Sentado à mesa, depois de
haver engolido a costumeira merenda, um palito de fósforo no canto da boca,
Gonçalo espreguiça o corpo, passa a mão na nuca e deixa as vistas correrem... Olha porta afora, o que lhe
permite ver apenas um estreito ângulo do lugar. Seus olhos passam pelo pedaço
do terreiro, pelo pomar, e se detêm lá no alto, lá adiante, na cumeeira da
pastagem. Verde, tão viçosa que chega a encantar as vistas. Na verdade olha,
mas não vê. Sua cabeça está longe. No tempo e no espaço... Divagando, feito
alma sem corpo. Que foi feito de sua vida?! Ali, com seus sessenta e poucos anos,
corpo moído, sem expectativa que não seja a subsistência... O que aconteceu com
seus planos? Onde tudo começou a dar errado?
Sonhava ser proprietário!
Não queria muita terra, apenas a que bastasse para viver e criar seus filhos,
independentemente. Nunca fora ambicioso, talvez aí esteja o erro. Ambição nunca
foi traço de sua personalidade, mas submissão, sim. Como era submisso!
Subserviente mesmo! Fiel ao patrão como unha e carne... Era seu braço direito.
Mais que isso! Era o peão pronto a qualquer hora, em qualquer circunstância,
sob qualquer condição. A vontade do patrão era uma ordem! Mais de trinta anos
ali. Naquele mesmo pedaço, naquela mesma casa. É certo que muita coisa mudou! Agora
tem água encanada, luz elétrica, fogão a gás. Muito mais conforto que há algum
tempo. Tempo duro! Água de cisterna, luz de lamparina, fogão de lenha. Comparada a essa de agora, foi uma vida de
animal. O progresso foi tanto que até mesmo linha de ônibus passa na estrada,
perto da porteira! Mas, que importa? Pensa na idade... Por quanto tempo ainda
conseguirá trabalhar? E depois, onde irá morar?
Nem casa tem!
Seus olhos ficam marejados.
Sente no peito a aflição da insegurança. Não tem rancor, não guarda mágoa. Na
verdade mesmo, nunca se preocupou, nunca parou para pensar nisso tudo. Meneia a
cabeça. Esses pensamentos nunca vieram lhe tirar o sossego. Por que isso
agora?! Deve ser coisa de velho... Agradece a Deus todos os dias pela saúde de
leão que tem. Nestes anos todos, nem gripe conseguiu tirar-lhe a força, o ânimo
da lida diária. Mas, a idade é implacável! Ela vem para todos sem que isso
possa ser mudado. Parar de trabalhar nesse serviço pesado é inevitável. Faz
parte da natureza humana, é assim que vai ser. E depois, o que fazer?
Dentro de sua cabeça revive,
como num passe de mágica, todo o tempo trabalhado. Lembra, com riqueza de detalhes,
cada boiada cuidada, cada roça colhida. Foram tantas as empreitadas que se torna
impossível quantificar.
E sua velha?! Companheira e cúmplice
de todos esses anos. Uma leoa para o trabalho, e uma santa para o trato. Os
filhos? Alguns casados, trabalhando nas redondezas, outros partiram em busca de
sustento nas cidades. De vez em quando chega uma carta, que o patrão lê. Nem
isso Gonçalo consegue! Ele e a mulher são analfabetos de pai e mãe... Nem sempre as
notícias são boas. A vida na cidade também está difícil, e pior ainda para seus
filhos! São despreparados, nasceram e cresceram no mato. A competição na cidade
grande, para eles, chega a ser desumana. Que fazer? Eles escolheram o destino. Volta
a pensar em sua velha. Daqui a pouco ela não terá a mesma disposição. Nem
poderia ser diferente! É pouco mais nova que ele, é verdade, mas mesmo assim,
percebe-se que sua força está na descendente. Gonçalo reconhece seu empenho,
relembra saudoso o nascimento de cada um dos seus oito filhos... Dieta era
coisa que sua velha não guardava! Paria num dia, no outro parecia estar
inteira. Claro que os dois sabiam que não estava tão inteira assim, mas era o
costume. Nunca reclamou. Foram anos e anos de alegria, de serenidade. A comida,
por mais parca, acrescida com o carinho do preparo, parecia sempre um banquete!
Gonçalo agora prende as vistas no terreiro. Sua velha estende a roupa no varal.
Não tem a mesma agilidade de antes. Seus movimentos são mais demorados, custa a
se erguer quando dobra o corpo para pegar a roupa molhada na bacia. Companheira
querida! Se fosse possível, ele lhe daria o céu.
Passa a mão pelo rosto,
coça os olhos. Essa água que teima em escapar dá-lhe uma coceira danada nas vistas! Chorar, não!
Gonçalo nunca foi dado a chorar. Se bem que há muito tempo não tem motivo para
isso. A vida lhe tem sido generosa! Não sabe o porquê, mas hoje parece estar de
miolo mole. Coisa de gente velha, só pode ser! Está assim, sentado no mesmo
lugar, o palito de fósforo já todo mascado, os cabelos em completo desalinho,
tantas as vezes que passou a mão pela cabeça. Nem se dá conta de quanto tempo
está ali, perdido em suas divagações... Sobressalta-se quando ouve o som da
buzina, e voltando os olhos para a janela, vê o carro do patrão encostando. Num
pulo, põe-se de pé e vai ao encontro dele.
- Gonçalo, o que está
acontecendo, homem?!
Assustado, Gonçalo nem
consegue atinar. Sabe que o patrão está estranhando o fato de não ter sido
recebido na porteira. Foi, e é sempre assim... Basta ouvir o barulho do carro
na estrada, e Gonçalo rapidamente segue em direção à porteira para encontrá-lo.
Mas, hoje, não sabe o que aconteceu com sua cachola! Deve estar com algum
parafuso solto! Não bastassem os pensamentos que o afligiram há pouco, ainda
perdeu o tino e não escutou o ronco do carro do patrão! Faltou com o costume...
- Desculpe, Seu Mateus! Juro pro senhor que não
escutei o carro!
Se pudesse falar por onde andava seu
pensamento, das dúvidas e comichões que lhe fervilharam os miolos! Bobagem,
rabugice de velho!
- Dona Teresa, dá uma
chegada aqui!
Gonçalo está atrapalhado. A
chegada inesperada do patrão, a cabeça atordoada pela retrospectiva, e agora, o
patrão chamando a mulher para conversar... É tudo muito diferente! Assusta.
Parece que seus pensamentos podem ser lidos, e isso faz com que Gonçalo evite
olhar o patrão nos olhos. Não quer que ninguém saiba o que sua cabeça andou
matutando. Deus o livre! Não quer parecer ingrato, afinal, seu patrão foi muito
bom nestes anos todos! Seu pagamento nunca atrasou, sempre foi bem tratado,
tinha relativa fartura ali na fazenda. Não tem mágoa dele, muito pelo
contrário! Tem profunda gratidão. Se alguma coisa não saiu como planejara,
Gonçalo sabia não ser culpa do patrão. Foi cilada da vida, ou até mesmo
resultado da sua falta de expediente. Gonçalo nunca fora atirado. Tem
consciência de que as chances devem ser procuradas, nada cai do céu. Ele se
acomodou... O salário dava para sobreviver, tinha teto, que mais desejar? A
vida para ele era muito simples, pouco lhe bastava...
- Gonçalo, hoje estou aqui numa missão especial!
O velho peão não consegue
entender nada. Ou melhor, sente um aperto no estômago, um mal estar
inexplicável. Será que já não produz o suficiente e o patrão está pensando em
substituí-lo?!
- Sabe, Seu Mateus, o
senhor pode falar claro. Não precisa ficar rodeando...
- Está
bem, Gonçalo! Vou procurar ser o mais claro possível. Hoje estou aqui para
realizar um sonho que carrego e acalento comigo há muitos anos. Você e sua
família trabalharam incansavelmente pelo meu progresso. Eu cresci amparado pela
sua fidelidade e lealdade. Por inúmeras vezes parei para refletir sobre tanta
dedicação. Dedicação que me foi dada espontaneamente, sem exigências e cobranças.
Durante todos esses anos tive o privilégio, a grata felicidade de tê-lo como
esteio, como alavanca, como parceiro mesmo, nessa empreitada. É hora de
retribuir. Se bem que a gratidão não se mostra apenas com recompensas
materiais. Nunca poderei retribuir toda a dedicação que recebi, mas sei que
Deus se encarregará da outra parte. Resumindo, Gonçalo, eu quero que vocês
tenham um cantinho próprio, um lugar onde possam envelhecer dignamente. Retira
da pasta uma papelada e a coloca sobre a mesa. Gonçalo está confuso. Entre
confuso e emocionado. Entre surpreso e apreensivo. Afinal, apesar de notar o
reconhecimento pelo seu trabalho através do respeito, do bom trato do patrão,
nunca havia ouvido tantas palavras bonitas!
- Gonçalo,
aqui está a escritura de compra e venda de uma chácara. Pegada à vila. Tem uma
casa muito boa, um pequeno curral, um pomar formado, uma horta vasta e um
pedaço de terra pra você cultivar o que quiser. Pode lhe parecer muito, mas não
é nem o mínimo de todo o seu mérito, meu bom parceiro!
Gonçalo fica como que
petrificado. Pálido, as pernas fracas. Não consegue nem raciocinar direito! Só
tem força suficiente para jogar o corpo contra o patrão, e dar-lhe um abraço
tão continuado que parece traduzir todo o tempo a ele dedicado.
- Deus lhe pague! Deus lhe pague, Seu Mateus!
Fica abraçado a ele por um
bom pedaço de tempo. Quando abre os olhos, Gonçalo vê, por sobre o ombro do
patrão, sua velha. Ela, amassando a ponta do avental entre as mãos, chora. Está
feliz! Desvencilha-se do abraço do patrão e se volta para ela. Que abraço
gostoso! Chega mesmo a erguê-la do chão! Assim, abraçado a ela, percebe que,
sem a menor sombra de dúvida, a preocupação que o angustiava poucos minutos atrás,
também já havia passado pela cabeça da parceira.
Seu Mateus fica de lado. Está
emocionado, e assiste a tudo com o coração à pele. Afinal, é um sonho que se
realiza.
- Seu
Mateus, desculpa pela pergunta, mas pra quando é isso tudo?
- É pra hoje, Gonçalo! Vou
lhes dar um tempinho, o necessário para se aprontarem. Vamos até à vila cuidar
do registro no Cartório, e passamos pela chácara, assim vocês conhecem a nova
morada! Depois disso, podem mudar quando quiserem...
- Mas, Seu Mateus, e o senhor?! Como fica sem
empregado?
- Não fique aflito,
Gonçalo! Está tudo resolvido. Também estou parando. Já passei toda a tarefa de
comando pro meu filho. E, quanto ao empregado, seu filho Jeremias me procurou.
A cidade não deu certo pra ele. Nesta semana mesmo ele volta a trabalhar aqui.
Tudo recomeça, meu velho amigo!...
Menção Honrosa - Concurso Nacional de Contos de Ponta Grossa-PR - 2014