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domingo, 22 de dezembro de 2019

O MENDIGO DO VIADUTO DO CHÁ





O MENDIGO DO VIADUTO DO CHÁ

A moeda corrente era o cruzeiro. A passagem de ônibus custava sessenta centavos. O ano era 1974.
Eu trabalhava no centro da cidade, em um banco que ficava na Rua Boa Vista. Morava longe, quase ao final da Avenida Interlagos, e usava diariamente o transporte coletivo. Meu trabalho, no departamento de estatística, resumia-se a somar os números datilografados em planilhas e mais planilhas fornecidas pelas agências do banco. Somas que deveriam ser checadas, e que eram efetuadas nas antigas calculadoras elétricas com suas infernais bobinas, conferidas e grampeadas nas respectivas planilhas. Não fosse o café para espantar o sono durante as diárias e rotineiras oito horas de trabalho, nenhuma soma teria sido confirmada.
Era uma época menos violenta. Havia assaltos, furtos, mas com uma incidência infinitamente menor que a de hoje. Não existiam caixas eletrônicos, nem cartões de crédito ou de débito. Os mais abastados faziam uso de talões de cheques, e os remediados, feito eu, carregavam dinheiro vivo. Minguado, mas estava ali.
O meu dinheiro ficava em casa. Na bolsa eu carregava apenas os trocados das passagens de ida e volta. Numa repartição da bolsa, fechada com zíper, eu sempre colocava uma reserva de dois cruzeiros, a título de precaução para alguma pequena emergência. A comida eu levava de casa, não havia despesas maiores no dia a dia. Todas as compras da semana eram feitas na feira de Santo Amaro, aos domingos.
A metrópole sempre está em construção, mas naqueles dias o centro era uma escavação só. Com a construção do metrô, as enormes retroescavadeiras, os gigantescos guindastes, as malditas britadeiras com seus trêmulos operadores, tudo somado remetia a um ruído enlouquecedor, trazia um desassossego sem medida. Caminhar por ali era angustiante.
Certa manhã, cruzando o Viaduto do Chá, deparei com um vendedor ambulante que oferecia selos e envelopes de carta. Como o meu estoque havia acabado, fiz a compra usando a pequena reserva de emergência que carregava na bolsa. Sim, tínhamos o costume de escrever aos amigos e parentes distantes e os serviços dos Correios eram a forma mais barata, segura e eficiente de comunicação.
Na escada que ladeia o Viaduto, trajeto que eu fazia diariamente na ida para o trabalho e na volta para casa, encontrava sempre um homem cego, com uma perna amputada, a mendigar. Estava sempre acomodado no degrau mais alto da escada, rente ao muro que sustentava o corrimão. O movimento dos pedestres era intenso na escadaria, e, muitas vezes fiquei em pé, atrás do mendigo, aguardando um espaço para passar. Movimento que piorava na hora do rush.
Interessante como o mendigo se integrava à paisagem. Aquele homem fazia parte daquele lugar. Não consigo me lembrar da escada sem a presença dele, lá, no alto. Reparava que sempre colocava as muletas perfiladas junto ao muro, de maneira a não atrapalhar os transeuntes. Eu não sabia como ele chegava até ali, não sabia onde morava, não sabia como se alimentava... Eu o cumprimentava na ida e na volta, nunca deixei de dizer bom dia e boa noite. Isso mesmo, boa noite! Quando passava por ali, na volta do trabalho, mesmo com a noite chegando, o homem continuava lá, no mesmo lugar.
Numa sexta-feira, subindo a escadaria, pensei que, apesar de ficar tocada pela fragilidade do mendigo, pela sua situação miserável, nunca havia doado uma moeda para o pobre homem. Enfiei a mão na bolsa, peguei as moedas que estavam lá e as coloquei na lata que ele segurava nas mãos. Ao ouvir o barulho do níquel, ele agradeceu. Respondi ao agradecimento e segui o meu caminho.
Terminado o dia, era chegada a santa hora de voltar para casa. Na escada do Viaduto, no mesmo lugar, o mendigo. O movimento de pessoas era aterrador. Passei por ele, dei boa noite, e desci espremida na multidão.
Já na fila do ônibus, abri a bolsa, abri o zíper do compartimento da reserva... Não havia reserva. Depois que comprei os envelopes e os selos não fiz a reposição. Puro esquecimento... Meu Deus, como eu voltaria para casa?!
Passei os olhos pela fila, pessoas estranhas, como sempre. Atrás de mim já estavam perfilados inúmeros passageiros. E eu ali... Sem expediente, sem saber o que fazer. Se fosse qualquer outra pessoa, poderia até pedir para que alguém pagasse a passagem, contaria a história. Mas não eu. Nunca!
Saindo da fila e vendo a noite chegar cada vez mais rápido, fui entrando em pânico. Não demoraria muito e naquela parte da cidade não haveria mais pessoas nas ruas! E eu, o que faria?!
Desesperada, não vislumbrando outra saída, pensei no mendigo. Eu havia dado a esmola naquela manhã, eu poderia pedir o dinheiro de volta. Não! De volta, não! Eu poderia pedir a ele o valor da passagem como empréstimo, e o pagaria no dia seguinte. No dia seguinte, não! Na segunda-feira... Fui pensando nisso e andando na direção da escada. Será que ele ainda estaria lá?!
Apressei o passo e aos trotes fiz o caminho de volta. Quando olhei para o alto e o vi lá em cima, no mesmo lugar, fiquei feliz, aliviada. Quero dizer, um pouco aliviada porque o pior ainda estava por acontecer. Eu teria que negociar com ele um pequeno empréstimo. Que situação! Eu nem sabia como iniciar a conversa.
Quando cheguei ao topo da escada, eu estava ofegante, suando em bicas. O suor descia pelas costas e empapava o cós da saia... Sentei-me no degrau abaixo do dele, e fiquei recostada no corrimão por alguns instantes. Não sabia o que falar e ele não podia me ver! Relutei, ensaiei, preparei e num arroubo disse:
- Senhor!
O pobre homem levou um susto tamanho, estremeceu e jogou os braços à frente, como que para se defender. E aí fiquei ainda mais desconcertada, se é que poderia.
- O que aconteceu?! – disse ele, muito assustado e querendo uma explicação para aquele grito.
- Senhor, por favor, eu não queria que o senhor se assustasse. Sou assim mesmo, toda atrapalhada, sem jeito... – eu disse.
O homem, sem compreender nada, ainda se refazendo do susto, deu uma ajeitada no corpo, e virou o rosto para o meu lado, guiado pela minha voz.
E eu continuei:
- Senhor, preciso da sua ajuda, mas nem sei como começar a falar...
O mendigo, com muita serenidade, disse:
- Dona, fala com calma. O que está acontecendo com a senhora? Pode ter certeza de que vou ajudá-la.
Então, comecei a contar que trabalhava ali no centro, que passava por ali todos os dias, e que naquele dia havia dado uma ajuda a ele, contando com a reserva de dinheiro que na realidade não havia... O homem ouviu atentamente, e me disse:
- Eu conheço a sua voz. É a mesma voz que me cumprimenta todos os dias. Eu tenho esse registro.
Encabulada, num constrangimento sem tamanho, confirmei:
- Sim, eu sempre cumprimento o senhor... Mas agora preciso de ajuda para ir para casa. O dinheiro que lhe ofereci hoje era exatamente o valor da minha passagem. O senhor poderia me fazer um empréstimo e eu devolveria o dinheiro na segunda-feira?! Prometo que pago, sem falta!
O pobre homem riu, solicitamente estendeu a latinha com algumas moedas e disse:
- Dona, pega aqui o que a senhora precisa e não vamos falar em pagamento, está bem?
Fiquei vermelha quando vi a lata bem perto dos meus olhos. Olhei as pessoas que passavam por ali... Meu Deus, o que estariam pensando?! Como reagiriam quando eu metesse a mão na latinha para pegar as moedas? Será que pensariam que eu estava roubando o mendigo?!
O homem, que mantinha o braço erguido balançando a lata, disse:
- Vamos, pega as moedas!
Aflita, envergonhada, mas sem outra saída, enfiei a mão na lata e peguei sessenta centavos. Com a outra mão, toquei a mão dele e a abaixei. Assim ele entenderia que eu havia retirado as moedas.
O mendigo deu um tapinha carinhoso na minha mão, e docemente tentou me acalmar, dizendo:
- Vai, dona! Segue o seu caminho, está tudo certo.
- Obrigada, meu senhor! Na segunda-feira, sem falta, eu acertarei esse empréstimo. Pode acreditar! – falei.
Desci a escada numa ansiedade danada. Só pensava em entrar no ônibus, em desaparecer da frente daquelas pessoas, em voltar para casa... O movimento dos passageiros já era muito menor, e com isso havia assentos livres. Exausta, joguei o corpo sobre um deles. Ajeitei a bolsa no colo, e, inevitavelmente, caí no choro. Chorava pela aflição do momento, chorava pela generosidade do mendigo, chorava pela solitude na multidão, chorava... Só queria chorar.
Na segunda-feira, saí mais cedo de casa, saldei minha dívida depois de uma longa conversa e de muita insistência, e descobri que ganhei mais um amigo. Ah! O nome dele é Pedro...

   
Regina Ruth Rincon Caires
Araçatuba/SP

                                                                                                             

JOANA, SÓ...





JOANA, SÓ...

Final da primavera de 1951.  Madrugada de lua cheia...
Pela janela aberta, a claridade prateada inunda o quarto. Sentada ao pé da cama, encostada na parede, abraçada às pernas e com o queixo recostado sobre os joelhos, Joana observa o rosto sereno do filho que dorme feito um anjo. Por que tinha que ser assim? Por que a vida tomou esse rumo?
Olha do lado, na outra cama, e vislumbra por entre as cobertas, os rostinhos das duas filhas. A mais velha, de fartos cachos de cabelo dourado que com a luz da lua cintilam como uma nuvem de vaga-lumes, e a mais nova, de pele alva como leite e cabelos negros azulados. Ambas dormem profundamente, alheias aos percalços que a vida silenciosamente arquiteta.
O início de tudo foi numa triste tarde, quase noite. Antônio ainda não havia chegado da roça. Joana acabara de banhar as crianças, sentia-se enjoada com o princípio da nova gravidez, e fazia um esforço tremendo para esquentar as panelas no fogão de lenha, no preparo da comida, quando de repente ouviu um estampido.
Correu para perto das meninas e, assustada, olhou pela janela da cozinha, sem compreender o que estava acontecendo.
Ficou por um tempo agarrada a elas e, assim que recobrou o tino, percebendo que havia barulho de choro abafado, pediu para que as meninas ficassem quietinhas e foi ver o que acontecia.
Já na varanda, olhou na direção da casa do pai de Antônio e, com certa dificuldade por causa da penumbra que a noite trazia, percebeu que havia movimento de pessoas. Constatou que o choro vinha de lá, e as vozes também.
Atônita, seguiu na direção dos sons e, assim que chegou perto, parou petrificada. Na entrada do alpendre da casa do pai de Antônio, perto da cisterna, estava um homem estirado no chão, rodeado por uma poça de sangue.
Joana forçou a vista e percebeu que se tratava do colono Malaquias, homem forte, queimado de sol. Sempre de poucas palavras.
O choro que ouvira era da mãe de Antônio. Ela chorava, lamentava, implorava aos céus por orientação, estava completamente desnorteada, e andava de um lado para outro perguntando ao marido o que deveria fazer...
Olhando mais adiante, perto da porta da cozinha, Joana viu o pai de Antônio parado junto à parede e, mais atrás, estava Seu Avelino que tinha o rosto crispado, os olhos fixos no homem estirado no chão.
Seu Avelino mantinha os braços caídos rentes ao corpo, e trazia em uma das mãos uma carabina.
Num sobressalto, percebeu que o colono estava morto e, sem dizer qualquer palavra, Joana entendeu que o tiro havia partido daquela carabina e que, provavelmente, Seu Avelino teria feito o disparo. E ela estava certa.
Mais tarde soube que o colono tivera um desentendimento com o pai de Antônio, havia algum tempo. A mágoa foi se avolumando e, naquela tarde, por causa de uma pendenga sobre uma saca feijão, o colono armado com um facão foi até lá, e depois de uma nova discussão, investiu contra ele, jurando que o mataria.
Seu Avelino era outro colono da fazenda, casado com Dona Célia. Um homem calmo, sério, pai de oito filhos, compadre e amigo do pai de Antônio. Contou que durante toda a tarde ouviu Malaquias esbravejar exaltado, praguejando e arquitetando a ida até à casa do patrão para fazer o que dizia ser o “ajuste final das contas”.
Percebendo que algo muito sério estava para acontecer, Seu Avelino ficou à espreita, e quando viu que Malaquias se armou e seguiu para a sede da fazenda, não titubeou. Numa corrida desenfreada, esgueirou-se por entre os pés de café, chegando à casa do pai de Antônio minutos antes de Malaquias.
Entrou pela porta da sala. Sabia que o compadre estaria sentado no alpendre dos fundos, como sempre, fumando seu cigarro de palha, com um cotovelo apoiado no canto da mesa.
Seu Avelino passou pelo corredor que ladeava o quarto principal, pegou a carabina carregada que ficava costumeiramente dependurada atrás da porta desse quarto, e seguiu para a cozinha. Nem teve tempo para explicar ao patrão o que estava para acontecer, porque, antes de chegar ao alpendre, antes mesmo de atravessar a porta da cozinha, Seu Avelino avistou Malaquias no terreiro, chegando ao degrau do alpendre.
Seu Avelino parou, percebeu que o patrão ficara assustado com a chegada intempestiva do colono Malaquias vociferando transtornado.
A discussão foi rápida, quase só Malaquias falava, esbravejava. E quando o colono fez menção de se jogar contra o compadre com o facão em punho, Seu Avelino apontou a arma e atirou no peito do sujeito.
Foi um único e certeiro disparo, o mesmo estampido que assustou Joana e que fez com que a mãe de Antônio saísse correndo do galinheiro, onde recolhia os ovos daquele dia, e sem entender o que estava acontecendo, caísse em prantos e clamasse aos céus por clemência e orientação. 
Tudo foi muito rápido. Aconteceu e estava feito. Não tinha volta. Era a realidade e não havia nada a se fazer.
Aos poucos, Seu Avelino foi recobrando os pensamentos, estava trêmulo, com os olhos vermelhos, e continuava calado.
O pai de Antônio, depois de ralhar com a mulher exigindo que ela parasse com o choro e com as lamentações, virou-se para o compadre e pegou a arma. Disse a ele que ficasse calmo, fosse para casa, e não comentasse nada sobre o ocorrido, nem mesmo com a Dona Célia.
Seu Avelino olhou mais uma vez para o corpo daquele homem imerso numa poça de sangue, rodopiou sobre os calcanhares e, mecanicamente, saiu pelo mesmo lugar por onde havia entrado momentos antes.
Ninguém viu Joana ali, e ela calada, sem fazer qualquer ruído, voltou para casa.
A noite havia chegado de vez, e, com ela, Antônio surgiu no terreiro. Estava todo suado, com a roupa suja de terra, resultado de um dia de trabalho pesado na roça de café.
Era costume, ao final do dia, quando voltava da roça e antes de se recolher, passar pela casa dos pais para tomar a bênção. E naquele dia não foi diferente.
Foi sim...  Naquele dia tudo foi diferente.
Antônio chegava com o corpo cansado, mas com a alma leve, estava tranquilo, feliz com mais um dia trabalhado, feliz de voltar para a família, feliz como há muito tempo se sentia, ou como sempre se sentiu. Mas a cena que encontrou foi como um nocaute. Seus miolos não conseguiam atinar o que havia acontecido ali.
Olhou aquele homem caído, mais adiante viu seu pai sentado no canto do alpendre, apoiado na mesa, o brilho da lamparina clareava seu rosto abatido, os olhos assustados, o cigarro de palha apagado no canto da boca, e ouviu o choro abafado da mãe na cozinha.
O pai, vendo o espanto do filho, chamou-o para perto, explicou o acontecido, e pediu a ele que preparasse um cavalo, que fosse até à vila providenciar o sepultamento e comunicar o acontecido para a autoridade do Cartório.
Explicou a Antônio que Seu Avelino atirara para protegê-lo, que o compadre não poderia ser envolvido no caso, pois tinha oito filhos para criar, e não havia testemunha do disparo a não ser ele mesmo.
Então, Antônio foi orientado a dizer para a autoridade na vila que ele mesmo, Antônio, havia disparado o tiro para proteger seu pai.
E assim foi feito. No escuro da noite, montado no seu cavalo de lida, Antônio foi até à vila que era razoavelmente próxima. A autoridade providenciou a retirada do corpo poucas horas depois e como não havia delegacia e nem delegado na vila, não havia telefone, nem telégrafo, a comunicação foi feita por carta para a central regional da polícia. Dessa maneira, só restava esperar a chegada da autoridade competente para que fosse enfrentado o desdobramento do caso.
O pai explicou a Antônio que, como o tiro fora disparado para defender a vida do pai, Antônio, certamente, assumindo a culpa como fizera, seria apenado com poucos meses de prisão, e que tudo seria resolvido rapidamente. Pena que certamente seria muito mais severa se fosse aplicada a Seu Avelino, por não ter grau de parentesco com o patrão. Era assim que o pai de Antônio pensava, e foi nisso que o filho acreditou.
Antônio estava desarvorado. Temia pelos filhos, pela mulher e por ele mesmo. Nunca saíra do seu canto. Nunca acordara em outro lugar. Suava frio quando pensava que teria que viajar para longe, sozinho. Nunca fizera isso! Mas sabia que teria que se resignar, aliás, já estava resignado, e não falava sobre isso. Nem com Joana. O que seu pai havia decidido era o mais correto a ser feito. Afinal, poucos meses passariam rapidamente, e não seria justo que Seu Avelino ficasse preso. Como poderia sustentar a mulher e seus oito filhos?
Antônio nem conseguia dormir tamanha a insegurança que tinha na alma, e sabia que Joana, mesmo quietinha na cama, também não conseguia. A cada dia que se passava a agonia dos dois se avolumava. Não falavam sobre isso. As coisas seriam como deveriam ser, e pronto.
Depois de duas semanas sofridas, o jipe da polícia chegou. O delegado conversou com o pai de Antônio, entregou uns papéis, e Joana foi destacada para ir até a roça para chamar o marido.
Vieram em silêncio, vagarosamente, como não querendo chegar. Joana arrumou a mala com as poucas roupas, e Antônio vestiu-se com a melhor troca, despediu-se discretamente diante das crianças, e seguiu no jipe da polícia com o delegado e o milico. Estava calado, com os olhos apavorados, mas não chorava.
O choro ficou apenas para as mulheres. A mãe de Antônio, vendo o jipe sumir por entre os pés de café e a nuvem de poeira, enxugou os olhos na ponta do avental e voltou para a cozinha.
Joana, segurando as meninas pelas mãos e carregando o mais novo na barriga, com a alma em soluços, rumou para casa. Meu Deus! Como seriam esses meses?
E as noites foram longas... E as lágrimas não cessavam... E a barriga crescia cada vez mais, feito a saudade.
Não chegava carta. Antônio não sabia escrever, e nunca pediria para que alguém o ajudasse. Imagina se ele contaria alguma coisa para qualquer estranho!
E o filho nasceu... Um menino grande e forte, como o pai. A ele foi dado o nome do avô. Joana sabia que Antônio, distante, estaria aflito, apavorado e muito triste por não estar junto dela naquele momento. Pelas contas deles, quando a criança nascesse, certamente a pena já estaria cumprida, e ele já estaria em liberdade. Mas, isso não aconteceu. A pena estava sendo muito maior que o esperado.
Era a vida... E um ano se passou...
Nada de Antônio ser colocado em liberdade, e então Joana foi informada, pelo sogro, que ele fora condenado a uma pena total de três anos de prisão. Quanta dor! Apenas um ano havia se passado, e havia mais dois pela frente. Quanta solidão! As meninas, com quatro e dois anos, o menino com seis meses, e a vida precisava seguir em frente.
E seguia, só Deus sabe como...
Joana contava os dias, calada. Conversava com os pais de Antônio apenas o trivial, o corriqueiro, era o costume. Não se falava em tempo de espera, em saudade, em dor.
Todos sentiam tudo, mas ninguém falava...
A mãe de Antônio cuidava de ajudar Joana nas tarefas, principalmente no cuidado com as roupas e no preparo dos pães. Era bondosa, de olhos mansos, piedosa, subserviente. E Joana, também.
Apesar de forte, de extremamente organizada e generosa, a mãe de Antônio era devotadamente submissa ao marido. Não exigia explicação alguma, não questionava nada, não contestava, apenas vivia, ou melhor, respirava...
Passados três longos anos, a colheita de café agitava os colonos num vaivém incessante, o sol estava começando a declinar naquela quarta-feira, quando Joana ouviu o som de uma condução que se aproximava.
Com o coração aos pulos foi para a janela e avistou o jipe da polícia. Nem sabia o que fazer. Queria estar bem bonita para o reencontro com Antônio, mas num ímpeto, nem se lembrando disso, correu para o terreiro, sem mesmo tirar o avental.
E viu Antônio... E se assustou...
Ele estava magro, excessivamente magro, amarelo, olhos fundos, entristecido, curvado, abatido, com uma palidez macilenta, e quando falou seu nome, Joana percebeu a voz muito fraca. Só o carinho que Joana viu em seus olhos lembrava o Antônio que havia partido três anos antes.
Ele estendeu a mão num cumprimento, e procurou rapidamente, com os olhos, os seus filhos. Eles vinham correndo buscando a mãe. As meninas não reconheceram o pai, e o menino ainda não havia sido apresentado a ele.
Antônio despediu-se dos policiais, pediu a bênção dos pais, pegou a mala e rumou vagarosamente para casa, seguido por Joana e pelos filhos.
Os policiais ficaram conversando por alguns minutos com os pais dele, e depois se foram.
Antônio entrou em casa. Ficou um bom tempo olhando para as paredes como se estivesse matando a saudade que sentia no peito, e demorou a soltar a mala.
Joana estava feliz com a chegada do seu Antônio, mas o coração apertado tentava contrariar a sua vontade e colocava uma névoa de preocupação na sua alegria. Sentia que o marido não estava bem.
E não estava mesmo. Na prisão, ele havia contraído várias doenças, e a tuberculose havia minado suas forças quase por completo. A falta de sol, a falta de se exercitar como fazia na roça, a alimentação precária e a solidão daqueles anos todos lhe roubaram a saúde.
E mesmo feliz por estar de volta, Antônio não conseguia reagir aos males do corpo. A febre não cedia, a prostração o dominou. Foi se finando, foi se esvaindo, até que a vida lhe escapou das mãos.
Foram dias difíceis, angustiantes, nos quais Joana teve a impressão de ter sido levada, de ter sido arrastada, porque não se lembra de muitos detalhes.
Depois de tanta espera, depois da volta, em apenas poucos meses, Joana se via novamente só. Não havia o que esperar. O seu Antônio não voltaria mais, tinha partido para sempre.
Agora, ali, olhando os rostos serenos dos filhos, com o coração enlutado, com as forças querendo abandoná-la, relembra tudo e nem revolta sente. Não reclama, não blasfema, não se insurge, não maldiz, não se inflama. Continua apática, abatida, resignada. É o costume...
Queria apenas entender...
Assim que amanhecer irá de mudança para a vila. É chegada a hora da filha mais velha começar na escola. O pai de Antônio arrumou uma casa na vila para ela e para as duas meninas. O menino ficará ali, com o pai e com a mãe de Antônio. Será criado por eles no costume do sítio para pegar gosto pelo trabalho na terra.
Joana está amargurada com mais essa separação. Assim foi decidido e assim será...
O sol clareia o terreiro, os parcos pertences são colocados num velho caminhão que chegou. Joana e as meninas amontoam-se na pequena cabine com o motorista, e o choro gritado do filho, que se contorce para sair do colo da mãe de Antônio à procura dos seus braços, entra por seus ouvidos e parece querer fazer explodir seu peito com tamanha aflição.
A dor que Joana sentiu ao parir foi infinitamente menor se comparada a essa que aperta seu peito nessa separação. É agora como uma lança em chamas a rasgar a carne, o ventre, retirando o filho do seu convívio. Não irá mais estar presente nos dias da vida dele, não acompanhará seu crescimento, não irá mais velar-lhe o sono, não estará presente para aliviar seu medo nas noites de chuva... Mas, é a vida...
O caminhão segue pela estrada poeirenta.
Joana também deve seguir em frente...
E seguiu... 

Regina Ruth Rincon Caires
Araçatuba/SP
                             

                  
         


FOLHAS DE OUTONO






FOLHAS DE OUTONO

O parque estava quase vazio. As pessoas escolheram o aconchego entre paredes, rejeitando, de vez, o vento frio da tarde e o sol tímido do final de outono. Poucas crianças brincavam na caixa de areia, permanentemente observadas pelos olhos zelosos dos adultos.
Agasalhado feito esquimó, um menino veio em minha direção e despejou o balde com areia no banco em que eu estava sentada. Não resisti em devolver um sorriso diante da alegria daqueles olhos inocentes. Ajeitei-me mais à borda do banco. E ele, gostando da brincadeira, repetiu o gracejo por inúmeras vezes. Nem percebi quando parou. Não notei quando ele saiu do parque, e assustei-me quando vi o monte de areia ao meu lado. Areia fina, tomada por folhas secas. 
Enquanto meus dedos, instintivamente, retiravam as folhas, meus pensamentos continuavam distantes, atrelavam-se a lampejos de cenas pregressas. Encanto fugidio. Lembranças que brotavam como feixes de luz cruzando a memória. Breves, mas articuladas. Permeadas, reiteradamente, por aquele rosto sereno marcado por covinhas nascidas de um sorriso ingênuo. Sim, ingênuo. Ou será que a pureza estava nos meus olhos?! Não. Era real. Com o tempo, ficou ainda mais claro. Havia candura.


***


O moço chegou num repente, trazia a prosa cantada das terras paranaenses. Falava de coisas que eu não sabia, e encantava. Costumes diferentes, gostos diferentes. Era o último a falar, ouvidos atentos. Talvez não compreendesse o modo de vida do meu povo, talvez precisasse de um tempo. Ou também poderia estar encantado, querendo ouvir.
Tínhamos exatamente a mesma idade. E a adolescência efervescente irrompia pelos poros, pelos gestos. Demandava controle. Ficávamos perdidos no turbilhão de hormônios e pecados, de desejos e pudores, de vontades e vergonhas. Inexperiência pura, e medo. Muito medo. Tudo levava a um drama de consciência que nos fazia perder o sono por noites e noites, e, talvez por isso, flutuávamos por dias e dias. Ou nada disso. O enlevo era magia castiça. A sedução instalava-se com todo o seu domínio. Imperativa.
Entre as atividades do dia, em qualquer sobra de tempo, estava eu a meditar sobre isso. Até conseguia formar um pensamento quase palpável sobre como não perder o controle, e, mais ainda, como conseguir dissimular a presença de tais sensações. Mas tudo ia por terra quando via aquele rosto. Se eu deixava transparecer, não sei. Mas, dentro de mim, não havia qualquer gerência. Instante seguinte, lá estava eu a flutuar.
 Pertencíamos à mesma roda de amigos, frequentávamos as mesmas reuniões dançantes. Gostávamos dos mesmos ritmos, das mesmas músicas. Eram muitos “mesmos”, e era muito bom tê-lo por perto.
A reunião acontecia, animada. Estávamos sentados lado a lado. Na vitrola, uma mistura de Beatles, Roberto Carlos, Aretha, Taiguara, Marmalade, Mutantes, Bee Gees, Adamo, Elis, Creedence, Rolling Stones... Muitos dançavam, alguns conversavam, outros fumavam, bebiam. Muitos risos, muita vida. Num dado momento, estávamos apenas os dois no sofá. E o tema de amor de Romeu e Julieta tomou conta do ambiente. Num ímpeto, ele colocou a mão sobre a minha e me convidou para dançar. Foi um susto tremendo, ele nunca dançava! Refeita, aceitei.
Quando nos dirigimos à pista, aconteceu uma chuva de aplausos e risadas. Dispensável dizer que ficamos avexados. Tive a irrefutável certeza de que eu não soube camuflar nem sentimentos, nem sensações, nem coisa alguma.
E, naquele momento, pude perceber o quanto ele era alto. Enlaçou-me com o braço e minha face ficou colada em seu peito. Era morno. A mão grande e macia segurava a minha com firmeza. E o rosto, encostado na minha testa, dava um aconchego não só no corpo, aninhava a alma.
Terminada a música, ele não deixou a minha mão. E dançamos mais uma, e mais uma, e mais uma...  Juntos, encostados, sentindo o toque, o perfume, o pulsar, a pele. Naquela noite, quase não falamos, mas nossos olhares, cúmplices e envergonhados, disseram muito. E a noite acabou. Não houve pedido de namoro, despedimo-nos ali mesmo.
Na volta para casa, eu pairava. Nem sentia os pés tocarem o chão, tinha a sensação de que o corpo estava envolto em bolhas. Nada de frio ou calor. Corpo e alma levitavam.
E foram mais três semanas de cumplicidade, de aninho, de abraço, de dança, de feitiço, e o pedido chegou. Somado a tudo que já havíamos experimentado, ficamos trêmulos. Era uma tremura que alcançava até mesmo a nossa fala. E tudo aconteceu enquanto dançávamos. O pedido, a resposta, o encanto, o abraço. A completude do momento. Eu nem queria que a música acabasse. Queria que o momento fosse eterno.
Naquela noite, ele me acompanhou até perto de casa. De mãos dadas. E na despedida, um abraço interminável. Trêmulo.
A convivência tornou-se transcendente. Os assuntos brotavam de todos os lados. Ele era encantado por corrida de carro e conhecia as diversas escuderias. Apaixonado pela Lotus. De início, eu não entendia nada, se bem que aprendi muito pouco sobre isso. Mas guardei, por muitos anos e com muito carinho, uma pintura com colagem que ele fez para mim. Ficou pregada na parede do meu quarto, e não lembro quando foi que a tirei de lá.
Apreciava música orquestrada. Presenteou-me com um vinil de Ray Conniff  - “Turn Around Look At Me”. E eu também aprendi a gostar.
Entendedor de números, as ciências exatas o enfeitiçavam. E era excelente em humanas. Ele falava de outros lugares, de outros horizontes, de outros sonhos. Falávamos de tudo, era muito bom estarmos juntos.
Eu sonhava com o primeiro beijo. Passava horas a imaginar como ele seria, como eu reagiria, o que eu deveria fazer com as mãos, se teria que fechar os olhos ou mantê-los abertos... Quase treinei diante do espelho, só não o fiz por puro recato. Ou por achar que a cena ficaria patética e poderia quebrar o encanto.
E ele aconteceu. Numa volta para casa, percebi que ele estava meio reticente, até mesmo no andar. Vagaroso, mão mais quente que de costume, suada, suspiros fora de hora. Não vou mentir. Pressenti que o momento do beijo estava bem perto. De repente, ele parou diante de mim, colocou as mãos no meu pescoço, olhou-me demoradamente. Meio sem jeito, abaixei os olhos e ele beijou minhas pálpebras. Segurou meu rosto com imensa ternura e seus lábios desceram, tocando a minha boca. Um beijo suave. Ficamos ali, abraçados, juntinhos, tremendo. E foi uma longa caminhada até chegarmos ao portão de casa.
A partir daquela noite, não era apenas prazeroso estarmos juntos, sentíamos necessidade do toque, do abraço, do beijo. Ficamos reféns da cumplicidade de sonhos, das palavras de amor sussurradas no ouvido.
E, naquela delicadeza envolvente, sem dizer palavra, ele me mostrou que braços não apenas abraçavam. Eles uniam. Unificavam. Suavemente, durante um beijo, ele tomou as minhas mãos espalmadas no seu peito e as levou a enlaçarem o seu pescoço. De início, feito bailarina, fiquei nas pontinhas dos pés. Mas, depois, com a força dos seus braços contornando a minha cintura, ergueu-me do chão. E girava, lentamente. Assim, de peitos acochados, colados num doce bailado, até as batidas de nossos corações soavam uníssonas. De alma, éramos um só.
Contávamos as horas que nos separavam, e o tempo voava quando estávamos juntos. Foram meses de puro arrebatamento. Fascínio em cada encontro.
Um dia, chegou mais calado que de costume. Os abraços eram mais apertados, o olhar, ainda que carinhoso, trazia uma sombra diferente. Sempre muito franco, com voz muito baixa, cuidadosamente comentou que, em breve, voltaria para a sua terra. O trabalho sob os cuidados do seu pai, na empresa construtora, acabara, e haveria a remoção para outra obra. Houve um silêncio estarrecedor. Sabíamos que o dia da partida chegaria, mas, quando se é jovem, tempo sempre é sinônimo de infinitude.
Os últimos encontros não perderam o encanto, mas havia medo. Estávamos inquietos. Jurávamos amor eterno.
A despedida aconteceu numa noite fria de julho. Na praça da matriz, deserta, ainda que absolutamente agasalhados, tremíamos sem parar. Fiquei aninhada no seu peito por horas. Era morno. As suas mãos macias não cansavam de acariciar o meu rosto. E foram tantos beijos... Tantas promessas.
Não sabíamos, mas aqueles foram os últimos abraços, os últimos toques.
Assim como veio, partiu.
Era preciso, tinha de ser. Ou não ser.


***


Tantas cartas, tantos telegramas. Nenhuma resposta.


***


E a vida, esse espetáculo mágico, essa engrenagem incessante que gira ao sabor do vento, que não para nem mesmo em respeito à dor, que nos impulsiona e nos leva, independentemente de consentimento, sempre nos surpreende com a imprevisibilidade. Talvez aí esteja o feitiço de ser. 
Com as redes sociais derrubando fronteiras, encurtando distâncias, tudo está na janela, no alcance da vontade. A opção de abri-la, geralmente, é buscada por curiosos, por inconformados, por cavucadores de respostas. Sempre fui tudo isso. E procurei. Encontrei página com o mesmo nome. E uma com o mesmo rosto. Bem mais velho, não poderia ser diferente, mas as covinhas formadas pelo sorriso confirmaram que eu havia encontrado aquele moço que lá, num tempo passado, encantava. Deixei uma mensagem.
Um ano depois, recebi resposta. E conversamos muito. Por escrito. Surpreendente como a amizade pode ser perene. Distância e tempo não mudaram muitos dos nossos bons sentimentos. Falamos sobre nossos pais, meus irmãos, amigos. Sobre datas, e, principalmente, sobre os novos amores arrebanhados no hiato de quase meio século. Formou-se engenheiro civil! Estava no terceiro casamento. Foi mais rápido que eu. E falamos sobre o passado. Sentia-se responsável por não ter voltado. Imagine! Éramos praticamente crianças, adolescentes despreparados. Tudo foi como deveria ter sido.
Emocionei-me quando disse que ainda guardava minhas cartas e meus telegramas. Que foram lidos e relidos durante muito tempo, que gostava da maneira como eu escrevia. E ainda tinha lembrança de que éramos do mesmo mês, do mesmo ano, do mesmo signo, do mesmo temperamento.
Ri muito quando me confessou que, quando me deixava no portão de casa, tarde da noite, voltava quase correndo pelas ruas com medo de ser abduzido por um marciano, ser levado por um disco voador. Realmente, a casa dele era bem distante e ficava numa área pouco habitada. Além disso, as manchetes, à época, tratavam da chegada do homem à lua, das presunções sobre habitantes em Marte. Fiquei imaginando a cena... Ainda bem que ele não viu e nem ouviu, mas gargalhei por minutos. E sempre que me lembro disso, eu não resisto e rio de novo.
Contou-me sobre a aventura concretizada. Fazia pouco tempo, cruzara o continente de norte a sul, pilotando uma Hayabusa, e sentia-se pleno, realizado. Deslumbrou-se com o deserto do Atacama, apaixonou-se pelos Andes.
Falamos muito sobre a inocência daquele tempo, mas não trocamos palavra sobre os nossos momentos. Se acaso não os esqueceu, ele os trancou na memória, sem compartilhamento. Como sempre, juntados às vivências amoitadas em algum canto que não mais será remexido. Tudo tão particular. Visceral a ponto de não existir palavra capaz de traduzir o arrepio que corre pelo corpo quando qualquer fagulha de lembrança é revivida.


***


O som estridente da sirene fez meu corpo estremecer. Hora de fechar o parque. Nas asas do devaneio, o tempo voou e a noite não tardaria. A névoa cobriu as árvores e a visão ficou turva. O vento forte levou as folhas secas que eu havia separado, redemoinhos incontroláveis espalhavam-nas por toda parte. Imitando a vida, tudo procurava se acomodar em algum canto.
Ergui a gola do agasalho, o frio castigava.
Logo chegaria o inverno. E, em seguida, a primavera. Mais uma...
  



Regina Ruth Rincon Caires

CORTE "AMERICANO"


                                     


CORTE  “AMERICANO”

         No início da década de 1970, para tirar o sossego dos pais dos garotos, a moda era cabelo longo.
         Aloísio, embodocado na timidez dos seus treze anos, filho mirrado de um negro e de uma cabocla, órfão de pai desde que nascera, vivia com a mãe e mais um irmão.
         Meio carapinha, ele dormia todas as noites com a cabeça enfiada numa velha meia para tentar driblar a rebeldia dos longos cabelos. Quando acabava de lavá-los, com a velha tesoura aparava as pontas daqui e dali, ritual que fazia escondido, longe dos olhos da mãe e do irmão mais velho. Os dois não aprovavam aquela profusa cabeleira que deixava Aloísio com o semblante ainda mais franzino, disforme. Era uma cabeça desproporcionalmente volumosa sustentada por um corpo minguado. Imagem triste.
         Certo dia, Paulo, seu irmão, ofereceu-lhe, de presente de aniversário, um corte de cabelo na barbearia do Seu Alípio. Aloísio ficou todo cheio! Cortar o cabelo numa barbearia era artigo de luxo. Desde que se dera por gente e até certo tempo atrás, seu cabelo sempre fora cortado pela mãe. Sairia da barbearia todo faceiro, cheirando a álcool, a talco ou à água Velva!
         No dia combinado, Aloísio recebeu uma cédula de dinheiro do irmão, e foi todo aprumado em direção à porta. Antes de sair e temendo não saber o que dizer quando chegasse sozinho à barbearia, perguntou:
         - Paulo, o que eu digo ao Seu Alípio?!
         -Não fique avexado, oxe! É só chegar lá e falar que quer fazer o corte “americano”! Vá logo, ande! – respondeu Paulo.
         Aloísio passou pelo portão, todo garboso, metido num traje domingueiro, calças até o joelho, impecavelmente passadas a ferro pela mãe. Caminhava quase aos trotes, tamanha a pressa, e com as mãos nos bolsos, remexia alegremente a cédula de dinheiro, e o seu velho canivete, inseparável companheiro. Logo estava diante da barbearia.
         Cumprimentou Seu Alípio e, numa voz quase sumida, disse a ele que queria cortar o cabelo, corte “americano”, conforme a orientação do irmão.
         Seu Alípio o colocou na velha poltrona, mas Aloísio era tão miúdo, tão apoucado no tamanho, que não conseguia se olhar no espelho colocado na parede de frente. A toalha foi colocada sobre os ombros, e Seu Alípio começou o preparo da tesoura. Ao mesmo tempo em  que começou a assobiar, iniciou também a dança das tesouradas. Era uma rapidez de movimentos que Aloísio ficou imobilizado. O medo de se mexer virou pânico quando ele pressentiu que, caso se movimentasse, poderia levar uma tesourada nas pontas das orelhas. Orelhas, aliás, bem avantajadas, muito mais que o desejado...
         Aloísio, enquanto ouvia o assobio ininterrupto do Seu Alípio soar cada vez mais estridente, via os tufos de cabelo caindo da tesoura, passando pelo seu rosto, pelos seus ombros cobertos pela toalha, pelos braços, e se esparramando pelo chão. Estava em choque! De onde saía tanto cabelo? O que Seu Alípio estava aprontando na sua cabeça?! Espavorido, nem conseguia se mover. E o zunido da tesoura não cessava...
         Atordoado, Aloísio fechou os olhos e, silenciosamente, clamou por todos os santos para que aquilo acabasse logo. De repente, Seu Alípio parando de assobiar e descansou a tesoura sobre o aparador. E com a mesma rapidez de ação, pegou um instrumento que parecia um boticão ampliado, tombou fortemente a cabeça de Aloísio para frente e começou a passar aquela ferramenta da nuca para o alto da cabeça. E como doía! Conforme subia, aquele aparelho ia puxando de maneira ríspida os fios de cabelo, roçando asperamente a pele da cabeça. Uma sensação horrorosa. E Seu Alípio voltou a assobiar...
         Aloísio nem ousava abrir os olhos. Tinha receio de olhar o chão e constatar que todo o seu cabelo estava ali. Só queria que aquilo acabasse logo...
         E Seu Alípio parou de assobiar. Guardou aquela estrovenga no aparador, junto com a tesoura, e começou a retirar a toalha.
         Aloísio não queria saber de álcool, de talco ou de água Velva. Nem aceitou a oferta de Seu Alípio para se olhar no espelho, e nem se atreveu a passar a mão pela cabeça porque não queria constatar o que já sabia. Não queria saber de nada. Queria ir para casa, e lá, sozinho, olhar o que havia acontecido com os seus cabelos.
         Pegou o troco dado pelo barbeiro, e foi rapidamente rumo à porta. Não precisou chegar à casa para se certificar do ocorrido. O vento que lhe batia na nuca, o sol que lhe ardia na cabeça e as orelhas proeminentes esculpidas na sua própria sombra refletida na calçada foram enchendo o seu peito de raiva, enchendo os seus olhos de água...
         Aloísio, com a mão enfiada no bolso, comprimia com força o velho canivete. Apertou o passo. Queria sair da vista de todos. Já diante do velho portão, meteu o pé nos sarrafos já puídos, entrou em casa chorando em silêncio. A mão, que tentava esmagar o canivete no bolso, desejava esmagar o pescoço de Paulo.
         Naquele momento, se não tivesse a mãe, e se não fosse pecado, seguramente Aloísio teria furado o irmão. 

Regina Ruth Rincon Caires



CINE SANTA MARIA






CINE SANTA MARIA

O cinema ficava na rua principal, rua de terra batida, bem no centro da vila. Em frente havia a “Toca da Onça”, um botequim escuro, com portas de madeira de duas folhas, prédio sem janelas, sujo, de ar fétido, onde basicamente se vendia bebida destilada. Ali, naquele boteco, os bebuns amanheciam e anoiteciam encharcados de pinga, conhaque, gin, vodca, vermute... Não me lembro de ter visto alguém ali consumindo cerveja.
Ao lado do boteco era a venda do meu pai, e nos fundos ficava a nossa casa que fazia parte do prédio do armazém. Como se fosse um prolongamento da venda. Fica claro que eu, praticamente, morava grudada ao cinema. Bastava atravessar a rua. Quando não podia ir às sessões, porque muitas vezes estas eram proibidas para crianças; no silêncio da noite, eu sentava no degrau junto à porta fechada do armazém, e ouvia, nitidamente, as notícias veiculadas antes do filme. Conseguia ouvir o noticiário esportivo, as músicas, as trilhas sonoras dos trailers, enfim, ouvia tudo.
Quanto às notícias, no cinema sempre chegavam com muito atraso. Quando lá dizia que uma determinada pessoa, artista, político ou qualquer outra celebridade estava doente em estado grave, com toda certeza, a pessoa já havia morrido. As notícias, repassadas em tempo real, chegavam através do “Repórter Esso”, programa acompanhado diariamente nos rádios da vila. Quando o filme começava era possível ouvir tudo, mas eu não entendia nada. Os filmes proibidos, na grande maioria, eram estrangeiros: americanos, franceses, portanto, falados em outras línguas. Aí fazia falta a legenda. Não entendia o que era falado, mas pelo título do filme, a minha imaginação voava. Ficava ali até que o sono viesse. E muitas vezes, quando a trilha sonora era agradável, eu esperava o final da sessão, e assim podia ver as pessoas deixando o prédio.
Ah! O prédio...
O Cine Santa Maria funcionava num salão comum. Quatro paredes caiadas de branco, telhado de madeiramento simples, telhas comuns, sem forro, chão de tijolos crus e surrados. Muitas vezes, com a chuva forte, algumas goteiras causavam um corre-corre danado dentro do cinema. E o mais crítico: não havia banheiro. Se alguém numa emergência precisasse usar um banheiro, a única saída era correr para o outro lado da rua, nos fundos do botequim. Era um flagelo! E o pior é que, quando alguém saía intempestivamente da sessão, todos os demais já ficavam sabendo da sua emergência. Um desconforto! Situação constrangedora. Mas, valia a pena...
A porta de entrada do cinema era na lateral do prédio. Do lado de dentro, na parede da frente que ficava rente à calçada, havia um grande painel forrado de tecido branco, feito um lençol. Ali eram projetadas as imagens do filme.
Havia apenas duas janelas na parede contrária à porta de entrada. As cadeiras de pau, com assentos de palha de milho trançada, eram amarradas umas às outras com cordas para que ficassem alinhadas, e dispostas em duas fileiras, de maneira que formavam um corredor central. No fundo desse corredor central, entre as duas fileiras de cadeiras, havia uma mesa rústica, e sobre ela ficava o projetor de filmes.
Na vila, apenas uma pessoa estava habilitada a operar o projetor. E, por isso, era muito respeitada. Era o passador de filmes. Ficava sentado em um banco colocado junto ao canto da mesa, com o corpo rente ao projetor, e ali, lenta e intermitentemente, ia rodando a manivela que girava o rolo do filme. Sempre na mesma cadência, na mesma velocidade.
Os filmes, semanalmente, chegavam através das antigas jardineiras, com os bagageiros na parte de cima, a céu aberto, e vinham acondicionados em latas circulares, quase sempre cobertas de poeira vermelha da estrada. O passador de filmes era responsável por recebê-los e, após as projeções, despachá-los para outra cidade, conforme orientação da distribuidora.
As sessões aconteciam sempre aos sábados, domingos e feriados. Nos domingos e feriados quase sempre havia matinês. Nelas eram apresentados filmes para os pequenos e adolescentes. Se bem que nessa época não se falava em adolescente. Eu conhecia crianças e adultos. Jovem bem encorpado, sempre com calças compridas, era adulto, e menos encorpado, com calças curtas, era criança. Menina que brincava na rua, que brincava na escola, era criança, e menina que não corria na rua, cheia de pudor, que pensava em namoro, era moça, adulta. Simples assim.
Muitos filmes, na época, eram promovidos pelos próprios artistas. Eles viajavam em excursões itinerantes pelas cidades do interior onde os filmes seriam exibidos. Eu me lembro de ter visto pessoalmente, no final da década de 1950, início da de 1960, atores como Zé Trindade, Ankito, cantores como Tony Campello, Celly Campello, Carlos Gonzaga, Hebe Camargo. Não me lembro de ter visto Oscarito e Grande Otelo, mas há quem diga que eles estiveram por lá. Era uma festa olhar as celebridades almoçando no hotel da Dona Lídia. A porta do refeitório ficava apinhada de cabecinhas curiosas, de pescocinhos agitados, e os olhos corriam desde os pés até o alto da cabeleira de cada um. Tudo era novidade, principalmente as roupas que vestiam...
Esporadicamente havia a apresentação de algum seriado, e então as sessões de cinema aconteciam às quartas-feiras, com os episódios sendo projetados após o final do filme principal, ocupando mais ou menos uns vinte minutos. Geralmente, a aventura se estendia por dez capítulos, o que preenchia nossas expectativas por mais de dois meses. E era muito bom! A discussão sobre o desfecho virava o assunto da vila, hipóteses e hipóteses sobre o que aconteceria no próximo capítulo. Os seriados eram sempre bang-bang, tiroteio para todo lado. Costumava-se dizer que no final só se salvavam: o mocinho e o cinegrafista. E, demorou muito até que eu descobrisse o que era cinegrafista.
Quando preparava a apresentação, o passador de filmes ficava um bom período da tarde dentro do cinema. Pelo pouco que eu conseguia enxergar pela janela, empoleirada em uma pilha de tijolos quebrados que arranjei, percebia que ele usava uma tesoura, e ficava passando o filme de um rolo para o outro. De repente, parava, olhava a fita contra a luz, e, às vezes, cortava um pedaço e grudava novamente. À distância, nunca compreendi tudo que ele fazia ali, mas fiquei com a certeza de que aquelas falhas que apareciam durante a projeção, eram frutos daquela lida prévia.
Muitas vezes, assistindo ao filme, a projeção dava um pinote, apareciam borrões na tela, e pulava um pedaço da história. Todo mundo chiava, mas o filme seguia. De qualquer maneira, dava para entender a trama. E os ânimos se acalmavam. Enfim, era uma diversão sagrada.
O passador de filmes sempre colocava pedaços e mais pedaços cortados da fita dos filmes no lixo. Eu ficava de olho. Quando ele descartava o saco de papel lotado com os pedaços de filme, eu, na espreita, olhando de um lado e de outro, abraçava o saco de papel e saía correndo em direção de casa. Sentada debaixo do pé de manga, eu passava horas olhando aqueles pequenos e incríveis negativos quadradinhos contra a luz. Eram cenas dos filmes. Muitas cenas eu já conhecia, eram de filmes já vistos, e outras eram completamente novas. Aí, era um sonho... E eu sonhava acordada.
Tempos depois passou pela vila um fotógrafo que tirava retratos e colocava os negativos num pequeno cone lapidado, com uma pequena lente de aumento. Uma foto para ser vista por um monóculo. Quando essa danada invenção apareceu, pude olhar com muito cuidado cada um dos pedacinhos das fitas de filmes que guardei durante muitos anos. E aí, vendo tudo com mais nitidez, separei as cenas, filme por filme. Um trabalho que levou muitos meses, que cansava a vista, mas que foi um deleite.
As sessões de cinema começavam sempre às oito horas. Os rapazes e as moçoilas geralmente chegavam à praça por volta das sete. Roupas caprichadas, incrivelmente engomadas e passadas. O ar recendia sempre aos mesmos perfumes. As moças usavam Tabu, ou Flor de Maçã, e os rapazes recendiam à brilhantina Glostora, e os mais precavidos usavam quina de petróleo. Era tanta brilhantina, tanta quina nos cabelos que mesmo que eles ficassem de cabeça para baixo, nenhum fio sairia do lugar. A cabeleira ficava pastosa, brilhante, com a marca dos dentes do pente crivada em toda a cabeça. Parecia cabelo de bibelô! Sabe o que é bibelô?!
Eu chegava cedo à sessão. Assim que a bilheteria se abria eu era a primeira a comprar o ingresso, e, aberta a porta, eu deslizava pela multidão e chegava à frente. E me sentava na primeira fileira, na cadeira que dava para o corredor central, de onde vinha o foco do projetor. Ali, eu ficava girando o corpo pra lá e pra cá, observando quem estava chegando, onde se sentava, quem era a companhia, que roupa usava... Como era curiosa! Era?!
Mas, nem todo mundo era fissurado assim. Havia aqueles mais sossegados que, querendo aproveitar o footing até o último minuto, ou esticar a paquera por mais algum tempo, chegavam ao cinema com a projeção já iniciada.  Às vezes ainda estava no noticiário, ou nos trailers, mas, muitas vezes, os retardatários chegavam quando o filme já havia começado. Aí era um bate-boca danado!
Os cabeçudos, descuidados, atravessavam pelo corredor central, cruzando a frente do foco do projetor. E o que acontecia? Na tela ficava projetada a sombra da cabeça do infeliz, as orelhas, e, às vezes, o corpo todo. E atrapalhava o filme! Era um assobio uníssono, e também sobravam palavrões. Coitadas das mães desses retardatários! Muitos ficavam roxos de vergonha. Isso, inevitavelmente, acontecia em todas as sessões. Sem contar aqueles que faziam isso por pura malandragem, e que não se importavam com a vaia, com os assobios, e muito menos com suas mães. Até gostavam! E o passador de filmes ia, calmamente, girando a manivela, sempre no mesmo ritmo, do começo ao fim do espetáculo. E que espetáculo!
Durante anos, nesse espaço improvisado, rústico, sem qualquer conforto, onde apenas se somavam as fantasias, os sonhos, a perícia e a boa vontade do passador de filmes, vivi momentos encantados.
Com o advento do cinemascope, o mundo vivendo o apogeu da sétima arte, um visionário da época empreendeu-se por este meio e construiu várias salas de cinema pela região. E a vila, na esquina da praça da matriz, acompanhou a construção do Cine Ouro Verde. Gigante, moderno, com banheiros para homens e para mulheres, poltronas estofadas, tapetes vermelhos nos corredores, e o projetor ficaria no mezanino, portanto, cabeçudo nenhum atrapalharia o filme.
Até que se construísse o novo prédio, o Cine Santa Maria permitia que seus frequentadores fossem se despedindo. E eu vivi cada momento dessa despedida, sentindo o gosto da saudade... Em muito pouco tempo, as portas do salão encantado foram fechadas. E o Cine Santa Maria saiu de cena, passando a existir apenas na lembrança.
Fechando os olhos, consigo sentir a textura da palha de milho trançada comprimindo minhas pernas, da mesma maneira que sentia quando, já com o corpo cansado de ficar na mesma posição, eu assistia, inebriada, aos antigos seriados.