos eu. Gostava de ver o trabalho, a organização dos ciganos quando chegavam. O trabalho era tão dividido e tão sincronizado que em pouco tempo o acampamento estava montado. As barracas, num passe de mágica, iam pipocando na volta do terreno. Havia apenas dois trailers. Um era do dono do circo, e o outro era para guardar as roupas e apetrechos dos artistas. Não havia bichos, apenas três cachorros que serviam de guarda. Enormes e mal encarados, com grandes bochechas caídas, e babões... Ainda bem que ficavam amarrados!
Os ciganos falavam pouco. De vez em quando se ouvia a voz do chefe dando uma ou outra ordem. Era tudo muito bem repartido. Cada membro da caravana já sabia da tarefa que lhe cabia e a executava num piscar de olhos. Não descarregaram as tralhas da armação do circo. Isso ficaria para o dia seguinte. Seriam contratados trabalhadores avulsos, gente da vila mesmo, que ajudariam no serviço braçal. Pena estar escurecendo! Não demoraria muito e teria que voltar para casa. Pensando bem, até que seria providencial! Estava apertado, precisando de um banheiro, e meu estômago reclamava sem cessar! Percebi que as ciganas começavam a luta com as panelas, duas crianças com uns trocados nas mãos, correram para a venda do Seu Chico. Foram em busca de lingüiça e manjuba.
Meti as mãos nos bolsos, suspirei fundo e virei para casa. Ia assobiando, ora trotava, ora caminhava. Pensava sem parar na vida dos ciganos. Vida estranha! Povo sem casa, povo sem pátria... E unidos, extremamente unidos!... 
Na vila corria um boato de que eram ladrões. Quando estavam por ali, ninguém ousava deixar nada para fora, à noite. Minha mãe recolhia até os trapos do varal! Sabia lá até onde aquilo era verdade!...  E quando eles partiam, o povo ficava preocupado, com medo que a caravana levasse alguma criança da vila. A verdade verdadeira eu não sabia, mas percebia um certo temor na carinha das outras crianças quando se aproximavam dos ciganos.  Eu não! Medo eu não tinha, mas um pouco de cisma, não podia negar! Talvez todas aquelas histórias tenham sido inventadas, levando-se em conta a vida diferente dos ciganos. Era um povo sem raízes, sem parada, descompromissado, alegre demais diante da crueza da vida. Nem suas crianças conseguiam estudar direito! Era um “levanta-acampamento” sem fim!
Em casa, depois de uma bronca daquelas, uma comidinha gostosa para forrar o estômago tão castigado com as aventuras do dia.
O tempo gasto foi só aquele: o do banho e o da janta, e de novo na rua. A noite caiu pra valer! Escuro feito breu! Metido em roupas limpas, peguei o caminho da praça. Não via a hora de chegar no acampamento. Que beleza!... As tendas com os panos erguidos, lampiões espalhados por todos os lados. Ainda não tinham puxado a energia do poste da esquina. Uma grande fogueira no meio do terreno e as pessoas todas em volta. O barulho da música era estimulante. Tocavam guarânias e cantavam. Quando a música era mais fogosa, as mulheres punham-se de pé, puxavam seus parceiros e dançavam sem parar, rodopiando soltas, com as saias vastas e coloridas abrindo-se em toda dimensão. E como eram bonitas as ciganas! Que povo alegre!
Fiquei tempo acocorado num canto, observando tudo. Não perdia nada! Nem queria... De repente, dois pivetes vieram ao meu encontro. Os mesmos que foram à venda do Seu Chico. Eram mais ou menos do meu tamanho. Foram se chegando, e puxaram prosa.  Perguntaram meu nome, se estudava, e queriam saber onde eu morava. Não respondi de jeito nenhum! Não podia fazer amizade, minha mãe me mataria se eu aparecesse em casa com dois ciganinhos!...
Sentaram-se no chão e ficaram remexendo, com os dedos, a terra solta.
-  Você quer brincar com a gente?
-  Não! Quero dizer... Amanhã, quem sabe?!
-  Não precisa ficar com medo! Só queremos brincar, nada mais...
- E quem foi que disse que estou com medo? É que agora não posso, tenho que voltar pra casa...
Fui me levantando, fiz um aceno pouco convincente de que estava seguro, e rumei para casa. Não havia sentido medo, apenas achava que tinha que ficar mais chegado antes de brincar. Para falar a verdade, nem sabia que cigano brincava! Talvez eles nem conhecessem minhas brincadeiras!...
Ia andando e pensando, e cheguei a me irritar de imaginar que eles pudessem supor que eu era um medroso, um maricas. No dia seguinte eu poderia falar novamente com eles, e se a impressão tivesse ficado, poderiam perceber que não era nada daquilo!
Deitado de costas, eu olhava o teto e pensava longe. Fiquei matutando como que os ciganos dormiam. Não vi camas no acampamento! Será que dormiam no chão?!
Pensando, revivendo cada minuto do dia, revendo o rosto dos dois ciganinhos, seus sotaques, a maneira cantada de falar... Em meio a tudo isso, dormi profundamente...
Caramba! De novo naquela classe, naquela carteira dura, com aquele burburinho de moleques, a voz estridente da professora, e eu de novo com os ouvidos tapados. Que martírio!
À tarde, quando cheguei ao acampamento, a estrutura do circo estava quase toda montada. Uns trabalhavam nas estacas de sustentação, outros na montagem das arquibancadas, e os mais atirados se punham lá em cima, na colocação da lona. O martelo comia solto. Tudo tinha que ser executado com segurança, nada podia ser negligenciado.
Fiquei ligado na montagem do palco. Ali se desenrolariam os dramas, histórias costumeiramente repetidas, mas sempre cheias de encanto. Gostava de ver “O Ébrio”...  E chorava todas as vezes que assistia! Sabia de cor e salteado tudo o que aconteceria, mas era sempre um toque fundo na minha emoção. E chorava... Como chorava! Minha mãe também!
A estréia estava programada para a noite de sexta-feira. A dupla sertaneja que se apresentaria na grande noite seria “Tonico e Tinoco”. Na vila não se falava em outra coisa! No sábado, a atração principal seria o “Lambari”, um artista-palhaço muito querido por aquelas bandas. Eu não perderia um espetáculo. Nem que fosse pra vender pirulitos para a cigana!
Falando em pirulitos, gostava de ver a cozinha dos ciganos em dia de espetáculo. Era um corre-corre danado! Amendoim, pipoca, quebra-queixo, pirulitos de açúcar queimado e Q-Suco de cereja, se bem que o que eu via mesmo era licor de groselha sendo misturado! Eles usavam garrafinhas vazias de guaraná, e nelas colocavam o suco. Conforme iam esvaziando, as mulheres enchiam novamente, e o menino-vendedor voltava ao circo com novo estoque. Para dizer bem a verdade, nem lavavam os vasilhames entre uma enchida e outra. No final do espetáculo, os últimos a tomarem suco, ficavam enfastiados só de perceber o melado, o grude que cobria as garrafas. Higiene passava longe!... Mas, tudo era festa. O suco ali no circo era melhor que qualquer guaraná servido nas mesas do almoço de domingo. Gostoso era o momento! Gostoso era o encanto, a magia do circo!
O que mais me impressionava era a preocupação das mães das moçoilas da vila, quando chegava um circo. As moças, de miolos moles e de corações feito gelatina, se empolgavam com os artistas e, deslumbradas, eram vítimas de promessas vãs feitas em noites de luar. Minha prima mesmo deu a maior bandeira quando o circo anterior foi embora. Minha tia, já experiente, percebeu alguma coisa no ar, e ficou de olho. Qual não foi a surpresa quando, dentro do malão no quarto, viu a trouxa de roupa feitinha, estava tudo arranjado para fugir na madrugada seguinte com a caravana.
Foi um tendepá, o tempo fechou, o circo partiu e minha prima ficou debulhada em lágrimas. Se ficasse sozinha, chorava, se alguém lhe falasse, chorava. O negócio dela era chorar! Chorou durante uma semana, depois... passou. Àquela altura, com novo circo na vila, sua cabecinha já deveria estar a mil, pensando nos novos artistas. Planos maquiavélicos estariam lhe dando nó nos pensamentos, com certeza!
Engraçado como tudo se repetia. Uma, duas, três... Inúmeras vezes e não perdia o encanto! A cada chegada de circo era uma festa tão esperada, tão curtida que parecia ser a primeira. E eu amava aqueles momentos!
Tudo estava uma beleza! A lona estendida no chão apresentava rasgos enormes, buracos por onde passariam chuva e sol suficientes para amolar várias pessoas. Mas lá no alto, esticada, aberta sobre as estacas, aqueles furos pareciam insignificantes, quase que imperceptíveis. Chegava mesmo a ficar bonita! Imponente! Era listrada de vermelho e amarelo. Alegre, alegre como aquela gente. Alegre como a vila estava. Ou era eu?!
O tablado de madeira, bem alto do chão, era grande. Seria o palco das grandes emoções. Ficava sempre imaginando o vexame que seria, se no meio do ato em noite de espetáculo, fossem acesas as luzes do picadeiro! Em meio ao drama que se desenrolava lá em cima, na platéia era um choro só, se bem que disfarçado, é claro! Às vezes, uma ou outra dama mais descuidada, ou mais incontida, deixava escapar um soluço, ou mesmo uma fungada, daquelas que saem da garganta quando tentamos engolir o choro. Aí era um desconforto... O marido lhe chamava à atenção, os filhos a recriminavam, e os mais indiscretos ou insensíveis soltavam gargalhadas.
Meu Deus! Como a mulherada chorava!... Não era só a mulherada, eu também chorava. Por isso ficava sempre perto da minha mãe. Ela não se importava com o meu choro. Também, se olhasse para ela sabia com certeza o que iria ver. A cara vermelha, a mão cobrindo a boca como que para sufocar o soluço, e os olhos encharcados. Eu era discreto. Nem olhava... Meu pai cruzava e descruzava as pernas. Balançava a cabeça de um lado para o outro como se achasse a situação patética. E repetia mil vezes:
-  Não sei pra que chorar? É tudo de mentira!...
    
Insensível! Não importava que fosse de mentira. O que importava é que retratava o verdadeiro, o real. Ele nunca entenderia! Ou entenderia?!
Se eu fosse adulto estaria trabalhando ali, na armação do circo. Mas, moleque ainda, sobrava-me olhar e fazer de tudo para evitar ser escorraçado dali. Prestava uma atenção danada no movimento dos homens que estavam por perto. Sabia que se os atrapalhasse seria convidado a me retirar. Nem pensar! Arrumava sempre um canto para ficar onde não incomodasse ninguém. Só queria ver, e bem de pertinho!...
À noite, tudo se repetia. A fogueira acesa num canto, a festa, a dança, e os ciganinhos puxando prosa. Eram inofensivos. Não passavam de crianças como tantas outras. Crianças com os mesmos instintos, com as mesmas brincadeiras, com as mesmas vontades. A única diferença ficava por conta da vida sem parada, sem raízes, da vida sem história, ou com muitas histórias, não sabia! Nem amigos fixos conseguiam ter! As amizades eram sempre superficiais, efêmeras, não havia tempo para que amadurecessem, para que fosse criada a cumplicidade de espírito, de pensamento, de experiências.
Noite de sexta-feira. O adro da igreja estava apinhado. Gente saindo pelo ladrão! As moçoilas, alvoroçadas, corriam de um lado para o outro, olhando aqui e ali, procurando os olhos verdes, os olhos castanhos, o príncipe encantado. Parecia até que o povo todo do campo, em redor da vila, estava ali. O circo já havia programado duas sessões. A primeira certamente lotaria com o povo da roça! Nada mais justo! Afinal, teriam de voltar para casa, e a casa não ficava nada perto!
Eu estava tão afoito, tão contagiado com todo aquele burburinho que sentia até formigamento no corpo. Parecia até que meu sangue voava nas veias! Meu ingresso estava no bolso, e não precisava me preocupar em entrar logo. A cadeira guardada ficava por conta da minha mãe. Ela sabia que eu tinha que ficar num lugar privilegiado, e também sabia que eu seria o último a entrar...
Precisava viver cada momento, cada minuto daquele vaivém da praça. E eram tantas cenas engraçadas! As discussões na fila da bilheteria quando algum intruso, se julgando muito esperto, tentava furá-la, os palavrões cheios de insultos daqueles que tinham os pés pisados por outros mais descuidados, a mãe gritando alucinadamente com alguma criança que, distraidamente, se dispersava na multidão. Era um desassossego de pernas, de braços, de bocas. Era como se todos tivessem combinado de falar ao mesmo tempo. E como eu curtia tudo aquilo!
Antes do início do espetáculo, eles soavam uma sirene por três vezes, com intervalos de dez minutos. Acabava de soar o segundo aviso e eu achei que deveria me encaminhar para a entrada... Poderia ter fila!
Não queria perder nem a apresentação dos artistas, aquela apresentação que era feita no começo e no final do espetáculo. Era tudo tão colorido, tão brilhante, e a música que a banda entoava era eletrizante!
Corri para a fila. Ainda bem que não estava extensa. Não demorou nada e eu já estava sob a lona, afundando os sapatos na camada de pó-de-serra espalhada pelo chão, e sentindo a claridade ofuscante dos holofotes do picadeiro. Que lotação! Que burburinho! Era um empurra-empurra, um esfrega-esfrega, desculpa pra lá, desculpa pra cá, tantas as vezes que os cotovelos resvalavam ora na cabeça de um, ora nas costas de outro...
Passei os olhos na fileira da frente, a primeira, diante do picadeiro. Em segundos descobri minha mãe que sinalizava indiscretamente com os braços, feito torre de comando. Difícil foi chegar até ela! Era um deus-nos-acuda passar por entre as cadeiras lotadas. Insultos não faltavam!
Acomodado, os olhos faiscavam olhando as cortinas por onde sairiam os artistas. A banda, já em forma, aguardava o terceiro sinal para puxar a música. E meu coração, aos solavancos, contava os minutos que antecediam aquele momento. Foi num zás-trás! A sirene soou, comprida, chamativa. A banda detonou em seguida. A marcha alegre contagiava as pessoas, e por incrível que podia parecer, acalmava as crianças. Elas se acomodavam, procuravam seus lugares, os pequeninos corriam pro colo da mãe, ou do pai, e ficavam em clima de expectativa. Os olhos brilhavam contentes, ansiosos.
Entrou o apresentador, dono do circo. Em traje de gala, brilho para todo lado, vinha com passos decididos, sorridente, satisfeito com a imensa platéia. Tentava passar uma boa imagem do seu espetáculo. Agradecia, com seu sotaque pitoresco o comparecimento de todos, elogiava o povo da vila e apresentava seu elenco. Os artistas iam entrando na   sequência anunciada, ao som da marchinha alegre, as roupas brilhando feito jóias e enchendo nossos olhos de encantamento. Sorridentes, extremamente sorridentes!
Ah! Os palhaços... Quantos palhaços! Graciosos, engraçados, faceiros. Os dois palhaços-anõezinhos eram lindos! Peraltas até onde mais não podiam!
E tudo foi um sonho... As brincadeiras, as palhaçadas, as mágicas, o malabarismo, e a dupla caipira, esta sim encantou o meu pai. Ele ficou maravilhado, não conseguia fechar a boca diante de tanto fascínio! Foram cantadas aquelas mesmas músicas que ouvíamos no rádio, quase que diariamente. Do trapézio eu não poderia falar, porque a bem da verdade, nem olhei. Sofrer pra quê? Aproveitei o tempo e fiquei observando as pessoas. Sinceramente, estava até patético! Todos com os pescoços estirados, queixos para cima, corpos retesados, e o silêncio apenas era cortado pelo rufar dos tambores e pelo suspiro coletivo da platéia. Era um “uuuuuiiiiiii” fundo, comprido. Pelos semblantes apavorados podia imaginar as estripulias que aqueles malucos faziam lá em cima. Ainda bem que foi rápido! Trapézio era de lascar!
Para fechar a noite, a peça de teatro. Linda, e como sempre, extremamente triste. A cena se repetia. Luzes apagadas na platéia, o choro disfarçado, o assoar de nariz, a tosse dissimuladora...
E a sessão terminava... As luzes acesas, as palmas, os artistas voltando ao picadeiro, o aceno de despedida, a voz do apresentador agradecendo a presença de todos e propagando o espetáculo do dia seguinte, a banda dando os últimos acordes. Que pena! Ficaria a noite toda ali, se preciso fosse!
Na saída, os pequeninos já não caminhavam. Dormiam frouxos nos ombros dos pais amarrotados, das mães de olhos inchados. O comentário favorável era geral. Todos haviam gostado dos que viram, elogios pipocavam em todas as conversas. O povo estava satisfeito!
Nossa Senhora! Como estava a cara da Dona Isidora de tanto chorar! Parecia que tinha lutado boxe! Coitado do marido, estava até constrangido!
Em casa, eu nem conseguia dormir, tamanha a excitação vivida naquele dia. Diante dos meus olhos as cenas se refaziam. Os palhaços... Ah! Os palhaços...
Os dias voaram, os espetáculos voaram, uma, duas, três semanas... Até que chegou o triste dia. A partida da caravana... No mesmo ritmo acelerado da montagem aconteceu o desmanche do circo. Em horas de trabalho, tudo estava no chão, ou melhor, nos caminhões.
E a caravana partiu. Silenciosa, sem banda, sem buzinas, sem acenos, sem alvoroço. Os únicos que me saudaram na partida foram os ciganinhos. Pareciam tristes!  Minha cabeça era tão dura que só me lembrava do nome de um deles: Pablo. Também, o outro tinha um nome tão esquisito, tão complicado! Tão complicado como estava meu ânimo naquele momento. Vendo a caravana se perder em meio ao pó da estrada, sentia o peito apertado, um desânimo, uma desilusão...
Olhei o terreno vazio, havia muito lixo espalhado. Quanta diferença havia entre aquele silêncio e o vozerio dos dias passados! Só me restava pegar o rumo de casa... Sem pressa, mãos metidas nos bolsos, chutando um pedregulho aqui outro ali, cabisbaixo, descorçoado, num desalento só...
Não demorou muito e a notícia se espalhou. O rebuliço explodiu na vila, era um fala-fala danado! Eu havia percebido silêncio demais na partida. Foi muito às pressas, como se alguma coisa impelisse a caravana a deixar rapidamente a vila...
Minha mãe, percebendo o alvoroço das vizinhas, as vozes alteradas, correu até a porta, espantada. Para acalmá-la, fui ao seu encontro e, percebendo seus olhos aflitos e inquisitivos, falei calmamente:
-  Não foi nada, mãe... A filha da Dona Idalva partiu com a caravana...
                                              

                                              Regina Ruth Rincon Caires
(1ª Menção Honrosa – 24º Concurso de Contos Cidade de Araçatuba 2011 – categoria regional)                                                          
                                                     
                                                                                                                            

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

O estrangeiro

Escada de madeira, avariada. Rota como tudo o que a vista alcança dali. Cassiano, acomodado num degrau, tronco dobrado sobre os joelhos, esfrega o dedo do pé na saliência de um prego pronto a se soltar.
       Na cabecinha de onze anos, é um vaivém de imagens que analista nenhum conseguiria ordenar. No peito, é só amargura. Sente-se como um alienígena, pior que isso, um terrestre desfocado... Não tem nada a ver com tudo aquilo. A cidade, o mar, a vida da favela... Tudo lhe é terrivelmente estranho! Nem mesmo estes dez meses o deixaram mais familiarizado. Não se afina, é sempre um vendido!
Bem que avisara o pai... Não é vida para eles! Como poderia uma família da roça, rude, simplória, acostumar-se numa cidade daquele tamanho?! Pode até ser uma cidade linda, maravilhosa, cheia de modernice, mas os problemas que lhes traz a tornam uma cidade madrasta. Que saudade do seu cantinho! Chega a lhe doer no peito!
Sente uma pena tão grande do pai! Está cada dia mais magro, consumido, desesperado. É muito mais difícil do que imaginara! Com a graça de Deus, a mãe havia conseguido colocação na casa de uma dona, lá na cidade. Cuida da roupa e da arrumação da casa. Sai ainda escuro, e volta já à noitinha. Sempre cansada, desgastada.
A irmã, no viço dos seus dezesseis anos, não consegue trabalho. Cuida do barraco, displicentemente, e dorme quase o dia todo. Quando escurece, veste a mesma roupa surrada de todas as noites, e sai. Sempre tem uma amiga para visitar, um emprego para ver... Sempre arruma motivo para sair, se bem que o pai já não está engolindo tudo isso! Cassiano percebe que o velho fica ainda mais abatido quando, vendo a filha sair, encosta-se à porta do barraco e deixa os olhos correrem pela escada, vendo-a desaparecer na penumbra, lá embaixo. Se pelo menos não pintasse tanto o rosto, não usasse aquela água de cheiro tão forte!
Cassiano entende tudo, não pode afirmar nada, mas tem a liberdade de, pelo menos em pensamento, maquinar suas premissas. Aliás, é isso que faz o tempo todo! A lógica é uma constante. Tem os pés no chão. Não é dado a aventuras. Por ele nunca teriam arredado pé do mato. Lá estava a dignidade. Pobreza não é a morte, pior que ela é a indignidade da vida que levam agora.
Pai teimoso! Não é teimoso... É descabidamente sonhador, só isso! Pensava ter na cidade grande a mola mágica para o sucesso. Não vacilou em vender toda a colheita, pedir as contas, botar os trens num caminhãozinho alugado e rumar para cá. Nem precisa dizer que o dinheiro não deu nem para o começo! Foi suficiente apenas para comprar o barraco. Chegou todo animado e sonhou até com a compra de uma casa! Andava de corretor em corretor, com o dinheiro embolado nos bolsos. Não demorou a se decepcionar e tentar, pelo menos tentar, por os pés no chão.
 E foi este barraco que conseguiu pagar. Desde então, só Deus sabe a penúria... A comida, minguada, como podia... Agora, com o emprego da mãe, pelo menos pão não falta. Leite? Só no sonho... Perceptível até para olhos menos detalhistas, a fome que os aflige. A magreza cadavérica do pai, o raquitismo de Cassiano, com braços demasiadamente longos, evidenciados pela extrema fragilidade do corpo. As pernas, sequiosas de carne, deixam os joelhos saltados, salientes, desproporcionais. O calção nem lhe para na cintura, vive caído, à altura dos quadris e, conseqüentemente, quase lhe cobrindo os joelhos. Figura triste aos olhos! Tremendamente frágil, chegando mesmo a instigar pena...
Mais triste ainda é sua inércia. Passa o tempo todo ali, naquela mesma escada, olhando, sem perceber, o sobe-e-desce das pessoas. Às vezes encolhe-se, tomba o corpo de lado para dar lugar a um passante mais descuidado, estabanado. Dali só sai para ir ao barraco pegar um pão, e quando escurece. Nem à escola vai! O pai, aborrecido, decepcionado, achou melhor nem tentar a matrícula. A escola do sertão era tão fraca que Cassiano não tem condição de acompanhar o estudo daqui.
Cassiano até que gostou! Não tem mesmo ideia pra aprender nada, ainda mais aqui! Só faltava ter que ir pra escola! Seria em outra situação e mais uma vez, um peixe fora d’água.
Em meio a tudo isso, nessa aflição, ainda tem o direito de ficar ali, sentado, parado. Graças a Deus não é exigido pra nada! Não tem ânimo mesmo! Se bem que é torturante ficar ali, remoendo todos aqueles martírios na cabeça, mas que fazer?! Dos males, o menor... Duro mesmo deve ser o dilema do pai! Afinal, ele deve se sentir responsável por todo este transtorno...
Cassiano pensa no pai... Hoje ele saiu cedo, como quase todos os dias. Nem imagina o que ele faz pelas ruas. Diz que vai à procura de emprego, mas... Inutilmente. Sempre volta arrasado, mais desiludido que quando saiu.
No começo, quando chegou, Cassiano ainda se animava em subir, à noite, até o barraco de Dona Guidinha e passar os olhos pela televisão. Mas eram tantas crianças que se juntavam à porta, faziam tanto barulho que mal dava para Cassiano ouvir o som que saia do aparelho. Não podia reclamar, ia contra a corrente e ali no morro, ou se é mais um ou está morto. Cassiano preferiu se calar, conhecia bem a política do morro e, aos poucos, foi abandonando o passatempo. Agora, bastava escurecer e ele já se deitava.
 É isso que não conseguia engolir! A violência da favela... O perigo iminente e latente do morro... É assustador! Coisa comum é ver brigas, tiros, mortes. Nem sabe quantos garotos da sua idade morreram por aqui nestes últimos meses! É rotina... Toda manhã os corpos aparecem jogados, perfurados por balas ou castigados por pancadas. Comum acontecer e difícil suportar... Impossível mesmo! Cassiano fica apavorado, temeroso, perdido.
Sua irmã chega à porta do barraco. Espreguiça o corpo demoradamente. Dormiu até agora. Já é quase noite! Está chegando a hora de Cassiano entrar. Sente vontade de esperar a mãe, ali. Mas, é perigoso, não convém.
O pai está demorando mais que o costume! Cassiano não se sente confortado. Gosta de ter o pai por perto quando a noite chega. Não tem remédio... É noite, e o jeito é entrar.
Cassiano ergue o corpo, olha novamente lá embaixo, no pé da escada. Nada... Nenhum dos dois aponta. Entra no barraco. A irmã, exalando um cheiro de flor, enjoativo, tem um espelho nas mãos e passa repetidas vezes o batom nos lábios. É bonita a danada! Cassiano olha-a demoradamente e pensa em como seria bom se ela tivesse metade da beleza em juízo. No mínimo sofreria menos no futuro. Esse tipo de vida nunca acaba bem, sempre deixa marcas e dissabores profundos...
Está assim, pensando, quando ouve a porta do barraco bater. A danada já saiu e ele nem tinha percebido!
Cassiano estremece quando se lembra de que está sozinho. Bem que a mãe podia chegar logo! Olha pela fresta da porta, mas nada vê. Está muito escuro lá fora... Senta-se no banco da cozinha e não consegue ficar sereno. Dentro do peito, a aflição, o desespero, o medo. Não quer ficar sozinho...Por que sua irmã não ficou com ele até a mãe chegar? Menina matreira! Pensa em contar tudo ao pai. Por que ele também não chega?!
Cassiano resolve se deitar. Quem sabe o sono vem e leva toda essa aflição. Amanhã é outro dia...
Bobagem! Nem deitado consegue sossego. A cama é um suplício quando está ansioso! Parece que vem vindo alguém... Ainda bem, é a mãe!
Tem vontade de correr, jogar-se em seus braços, esquecer toda aquela angústia, mas não tem costume! Não quer que ela saiba que sentiu medo. Já está tão baqueada, chega a dar pena! Ele não se acha no direito de levar queixume algum até ela. Tem de ajudá-la, isto sim!
-          Cassiano, cadê o pai?
-          Ainda não voltou. Saiu cedo e não falou nada...
-          E Clarinha?
-          Já saiu. Deve ter ido na casa...
-          Deixa pra lá, filho... Já comeu?
-          Já, mãe.
Nem bem entra e pega na arrumação. Clarinha, ultimamente, tem sido mais desleixada com a casa. Está uma baderna!
Cassiano percebe que a mãe, a todo instante, olha pela fresta da porta. Também está preocupada com a demora do pai. Que será que aconteceu? Nunca faz isso! Sabe que a família se sente desprotegida, à noite, sem ele. Seu pai podia ser aventureiro, mas tinha muito cuidado com eles. Não fazia nada, é verdade, mas estava sempre presente. Não tinha vícios, ainda bem! Na situação em que estão agora, seria um caos ainda maior se ele não fosse comedido! Não bebia nunca. Admirável em meio a tantas decepções, o pai mantinha caráter firme feito rocha. Não buscava refúgio em vício algum, nem em seus sonhos se refugiava mais! Hoje tem os pés fincados no chão, os devaneios se foram... Está sem saída! Se ao menos arrumasse dinheiro para voltarem para o mato! Mas, como?! Talvez até tenha meios para isso, mas, o pior de tudo é que perdeu o ânimo! Tem medo agora... Não quer parecer aventureiro, e sofre terrivelmente. Cassiano torce por esta aventura. A de voltar... Quer voltar. É tudo o que mais deseja! Que adianta? Nunca terá coragem de conversar  isso com o pai. Imagina!.
As horas vão correndo. Já é noite alta, o morro está quase todo apagado. E, nada do pai. Que angústia!
A mãe, andando de um lado pro outro, não para de rezar. Cassiano fica mais aflito diante da insegurança da mãe. Ela, adulta, desprotegida, e ele, como se sente?!
A madrugada chega, junto com ela, Clarinha. Cara amarrotada, falando alto, com os cabelos em completo desalinho, agitada. É só o tempo de tirar a roupa, e cai na cama. Nem pergunta pelo pai. Pelo jeito nem tem tino para isso. Está esquisita!...
Cassiano, apesar de aflito, encolhido sob as cobertas, não resiste ao sono e dorme profundamente,
Acorda sobressaltado com os gritos da mãe. É uma sensação horrorosa! O coração lhe bate na goela, nem sabe para que lado da cama descer as pernas... É terrivelmente assustador!
Num instante está na porta do barraco. Os olhos, ofuscados pela claridade do dia, teimam em não parar abertos. A cabeça, ainda meio atordoada, fica lerda para perceber o que está acontecendo. Chega perto da escada e olha lá embaixo. Vê a mãe, debruçada. Há muitas pessoas por perto, mas percebe que tem alguém deitado no chão. De repente, lembra-se da noite anterior, da demora do pai... Desce as escadas feito doido, aos trotes. Difícil abrir caminho por entre as pessoas... Antes não tivesse conseguido.
No chão, estirado, pálido feito cera, olhos fixos e semiabertos, o pai. Cassiano compreende tudo... O pai, morto.
A mãe, ajoelhada ao lado, está calada, perplexa, incrédula. Não chora, apenas olha. Está como que hipnotizada, sem movimentos.
Cassiano sente o chão fugir, a cabeça rodar, não reconhece ninguém entre os curiosos. Todos estranhos... Estranhos quanto é aquela cidade, aquele morro, aquele barraco, aquela vida. Sente vontade de gritar, de correr, de entender. Por que tudo aquilo?! O que está acontecendo?!
Quando cai em si, está sozinho. As pessoas se foram, o corpo do pai levado não sabe pra onde, sua mãe... Sua irmã... Cassiano não sabe de nada...
Agora está ali, sentado. Na mesma escada, no mesmo degrau, apenas com os seus pensamentos. Quem será que o matou? Por quê? O que a vida quis dele? Perguntas e mais perguntas fervilham em sua cabeça. Inutilmente... É apenas mais uma morte, como tantas outras. Sem explicação, sem fundamento... No morro é assim... Ou se é mais um, ou está morto. Ele não quis ser mais um... Foi só isso!...


                                                  Regina Ruth Rincon Caires                                   
                                                                     1994             


(Conto premiado no Concurso Nacional de Contos Cidade de Araçatuba - 1995-3º lugar- categoria nacional)                                                    

domingo, 13 de outubro de 2013

Joana, só...

           Final da primavera de 1951.  Madrugada de lua cheia...

Pela janela aberta, a claridade prateada inunda o quarto. Sentada ao pé da cama, encostada na parede, abraçada às pernas e com o queixo recostado sobre os joelhos, Joana observa o rosto sereno do filho que dorme feito um anjo. Por que tinha que ser assim? Por que a vida tomou esse rumo?

Olha do lado, na outra cama, e vislumbra por entre as cobertas os rostinhos das duas filhas. A mais velha, de cabelos dourados, fartos cachos que com a luz da lua cintilam feito uma nuvem de vaga-lumes, e a mais nova, de pele alva como leite e cabelos negros azulados. Ambas dormem profundamente, alheias aos percalços que a vida silenciosamente arquiteta.

Tudo começou naquela triste tarde, quase noite. Antônio ainda não havia chegado da roça. Joana acabara de banhar as crianças, sentia-se enjoada com o princípio da nova gravidez, e fazia um esforço tremendo para esquentar as panelas no fogão de lenha, no preparo da comida, quando de repente ouviu o estampido, um tiro.

Correu para perto das meninas, e assustada olhou pela janela da cozinha, sem compreender o que estava acontecendo.

Ficou por um tempo agarrada a elas, e assim que recobrou o tino, percebendo que havia barulho de choro abafado, pediu para que as meninas ficassem quietinhas, e foi olhar o que acontecia.

Já na varanda, olhou para a direção da casa do pai de Antônio, e com certa dificuldade por causa da penumbra que a noite trazia, percebeu que havia movimento de pessoa e constatou que o choro vinha de lá, e as vozes também.

Atônita, seguiu na direção dos sons e assim que chegou perto parou petrificada. Na entrada do alpendre da casa do pai de Antônio, perto da cisterna, estava um homem estirado no chão, rodeado por uma poça de sangue.

Joana forçou as vistas e percebeu que se tratava do colono Malaquias, homem forte, queimado de sol, e de poucas palavras.

O choro que ouvira era da mãe de Antônio. Ela chorava, lamentava, implorava aos céus por orientação, estava completamente desnorteada, e andava de um lado para o outro perguntando ao marido o que deveria fazer...

Olhando mais adiante, perto da porta da cozinha, Joana viu o pai de Antônio parado junto à parede, e mais atrás, estava Seu Avelino, que tinha o rosto crispado, os olhos fixos no homem estirado no chão.

Seu Avelino estava com os braços caídos rentes ao corpo, e trazia em uma das mãos uma carabina.

Num sobressalto, Joana percebendo que o colono estava morto, entendeu que o tiro havia partido daquela carabina e que, provavelmente, Seu Avelino teria feito o disparo. E acertou.

Mais tarde soube que o colono teve um desentendimento com o pai de Antônio há algum tempo, que a mágoa foi se avolumando, e que naquela tarde, por causa de uma pendenga sobre uma saca de feijão, o colono armado com um facão foi até lá, e depois de uma nova discussão, investiu contra o pai de Antônio jurando que o mataria.

Seu Avelino era outro colono da fazenda, casado com Dona Célia, um homem calmo, sério, pai de oito filhos, compadre e amigo do pai de Antônio. Contou que durante toda a tarde ouviu Malaquias esbravejar exaltado, praguejando e arquitetando a ida até à casa do pai de Antônio para fazer o que dizia ser o “ajuste final das contas”.

Percebendo que algo muito sério estava por acontecer, Seu Avelino ficou à espreita, e quando viu que Malaquias se armou e seguiu para a sede da fazenda, não titubeou e numa corrida desenfreada esgueirou-se por entre os pés de café, chegando à casa do pai de Antônio minutos antes de Malaquias.

Entrou pela porta da sala, sabia que o compadre estaria sentado no alpendre dos fundos, como sempre, fumando seu cigarro de palha, com um cotovelo apoiado no canto da mesa.

Seu Avelino passou pelo corredor que ladeava o quarto principal, pegou a carabina carregada que ficava costumeiramente dependurada atrás da porta deste quarto, e seguiu para a cozinha. Nem teve tempo para explicar ao pai de Antônio o que estava para acontecer porque antes de chegar ao alpendre, antes mesmo de atravessar a porta da cozinha, Seu Avelino avistou Malaquias no terreiro, chegando ao degrau do alpendre.

Seu Avelino parou, percebeu que o pai de Antônio ficara assustado com a chegada intempestiva do colono Malaquias vociferando transtornado.

A discussão foi rápida, quase só Malaquias falava, esbravejava. E quando o colono fez menção de se jogar contra o pai de Antônio com o facão em punho, Seu Avelino mirou a arma e atirou no peito do colono.

Foi um único e certeiro disparo, o mesmo estampido que assustou Joana e que fez com que a mãe de Antônio saísse correndo do galinheiro, onde recolhia os ovos daquele dia, e sem entender o que estava acontecendo, caísse em prantos e clamasse aos céus por clemência e orientação. 

Tudo foi muito rápido. Aconteceu e estava feito. Não tinha volta. Agora era a realidade e não havia nada a fazer para consertar.

Aos poucos Seu Avelino foi recobrando os pensamentos, estava trêmulo, com os olhos vermelhos, e continuava calado.

O pai de Antônio, depois de ralhar com a mulher exigindo que ela parasse com o choro e com as lamentações, virou-se para o compadre e pegou a arma. Disse a ele que ficasse calmo, que fosse para casa, e que não comentasse nada sobre o ocorrido, nem mesmo com a Dona Célia.

Seu Avelino olhou mais uma vez para o corpo daquele homem imerso numa poça de sangue, rodopiou sobre os calcanhares e, mecanicamente, saiu pelo mesmo lugar por onde havia entrado momentos antes.

Ninguém viu Joana ali, e ela calada, sem fazer qualquer ruído, voltou para casa.

A noite havia chegado de vez, e com ela Antônio chegou ao terreiro. Estava todo suado, com a roupa suja de terra, resultado de um dia de trabalho pesado na roça de café.

Era costume ao final do dia, quando voltava da roça e antes de se recolher, passar pela casa dos pais para tomar a bênção. E aquele dia não foi diferente.

Foi sim...  Naquele dia tudo foi diferente.

Antônio chegava com o corpo cansado, mas com a alma leve, estava tranquilo, feliz com mais um dia trabalhado, feliz de voltar para a sua família, feliz como há muito tempo se sentia, ou como sempre se sentiu. Mas, a cena que encontrou foi como um nocaute. Seus miolos não conseguiam atinar o que havia acontecido ali.

Olhou aquele homem caído, mais adiante viu seu pai sentado no canto do alpendre, apoiado na mesa, o brilho da lamparina clareava seu rosto abatido, os olhos assustados, o cigarro de palha apagado no canto da boca, e ouviu o choro abafado da mãe, que vinha da cozinha.

O pai, vendo o espanto do filho, chamou-o para perto, explicou o acontecido, e pediu a ele que preparasse um cavalo, que fosse até a vila providenciar o sepultamento e comunicar o acontecido para a autoridade do Cartório.

Explicou a Antônio que Seu Avelino atirara para protegê-lo, que o compadre não poderia ser envolvido no caso, que ele tinha oito filhos para criar, e que não havia testemunha do disparo a não ser ele mesmo, o pai de Antônio.

Então, Antônio foi orientado a dizer para a autoridade na vila que ele mesmo, Antônio, havia disparado o tiro para proteger seu pai.

E assim foi feito. No escuro da noite, montado no seu cavalo de lida, Antônio foi até à vila que era razoavelmente próxima. A autoridade providenciou a retirada do corpo poucas horas depois, e como não havia delegacia e nem delegado na vila, não havia telefone e nem telégrafo, a comunicação foi feita por carta para a central regional da polícia, e dessa maneira, só restava esperar a chegada da autoridade competente para que fosse enfrentado o desdobramento do caso.

O pai de Antônio explicou a ele que como o tiro fora disparado para defender a vida do pai, Antônio certamente, assumindo a culpa como fizera, seria apenado com poucos meses de prisão, e que tudo seria resolvido rapidamente. Pena que certamente seria muito mais severa se fosse aplicada para Seu Avelino, que não seria beneficiado por não ter grau de parentesco com o pai de Antônio. Era assim que o pai de Antônio pensava, e foi nisso que Antônio acreditou.

Antônio estava desarvorado. Temia pelos filhos, pela mulher e por ele mesmo. Nunca saíra do seu canto. Nunca acordara em outro lugar. Suava frio quando pensava que teria que viajar para longe, sozinho. Nunca fizera isso! Mas, sabia que teria que resignar-se, aliás, já estava resignado, e não falava sobre isso. Nem com Joana. O que seu pai decidiu era o mais correto a ser feito. Afinal, poucos meses passariam rapidamente, e não seria justo que Seu Avelino ficasse preso. Como poderia sustentar a mulher e seus oito filhos?

Antônio nem conseguia dormir tamanha a insegurança que tinha na alma, e sabia que Joana, mesmo quietinha na cama, também não conseguia, e a cada dia que se passava a agonia dos dois se avolumava. Não falavam sobre isso. As coisas seriam como deveriam ser, e pronto.

Depois de duas semanas sofridas, o jipe da polícia chegou. O delegado conversou com o pai de Antônio, entregou uns papéis, e Joana foi destacada para ir até à roça para chamar Antônio.

Vieram em silêncio, vagarosamente, como não querendo chegar. Joana arrumou a mala com as poucas roupas, e Antônio vestiu-se com a melhor troca, despediu-se discretamente diante das crianças, e seguiu no jipe da polícia juntamente com o delegado e o milico. Estava calado, com os olhos apavorados, mas não chorava.

O choro ficou apenas para as mulheres. A mãe de Antônio, vendo o jipe sumir por entre os pés de café e a nuvem de poeira, enxugou os olhos na ponta do avental e voltou para a cozinha.

Joana, segurando as meninas pelas mãos e carregando o mais novo na barriga, com a alma em soluços, rumou para casa. Meu Deus, como seriam esses meses?

E as noites foram longas... E as lágrimas não cessavam... E a barriga crescia cada vez mais, feito a saudade.

Não chegava carta. Antônio não sabia escrever, e nunca pediria para que alguém o ajudasse. Imagina se ele contaria alguma coisa para qualquer estranho!

E o filho nasceu... Um menino grande e forte, como o pai. A ele foi dado o nome do avô. Joana sabia que Antônio, distante, estaria aflito, apavorado e muito triste por não estar junto dela naquele momento. Pelas contas deles, quando a criança nascesse, certamente a pena de Antônio já estaria cumprida, ele já estaria em liberdade. Mas, isso não aconteceu. A pena estava sendo muito maior que o esperado.

Era a vida... E um ano se passou...

Nada de Antônio ser colocado em liberdade, e então Joana foi informada pelo pai de Antônio que ele fora condenado a uma pena total de três anos de prisão.

Quanta dor! Apenas um ano havia se passado, e havia mais dois pela frente. 

Quanta solidão!

As meninas, com quatro e dois anos, o menino com seis meses, e a vida precisava seguir em frente.

E seguia, só Deus sabe como...

Joana contava os dias, calada. Conversava com os pais de Antônio apenas o trivial, o corriqueiro, era o costume. Não se falava em tempo de espera, em saudade, em dor.

Todos sentiam tudo, mas ninguém falava...

A mãe de Antônio cuidava de ajudar Joana nas tarefas, principalmente no cuidado com as roupas e no preparo dos pães. Era bondosa, de olhos mansos, piedosa, mas submissa. E Joana, também.

Apesar de forte, de extremamente organizada e generosa, a mãe de Antônio era devotadamente submissa ao marido. Não exigia explicação alguma, não questionava nada, não contestava, apenas vivia, ou melhor, respirava...

Passados três longos anos, a colheita de café agitava os colonos num vaivém incessante, o sol estava começando a declinar naquela quarta-feira, quando Joana ouviu o som de uma condução que se aproximava.

Com o coração aos pulos foi para a janela e avistou o jipe da polícia.Nem sabia o que fazer. Queria estar bem bonita para o reencontro com Antônio, mas num ímpeto, nem se lembrando disso, correu para o terreiro, sem mesmo tirar o avental.

E viu Antônio... E se assustou...

Antônio estava magro, excessivamente magro, amarelo, olhos fundos, entristecido, curvado, abatido, com uma palidez macilenta, e quando falou seu nome, Joana percebeu sua voz muito fraca. Só o carinho que Joana viu em seus olhos lembrava o seu Antônio que havia partido há três anos.

Antônio estendeu a mão num cumprimento, e procurou rapidamente, com os olhos, os seus filhos. Eles vinham correndo buscando a mãe. As meninas não reconheceram o pai, e o menino ainda não havia sido apresentado a ele.

Antônio despediu-se dos policiais, pediu a bênção dos pais, pegou a mala e rumou vagarosamente para casa, seguido por Joana e pelos filhos.

Os policiais ficaram conversando um bom tempo com os pais de Antônio, e depois se foram.

Antônio entrou em casa e ficou um bom tempo olhando para as paredes como se estivesse matando a saudade que sentia no peito, e demorou a soltar a mala.

Joana estava feliz com a chegada do seu Antônio, mas o coração apertado tentava contrariar a sua vontade, e colocava uma névoa de preocupação na sua alegria. Sentia que Antônio não estava bem.

E não estava mesmo. Na prisão Antônio havia contraído várias doenças, e a tuberculose havia minado suas forças quase por completo. A falta de sol, a falta de se exercitar como fazia na roça, a alimentação precária e a solidão daqueles anos todos lhe roubaram a saúde.

E mesmo feliz por estar de volta, Antônio não conseguia reagir aos males do corpo. A febre não cedia, a prostração o dominou. Antônio foi se finando, foi se esvaindo, até que a vida lhe escapou das mãos.

Foram dias difíceis, angustiantes. Na verdade nesses dias Joana teve a impressão de ter sido levada, de ter sido arrastada porque não se lembra de muitos detalhes.

Depois de tanta espera, depois da volta, em apenas poucos meses Joana se via novamente só. Não havia o que esperar. O seu Antônio não voltaria mais, havia partido para sempre.

Agora ali, olhando os rostos serenos dos filhos, com o coração enlutado, com as forças querendo abandoná-la, relembra tudo e nem revolta sente. Não reclama, não blasfema, não se insurge, não maldiz, não se inflama. Continua apática, abatida, resignada. É o costume...

Queria apenas entender.

Assim que amanhecer irá de mudança para a vila. É chegada a hora da filha mais velha começar na escola. O pai de Antônio arrumou uma casa na vila para ela e para as duas meninas. O menino ficará ali, com o pai e com a mãe de Antônio. Será criado por eles no costume do sítio para pegar gosto pelo trabalho na terra.

Joana está amargurada com mais esta separação. Assim foi decidido e assim será.

O sol clareou o terreiro, a parca mudança foi colocada num velho caminhão que chegara. Joana e as meninas amontoaram-se na pequena cabine juntamente com o motorista, e o choro gritado do filho, que se contorcia para sair do colo da mãe de Antônio à procura dos seus braços, entrava por seus ouvidos e parecia querer explodir seu peito com tamanha aflição.

A dor que Joana sentiu ao parir foi infinitamente menor comparada a essa que apertava seu peito nessa separação. Era agora como uma lança em chamas a rasgar sua carne, seu ventre, retirando seu filho do seu convívio. Não iria mais estar presente nos dias da vida dele, não iria acompanhar seu crescimento, não iria mais velar seu sono, não estaria presente para aliviar seu medo nas noites de chuva...   

Mas, era a sua vida...

O caminhão seguiu pela estrada poeirenta.

Joana também deveria seguir em frente...

E seguiu...

   

                                                                              


       (3º lugar – 26º Concurso de Contos Cidade de Araçatuba 2013 - Categoria Regional)