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domingo, 22 de dezembro de 2019

BANHO DE AÇUDE





BANHO DE AÇUDE

         O aviso fora dado pela enésima vez...
         Mas, vivendo a plenitude da meninice, como resistir a um banho de açude naquele calor infernal?!
         Nos arredores da vila, nas áreas de vários sítios e fazendas, os açudes multiplicavam-se ano a ano. Escavados, brotados das minas; enfim, eles espocavam convidativos, tentadores.
         E assim, para o desespero e a preocupação dos pais, não havia tarde que não terminasse com os meninos varando cercas de arame farpado, cruzando plantações, pastagens, e mergulhando nas águas nem sempre limpas daqueles imensos açudes.
         E, apesar dos inúmeros avisos, Mário estava sempre entre eles. Cansava de prometer a si mesmo que não mais desobedeceria às ordens do pai, que não quebraria o acordo firmado com ele, mas era uma tentação quando os ponteiros do relógio da igreja matriz iam marcando três horas da tarde...
         Os meninos, sorrateiros, esgueiravam-se das casas, da praça, e seguiam em direção de algum açude. E aí o coração não resistia! Mário, num átimo, jogava às favas as promessas, e só se acalmava quando sentia o frescor das águas do açude no seu corpo...
         E todos faziam tudo do mesmo jeito. Quando estavam bem próximos do açude, principiavam a correr enquanto desatinados se despiam. Na largueza da inocência, na sofreguidão da liberdade. Calção e camisa eram tirados do corpo e displicentemente enrolados. Cuecas e sapatos não havia. Naqueles tempos, meninos não usavam cuecas, e calçado nos pés era só para a escola, igreja ou passeio.
         Cada um escolhia um lugarzinho para deixar a sua acanhada trouxinha a salvo até que saísse do banho. Podia ser junto ao tronco de uma árvore, na sombra de uma moita de capim, sobre um cupinzeiro, não importava. A única preocupação é que a roupa ficasse protegida da água do açude.
         Mas o pai de Mário queria colocar ponto final naquela série de desobediências, e o pobre caborteirinho nem de longe imaginava que seria justamente naquela tarde.
         Lépido, ardiloso, conluiado com os companheiros, num triscar de olhos atravessava os pastos, as plantações, vazava as cercas, se despia, arrumava as roupas perto do tronco de uma árvore, e se jogava no açude.
         E o açude virava uma festa! A água, antes serena, pipocava com os saltos, e logo, com o incessante pisoteio agitado de todas as crianças, o barro do fundo ia subindo e turvando tudo, até formar um lamaçal. Parecia um bando de jacarés rolando os corpos nus.
         E o barro grudava nos cabelos, nas costas, sob as unhas, nas curvas das orelhas... Por mais que se esfregassem para limpar, não havia como não levar resquícios para casa e, consequentemente, fragilizar a argumentação de que não incorreram na desobediência de nadar nos açudes. As evidências estavam sempre presentes. Se não na roupa, com certeza, no corpo.
         Naquela tarde, no meio das risadas, dos saltos, das brincadeiras, ouviu-se uma voz ao longe, gritando:
         - Mário! Mário, você está aí?!
         Mário, que reconheceu a voz do pai, estremeceu.
         De longe, o açude apinhado de cabecinhas enlameadas, brilhando ao sol, silenciou. Era totalmente impossível reconhecer cada criança.
         O mais experiente deles, numa tirada de mestre e líder, respondeu:
         - Seu Osvaldo, o Mário não está aqui, não!
         E Mário apavorado, petrificado, meio escondido atrás de dois amigos, prendia a respiração, não conseguia arfar o peito tamanho era o medo.
         Seu Osvaldo, aparentando muita calma, respondeu:
         - Está bem... Eu me enganei pensando que ele estivesse aqui...
         Dizendo isso, Seu Osvaldo deu meia-volta e lentamente foi caminhando em retirada, refazendo quase o mesmo trajeto que percorrera na vinda.
         As crianças, percebendo que ele se afastava, voltaram às brincadeiras, às cambalhotas, e às risadas como se nada tivesse acontecido. Mário ficou meio ressabiado, mas logo esqueceu. E brincou... Como brincou...
         Seu Osvaldo, com olhos astutos de quem um dia já fora criança, ia caminhando lentamente e olhando de esguelha cada trouxinha de roupa colocada aqui e ali. E encontrou a trouxinha de Mário, com aquela velha camisa, surrada. Disfarçadamente, abaixou-se e rapidamente a recolheu. Estavam ali a camisa e o calção.
         Seu Osvaldo continuou a caminhada rumo à vila, abraçado à trouxinha de roupas do filho. Calmamente... E seguiu para casa.
         O sol estava baixando, e era chegada a hora de Mário cuidar da limpeza do corpo antes de vestir a roupa e seguir de volta para a vila. Era preciso estar em casa antes da escuridão da noite chegar.
         E todos foram saindo do açude.
         Mário se lavou inúmeras vezes, esfregava o couro cabeludo com as unhas até que ardesse. Esperava a água se acalmar, esperava a lama assentar-se no fundo, e mergulhava a cabeça para se livrar do barro. E esfregava cada curvinha das orelhas para remover o barro teimoso que insistia em não sair.
         Pronto. Agora, era só andar devagar até encontrar a árvore onde deixara as suas roupas. Caminhando devagar, evitaria que o barro fosse espirrado nas pernas e o corpo ficaria completamente seco com os últimos raios do sol.
         E assim foi...
         Os companheiros estavam quase todos vestidos, muitos já caminhavam de volta, e Mário ainda procurava as suas roupas. Olhava de um lado, de outro, e nada. Foi ficando intrigado e pôs-se, desesperado, a perguntar a um e a outro.
         Nada... Em poucos minutos virou uma verdadeira caçada às roupas de Mário. Inutilmente... Os mais medrosos puseram-se a correr rumo à vila. Não podiam se atrasar! Os companheiros mais chegados, calados, cansados da busca e imaginando o que havia acontecido, foram se dispersando.
         E Mário ficou ali, parado. E nu.
         Sabia exatamente o que o aguardava. O pai havia levado as suas roupas, e ele teria de enfrentá-lo. Nu...
         E, como chegar até lá? Como um menino de dez anos pode atravessar uma vila, assim, pelado?!
         Olhando o céu e percebendo que logo seria noite, juntando a vergonha de caminhar nu e o medo do escuro, Mário foi mudando os passos, vagarosamente.
         O trecho de volta, naquelas condições, tornava-se mais longo, infinitamente mais longo, e logo precisou apressar o passo. Assim, ele foi correndo de árvore em árvore, de moita em moita, para tentar esconder a sua nudez.
         Mário vazou cercas, cruzou pastos, plantações... Nu. 
         Ficou apavorado quando percebeu que estava perto da vila. Como passaria pelas casas, como enfrentaria as pessoas, assim, pelado?!
         E foi caminhando, aos trotes, aos pulos...
         O sol sumiu, a noite estava à porta. E o medo, também...
         Atravessou a primeira rua da vila, escondeu-se atrás de uma casa. Ainda bem que não existiam muros. Só cercas.
         E foi, já no escuro da noite, correndo de parede em parede, esgueirando-se por moitas de bananeiras, varando cercas, atravessando ruas na noite escura. E a cada espaço de tempo, respirava fundo, benzia-se e pedia a Deus para que aplacasse a ira do seu pai. Não escaparia da cinta, disso ele sabia. O que pedia a Deus é que as cintadas fossem menos iradas, mais suaves...
         Enfim, Mário chegou ao quintal de casa. Caramba, no varal não havia nenhum pano, nada para se cobrir!
         Tinha certeza de que o pai, a mãe e seus irmãos estavam lá dentro, esperando por ele. E sabia que seus irmãos iriam cair na risada quando ele entrasse pelado. Talvez não. O pai devia estar furioso e os irmãos não iriam ter coragem de rir! Duro ia ser aguentar a gozação, a zoeira dos próximos dias...     Mas não queria pensar no depois. Tinha de resolver o agora. E com a voz quase sumida, disse:
         - Pai!
         Nada, ninguém apareceu.
         - Paiêêê!!!
         Gritou tão forte que chegou a fechar os olhos.
         E o pai apareceu. Imenso. Parecia maior que a porta!
         E Mário ali, em pé, no escuro, e pelado. Nem queria olhar para a mão dele. A cinta deveria estar ali, saltitante, ávida pelo seu lombo, pronta para estalar...
         Mas não estava. Para sua surpresa e alívio, não estava.
         Mário caiu no choro. Choro de vergonha, de medo, de arrependimento, de tudo...
         E Seu Osvaldo entendeu. Não seria preciso castigar mais. Limitou-se a buscar uma toalha, cobrir o filho, abraçá-lo e dizer:
         - Mário, meu filho, que esta seja a última vez!
         E parece que foi...
                                                                       Regina Ruth Rincon Caires     
                                                



AMARGA TRAVESSIA







AMARGA TRAVESSIA


Pela vibração das tábuas dispostas no piso metálico, sob os pés, percebia-se que o vapor começava a movimentar-se. As roldanas giravam, e hélices iam cortando as águas salgadas. Seriam dias e dias de giros. O mar inteiro seria cortado. O apito grave e moroso traduzia a tristeza da partida. No convés, centenas de passageiros com olhares perdidos e saudosos, engoliam o medo do desconhecido. A névoa da madrugada deixava o cais hispânico cada vez mais distante, cobria o minúsculo contorno da pátria deixada. Não era vontade. A iminência da guerra, a fome e a peste não deixaram escolha. Desolados, muitos partiram...
No dia anterior, passamos a tarde toda em imensas filas, arrastando o velho baú e outras matulas com pertences e provisões. Apresentação dos passes, contagem dos integrantes de cada família, avaliação médica que exigia colocar a língua para fora e puxar o canto dos olhos. Ficamos acomodados no segundo porão, quatro lances de escada abaixo do convés. Cada passageiro, ao chegar ao piso, recebia uma saca com palhas secas que seria usada como colchão, menos as crianças. Estas deveriam aninhar-se com os pais, era preciso economizar espaço.  Eu, apesar dos meus onze anos, como era espigado, recebi uma saca. Teria que dividi-la com Enrico, o irmão menor. A pequena Estelita ficaria com a mãe.
Passada a atribulação da partida, os passageiros encaminhavam-se para os refúgios. De cabeça baixa, cada qual carregava a sua insegurança. O primeiro porão ainda trazia algum conforto. Havia múltiplos beliches de lona, privadas separadas para homens e mulheres. Porão reservado para os mais remediados, com cobrança de ágio. Impossível para nós.
No segundo porão, nosso refúgio, os baús serviam de biombos que separavam as famílias. Centenas e centenas deles espalhados pelo ambiente, formavam ilhas de pessoas. Amontoados de gentes e trastes. De resto, seria aturar aquele balançar interminável, o rebuliço no estômago, o vômito incontrolável.
Em nenhum momento as vozes silenciavam por completo. Havia sempre um resmungo de mal-estar, uma ralha, um choro mais estridente de criança em desconforto, uma fala doce para apaziguar o medo. Sem contar o rame-rame sonoro vindo da casa de máquinas. Porém havia escuridão no céu, cansaço nos corpos, então nem o murmurinho atrapalhava o sono profundo de muitos.   
Confesso que dormi pouco naquela noite. E em muitas outras. Enrico mostrava um desassossego de pernas que incomodava. Não só pelas pancadas, mas pelo ruído das palhas secas. Ele estava sofrendo mais que nós todos. Menino arredio, amofinado. Em casa, vivia pelos cantos. 
O sol nos pegou acordados. Se bem que a claridade do porão era ínfima. O ar e a luminosidade passavam apenas pelas duas escotilhas existentes entre os dois porões e que, na maioria dos dias, permaneciam abertas. O tênue facho de luz deixava à mostra o aspecto lamentoso daquela realidade. Semblantes contrariados. 
De nós, só o pai foi ao convés para o banho de sol. Ficamos ali, engolindo o pão seco trazido na bagagem. A mãe, de pé, tentava esticar as pernas e rodear o velho baú. Havia pouca coisa a ser feita. Ou muita...
O único banheiro era insuficiente para atender a todos, restava recorrer aos urinóis.  As crianças não se acanhavam, mas, para os mais velhos, o uso ficava restrito à escuridão da noite.  E de manhã, para esvaziá-los, era uma conturbação de mulheres na porta do banheiro. O cheiro ficava insuportável. Com o balanço das águas e a fetidez do ambiente, as náuseas multiplicavam-se. E a travessia ainda estava no início.
Enrico não se alimentava. Aceitou um pouco de água, que não parou no estômago. Não estava bem. Passou o dia aninhado no colchão. Calado, olhos turvos. Havia, no semblante, mais que mal-estar do corpo. Travava luta de pensamentos. Preocupava-me.
E, a cada dia, a viagem tornava-se assustadoramente desumana. Passada a primeira semana, as provisões escassearam. Não tínhamos quase nada. O pão, mesmo embolorado, seria suficiente apenas para mais dois dias. A sopa servida a todos, além de insípida, era desprovida de nutrientes e de higiene.
Ficava evidente o abatimento físico dos passageiros. Os homens já não se entusiasmavam pelo jogo de cartas, fumavam desesperadamente, e a bebida tornou-se ainda mais companheira. Havia muitos passageiros acamados. Pouco se comentava sobre isso, era quase um tabu tocar no assunto. Quando a tosse era ouvida, as famílias em redor se entreolhavam, porém nada, absolutamente nada era dito. Tornou-se um segredo respeitoso, que na verdade não era segredo. Era medo, camuflado pavor.
Enrico definhava a olhos vistos. Calado, insone, inapetente. Ouvia tudo, observava. Notava os menores movimentos. E temia. Na escuridão da noite, bem próximo a ele, eu percebia que quando qualquer passageiro era acometido por crises de tosse, ele erguia a cabeça e olhava em direção do ruído. E as crises foram se tornando tão frequentes que nem mesmo as vozes das mulheres entoando os cânticos religiosos encobriam o som assustador.
A superlotação era tamanha que o ar foi se tornando irrespirável. Os corpos sujos, sem qualquer zelo, as roupas impregnadas com o suor de semanas, os cabelos ensebados, o piso lambuzado de vômito, urina, restos de comida e bebida, o banheiro e os urinóis sujos, tudo exalava um azedume que embaralhava o juízo.
Ainda era noite, e, de repente, Enrico começou a puxar minha perna. Foram vários cutucões até que eu percebesse que ele queria me mostrar algo. Ainda meio sonolento, pude ver pessoas da tripulação descendo as escadas, trazendo maca de lona.  Em meio a choros abafados, rezas sussurradas, o passageiro era colocado na maca e carregado escada acima. E isso aconteceu na outra noite, e na outra, e na outra.
Logo a notícia correu. A febre estava no navio. O caso nunca era contado pela família do doente. Era revelado pela família que estava acomodada ao lado, horrorizada com a possibilidade do contágio iminente. E, desta maneira, o pavor passou a dominar os dias e as noites.
O pai disse que os primeiros casos apareceram no porão de cima, que até mesmo o médico da tripulação fora contaminado. E a partir daí, o convés passou a ficar ainda mais apinhado durante todo o dia. Os homens, aterrorizados, quase não voltavam para os porões. Enquanto houvesse sol, ficariam ao ar livre. O risco seria menor... Ou não.
E o médico morreu. Uma solenidade rápida foi feita e ele foi lançado ao mar. Quando o pai nos contou sobre isso, Enrico encolheu-se na cama, abraçou as pernas e pôs-se a tremer. Era um medo tão desmesurado que afligia. Frágil, indefeso. Deitei-me ao lado dele e o abracei com força. Fiquei ali até que o tremor passasse. E ele dormiu.
Então compreendemos que as pessoas que eram retiradas com as macas não eram tratadas, não havia médico. Eram lançadas ao mar, vivas. Muitas delas nem sabiam que estavam sendo levadas, estavam mal, delirantes. As famílias sabiam que  não estavam mortas, e também sabiam que elas não poderiam continuar ali. Sem escolha.
As noites passaram a ser ainda mais tristes, como se fosse possível. Mesmo com a explicação do pai de que não havia chance de cura, de que a febre era fatal, Enrico não conseguia assimilar. E passava a noite contando os passageiros carregados nas macas. E tremia. E, mansinho, chorava.
A mãe andava tão entristecida que já não catava os nossos piolhos. A cabeça coçava, ardia. As picadas faziam feridas. Ela mostrava olhos fundos, havia perdido carnes, a pele estava pálida, azulada. O rosto murcho, desidratado. Silente. Não se ouvia mais o seu canto de anjo, as rezas ficaram mudas. Percebia-se apenas o movimento dos dedos nas contas do rosário.
E havia pessoas que gritavam ao serem transportadas nas macas. Não tinham força para lutar, só sobrara o grito. Só isso. Sabiam do destino que as esperava. E quando isso acontecia, todos choravam. Enrico se descontrolava. Eu o abraçava com força.
Acomodado ao nosso lado, havia um casal. Apenas os dois. O homem aparentava mais idade, a mulher era bem jovem. Ela vomitava desde que o vapor deixou o cais. Estava pele e osso. Andava pouco, tomava a sopa mostrando a repugnância que lhe causava, mas tomava.  O homem estava sempre a buscar uma caneca com água para que ela bebesse. Havia muito carinho entre os dois. Demorei a perceber que ela estava prestes a ter um filho. O excesso de roupas não permitia visualizar a silhueta. Só fui saber quando ela começou a chorar, a gemer e minha mãe correu até ela para acudir. 
Foi levada para um canto e várias mulheres se juntaram. Horas de agonia até que a criança nascesse. Um menino. Miúdo, de chorinho fraco. A mãe, quando voltou, falou que a criança não vingaria, que respirava com muita dificuldade. Veio antes do tempo.
A mulher voltou para perto de nós quase desfalecida. Ajeitou-se sobre o colchão de palha, mas perdia muito sangue. Colocou a criança ao lado e ambas dormiram. Já era madrugada quando começaram os gemidos. Na penumbra, o marido entendeu que ela estava muito mal. Assustou-se quando não encontrou a criança. Perguntou sobre o filho, mas a mulher fez sinal para que ele ficasse quieto, não queria que o acordasse. Ela dizia que a criança estava bem, que estava descansando. O homem achou muito estranho e começou a rodear os pertences em busca da criança. Quando abriu o baú, caiu no choro. O filho estava lá dentro, gelado, morto. E na hora da entrega do corpinho para a tripulação, todos choraram. A mulher variou o dia todo. Gemia, sangrava, delirava. Na noite seguinte, foi levada. Não sobreviveu, o sangramento não cessou.  E o homem ficou só. Quieto, sem lágrimas. E Enrico se contorcia de pavor, não perdia uma cena, uma palavra.
O vapor estava bem próximo do destino. A febre consumira quase metade da tripulação e passageiros. O espaço dentro dos porões era bem maior, e a sujeira também. De nós, apenas Estelita apresentava quadro de saúde preocupante. Recusava-se a comer, queixava-se de dor na garganta, vomitava com mais frequência. A mãe vivia encostando as costas da mão na testa da menina, medo da febre. E ela veio. Intensa. Em dois dias, Estelita foi levada pela tripulação. Eu não soube se estava viva ou morta. A mãe nunca falou. Só chorou. Chorou por dias... Chorou a vida inteira.
Em alto mar, outro navio nos interceptou. Teríamos que guardar quarentena a quilômetros da costa. Alimentos foram trazidos para reabastecer a cozinha, banhos foram oferecidos com jatos d’água. E os médicos seriam disponibilizados uma semana depois, quando então seríamos colocados em outro navio.
E nesta última semana a bordo do antigo navio, ocorreram as últimas mortes. Muitas. Os mais debilitados não resistiram, e os demais, como nós, empenharam-se em engolir a intragável sopa com mais tolerância. Era a única salvação.
Depois da transferência, foram mais doze dias para atracarmos no porto de Santos. Destroçados, descarnados, de almas amputadas, mas vivos.


***


Minhas pernas cansadas fizeram este caminho centenas de vezes. Agora, andam trôpegas. Talvez as visitas cessem, não por minha vontade, mas por exigência da vida. Ou da morte. Ainda preciso abraçá-lo. Isso o acalma. Sempre foi assim.
Quando me vê, Enrico abre um sorriso. Já não caminha. Apesar de ser mais novo que eu, a vida foi mais severa com ele. Fica à minha espera no banco do minúsculo jardim da casa de custódia. Aninha-se no meu abraço forte. Aquece-se do meu amor. E é sempre a mesma conversa.
- O pai não veio com você? A mãe não veio?
- Não, Enrico. Eles não vieram.
- Eu sei. Eles não entendem que eu não matei as pessoas. Eu não matei aqueles doentes, eles iam morrer de qualquer jeito. Não havia cura, a doença era fatal. E aquelas crianças, eu não matei! Elas só estavam descansando... Eu juro! Por favor, Manolito, converse com eles, eles vão acreditar em você!
- Acalme-se, Enrico, eu vou falar com eles.
Como explicar a ele que a mãe morreu logo que ele foi preso, e que o pai, alucinado, partiu logo em seguida. Será que compreenderia? Enrico trabalhava como auxiliar de limpeza do hospital. Serviço pesado. Cuidava desde o recolhimento de resíduos das lixeiras, dos descartes cirúrgicos, do ensacamento e acompanhava o transporte para as fornalhas de incineração. As mortes ocorreram na ala da enfermaria, sempre no turno da noite. Nunca se soube quantos morreram. Todos indigentes. O último crime foi evitado em razão do grito do paciente, ouvido pelo operador da caldeira, quando ia ser arremessado ao fogo. E, então, Enrico foi preso.   

  
                                                         ***


E um dia, quando cheguei para a visita, o banco estava vazio. Enrico havia sido levado pela tripulação.

              Regina Ruth Rincon Caires
                                              


EPITÁFIO









EPITÁFIO

         Domitila sentou-se novamente ao lado do minúsculo túmulo, debruçou o corpo sobre ele, como se o abraçasse. Fechou os olhos e sentiu uma paz que havia muito não sentia. Não tinha mais cansaço, nem dor, não havia mais agonia. Cumprira a missão.
         Tudo começou por ali, nos arredores daquela vila. Ali viveram seus pais, e ali elas nasceram. Tempos difíceis, sem qualquer recurso. Lembrava-se dos olhos tristonhos da mãe ao falar sobre o encanto da filha mais velha. Da vivacidade dos seus oito meses de vida, da alegria, da pele rosada, dos olhos cristalinos, das coxas roliças.
         E, num repente, na extensão de apenas um dia, ela se foi. Começou com um pequeno desarranjo, julgado como reação pelo despontar dos dentes, e no começo da noite agravou-se com uma febre incontrolável. Mesmo com a débil claridade da lamparina, ficava visível nas pequenas bochechas rubras a intensidade da febre. E a prostração do amado corpinho evidenciava a gravidade do quadro. Tudo muito rápido, sem tempo algum para qualquer acudimento. Na verdade, acudimento não existia. Ali, naquele fim de mundo, não havia nada. Ninguém além deles...
         Quanta dor quando perceberam que nada mais poderia ser feito! A vida da filha havia partido. Ainda com a madrugada escura, com o fosco prateado do início da lua crescente, a mãe e o pai seguiram em direção à vila, carregando nos braços e na alma aquela que seria a maior dor da vida. E tudo foi feito. Nem sabiam como. A papelada foi providenciada, e a filha enterrada. De início, uma pequena carneira de ripas fora erguida, mas depois o pai providenciou uma lápide de tijolos com uma cruz de madeira. Tudo caiado de branco.
         Dois anos depois, nasceu Domitila. Igualmente formosa, mas de saúde delicada. Da mesma maneira, amada. Por ali viveram mais uns poucos anos e, esperançosos, partiram para terras mineiras, dadas como promissoras para os roceiros. Passaram por duas fazendas de café, e na última ficaram até a morte do pai.
         Domitila e a mãe mudaram-se para Lavras, cidade mais próxima da fazenda onde viviam. Alugaram três cômodos. Sobreviviam com a pensão que a mãe recebia pela morte do pai, e mais uns caraminguás que conseguiam defender com o trabalho de lavar e passar roupas.
A mãe já estava fisicamente debilitada. Idosa e judiada pela vida, pouco ajudava. Mas, para Domitila, era uma companhia prazerosa. Sempre se deram bem. Ambas possuíam almas nobres, eram mansas na lida com a vida. A rudeza e as tristezas não as endureceram... Faziam ótima companhia uma à outra. Conversavam demoradamente sobre todos os acontecimentos, sobre todas as saudades. Não havia nenhum planejamento para o futuro. Apenas a esperança de um dia voltar à vila onde Virgínia estava sepultada. Por opção, Domitila nunca se casou. De saúde frágil durante toda a vida, padecia constantemente com agudas crises de asma.
         E assim os anos corriam mansos, simples. O passeio semanal de mãe e filha era a missa domingueira na capelinha próxima da casa em que viviam. Até que um dia, a mãe se cansou. Não queria mais comer, não queria mais tomar banho, não queria mais ir à igreja. Prostrada, definhada, não conseguia mais sair da cama. Domitila cuidava dela como se cuidasse de uma criança. Com paciência, com dedicação, com todo o amor do mundo. Mas os seus cuidados perderam a batalha para outra força. A morte levou a mãe.
         Sentiu a mais dura solidão. Nunca pensara em ficar só. Não sabia como administrar a vida assim, sem ouvir uma única voz na casa. Entristecida, sem recursos para sobreviver, com a alimentação minguada e a falta de cuidados, as crises de asma intensificaram-se a ponto de os vizinhos procurarem a assistência social. E Domitila conseguiu, além de uma pensão vitalícia, tratamento médico dispensado pela equipe do posto de saúde.
         Recuperou-se. Passou a fazer uso diário de muitos medicamentos que minimizavam os vários problemas de saúde desconhecidos até então. Passava os dias sem maiores preocupações, apenas atenta aos horários e doses dos seus medicamentos. O único propósito, no qual pensava e repensava ao longo do dia e durante as noites insones, era a viagem de volta à vila onde nascera, a visita ao túmulo da irmã. Era um desejo, uma missão. Prometera à mãe que não morreria sem lá voltar. E essa era a vontade mais velada.
         Mesmo com todos os cuidados, a saúde de Domitila ficava mais comprometida a cada dia. E chegou um momento em que precisou deixar a casa que alugava. Foi levada para um asilo. Lugar aconchegante, apinhado de velhinhos amigos, cheio de cuidadores, de comida cheirosa, de cama limpa, de banhos refrescantes. Estava feliz. O jardim era lindo, com todas as flores da infância. Muitas dálias, cravos, rosas, flores de capitão...
         Domitila não lembrava mais de qualquer tristeza. Preenchia os seus dias com as atividades de pintura, de bordados, de crochê, de jardinagem. E conversava muito. Tantos amigos, tantas histórias. Umas alegres, outras tristes... E nessas conversas soube que as pessoas idosas poderiam viajar de ônibus sem pagar. Não sabia! Isso lhe abriu caminhos... A parca pensão vitalícia não chegava a suas mãos. Quase a totalidade ficava com aadministração do asilo, o que era muito justo, assim ela pensava. A ela eram repassados uns trocados a cada mês, mas não tinha nem como gastar! Tinha tudo, tinha mais do que precisava...
         O inverno chegou de forma inclemente. Frio que doía nos ossos, e que trouxe gripe a quase todos os idosos do asilo. Domitila ficou mal. Noites e noites de febre causticante, de tosses agudas, de falta de ar. E sempre, amorosamente cuidada. Pedia silenciosamente por saúde, pedia para que fosse dada a ela a possibilidade de viajar até a terra em que havia nascido. Era o seu mais intrínseco e único desejo. Nada mais queria da vida. Só isso...
         Alavancada pela missão a cumprir, recuperava-se, ainda que lentamente. A febre cedera. Apenas a tosse a incomodava. Dava-lhe uma canseira danada no peito, uma inapetência, e atrapalhava o sono. Com a diminuição dos remédios, passava mais horas acordada, e tinha mais tempo para maquinar a sua viagem. Sabia que se falasse sobre isso com alguém seria desencorajada, e se a administração porventura ficasse sabendo, ela seria impedida de ir de qualquer maneira. Por isso, tramava tudo silenciosamente. Dentro da cabeça, tinha toda a trajetória a percorrer. Em detalhes... Sairia do asilo à noitinha, no horário em que todos se recolhem. A sua companheira de quarto era dorminhoca. Bastava entrar nas cobertas e já estava ressonando. Iria bem agasalhada, levaria os remédios na bolsa, juntamente com a carteira de documentos e o pouco dinheiro que guardara por todo tempo. O nome da cidade ela sabia, e usaria do direito a passagens de idosos.
         Tudo arquitetado, cuidadosamente planejado. Domitila ainda se sentia fraca, mas temia adoecer novamente e não ter a oportunidade de realizar o desejo arraigado na alma e cumprir a missão que combinara com a mãe. Não poderia fraquejar agora, talvez essa fosse a última, a única chance.
         No dia escolhido, uma segunda-feira, reorganizou a bolsa, conferiu tudo, separou uma troca de roupa e a acondicionou numa pequena sacola plástica. Colocou tudo sobre os cobertores, no seu guarda-roupa.
         Naquele dia, saboreou o café da manhã como nunca, passou os olhos em cada um dos amigos, conversou com muitos. Almoçou e jantou com eles, numa alegria imensa. Já estava com saudades antes mesmo de partir. E não pretendia demorar nessa viagem... Logo estaria de volta, e sabia que levaria uma bronca danada! Passeou pelo jardim olhando detalhadamente cada flor, que agora eram poucas. Ali o frio também havia castigado.
         Depois do jantar, voltou ao quarto. Pegou uma folha de papel, uma caneta, e começou a desenhar umas letras. Mal sabia escrever, estudara muito pouco. Como ela mesma dizia, não escrevia, apenas desenhava algumas letras. Acabou de escrever e guardou a folha na bolsa. Não era um bilhete para a amiga de quarto. Cumpriria religiosamente o que havia esboçado em sua mente. Não diria nada a ninguém.
         Ficou sentada na cama, esperando a chegada da parceira. Quando ela entrou foi direto ao banheiro. Voltou já de camisola, pronta para entrar nas cobertas. E assim fez. Domitila fez a oração da noite com ela, e em seguida entrou no banheiro. Tomou um banho demorado, estava imensamente feliz. Quando saiu, a companheira já ressonava. Deixou a porta do banheiro entreaberta para clarear um pouco o quarto. Pegou a melhor roupa, vestiu-se calmamente. Agasalhou-se bem, colocando até uma touca preta de lã. Escolheu um cachecol bem longo, deu duas voltas no pescoço. Calçou as grossas luvas, meias de lã, e confortáveis sapatos. Pronto. Estava preparada para partir. Aguardava apenas as luzes serem apagadas e o silêncio envolver tudo.
         Para esperar, sentou-se novamente na cama. Com a pouca claridade que passava pela fresta da porta do banheiro, olhou cada detalhe do quarto. Quatro paredes que acolheram o seu sono nos últimos oito anos. Tempo bom... Olhava a amiga que dormia santamente. Companheira de tantas orações, de tantas prosas, de tantas risadas, de tantos dias bem vividos.
         Finalmente tudo quieto. Tudo apagado. Domitila pegou a bolsa, o saco plástico, olhou para a amiga e deu um sorriso. Apagou a luz do banheiro, abriu a porta do quarto devagarinho, saiu, e com o mesmo cuidado a fechou. Seguiu passo a passo, com muito cuidado, como se pisasse em plumas. Não podia fazer qualquer barulho. Atravessou o pátio, e saiu pelo portão dos fundos. O único que era fechado com trava somente por dentro. Imprudente, irresponsavelmente deixou o portão destrancado, mas não havia outro jeito.
         Quando se viu na rua, teve vontade de rir. Estava fazendo a maior peripécia de toda a sua vida! A maior, não! A única! Olhou a rua vazia, escura, um vento frio, cortante. Ajeitou os óculos, ergueu a dobra do cachecol até cobrir a boca e seguiu em frente. A rodoviária não ficava longe. Bastava andar por mais alguns quarteirões, e a primeira etapa estaria vencida.
         Chegando à rodoviária, pediu informações e dirigiu-se ao balcão da empresa de transporte que fazia a rota. Pediu para comprar a passagem de idoso. Foi avisada de que o ônibus partiria às 23h, que iria até São José do Rio Preto, e que lá teria que pegar outro ônibus para chegar ao destino. Teria de esperar pouco mais de uma hora, mas estava feliz. Muito feliz. Sentia um frio intenso. Acomodou-se em uma poltrona bem recuada, fora da corrente de ar. Ali, quietinha, silenciosamente se pôs a rezar. Sentiu a presença da mãe. Sabia que ela estava ali, a lhe guiar. E sentia-se ainda mais feliz.
         No horário marcado, o ônibus partiu. Que sensação prazerosa! Domitila nem se dava conta de quantos anos fazia desde a última viagem em um ônibus de carreira. Ainda era menina, isso mesmo! As luzes do ônibus se apagaram, a poltrona ao lado estava vazia. Nenhum idoso havia solicitado a outra passagem. Sobrava espaço para colocar a bolsa e a sacola plástica. Sentia muito frio, e pensou que deveria ter trazido a manta. Tinha pensado nisso, mas não quis fazer volume na bagagem. Tentava pensar em outra coisa, esquecer o frio. Em vão... Em poucas horas estava tremelicando, e o ar frio do ônibus piorava tudo. Percebeu que estava com febre. Tinha sede, muita sede.
         Quando o ônibus fez a primeira parada, já era madrugada, Domitila pediu ao motorista que lhe comprasse uma garrafinha com água. Além da sede insana, queria tomar um remédio para baixar a febre. Sentia muito frio, e muito desconforto. E, para piorar, o gentil motorista trouxe água gelada. Coitado, foi tão solícito!
         Tomou o remédio, bebeu toda a água. Não conseguia dormir. Não sabia se pela ansiedade ou se pelo mal-estar, mas não pregou os olhos. Na segunda parada, desceu cuidadosamente do ônibus, foi ao banheiro, comprou outra água, agora sem gelo, e voltou ao ônibus. O dia amanheceu e a encontrou exausta. Sentia-se cansada e doente. A tosse começou a incomodar. Estava gelada. Os pés, quase insensíveis.
         Quando o ônibus chegou a São José do Rio Preto, Domitila perguntou ao motorista como deveria proceder para comprar a outra passagem. Orientada, conseguiu a passagem e só precisava esperar pelo embarque para o seu destino. Depois de um tempo, acomodada no assento reservado, e com o ônibus a caminho da vila da sua infância, Domitila começou a pensar nos amigos do asilo. A essa altura eles deveriam estar alvoroçados com a sua falta, as freiras deveriam estar preocupadíssimas com o seu sumiço. Na volta, ela explicaria, e a bronca seria retumbante. Deu um sorriso. Sentia saudades.
         A missão estava quase finalizada. Faltava muito pouco. Sentia um mal-estar tremendo, muito desconforto, uma fraqueza sem limite. Percebeu que a febre havia voltado, a tosse estava se intensificando, doía-lhe o peito. Deus! Aquele ônibus precisava chegar logo ao destino. Talvez quando descesse, tomaria um café com leite e comeria um pão, tudo ficaria bem. Queria chegar, isso era o que desejava. Nada mais.
         Quando o ônibus chegou à rodoviária da vila, Domitila começou a chorar. Não sabia definir se chorava de alegria ou de dor. Sentia-se feliz, mas fragilizada. Tinha medo de que as forças a abandonassem. Já no saguão, foi ao bar, tomou um café reforçado e engoliu os remédios do dia. Foi ao banheiro. Antes de sair, lavou o rosto e passou uma escova nos cabelos. Seguiu a orientação do rapaz que a levava ao táxi. Passando pelas ruas, tudo lhe era totalmente desconhecido, nada familiar. Não possuía lembrança de nada, era muito pequena quando partira. Uma vila que agora era uma cidade, e cheia de ladeiras. O táxi subiu e desceu, virou aqui e virou ali, e em poucos minutos parou diante do cemitério.
         Uma entrada acanhada. Domitila passou pelo portão de ferro, olhou adiante e viu uma imensidão de área. Não havia ninguém no atendimento. O cemitério era enorme. Tudo muito diferente do que a mãe lhe descrevera. Os túmulos eram gigantescos, modernos, suntuosos. Não havia nada da singeleza contada pela mãe. Foi caminhando em zigue-zague, procurando com os olhos alguma evidência, algo similar a todas as narrativas da mãe. A tosse impiedosa não a abandonava. Tinha calafrios sucessivos. Andou muito, viu muitos túmulos de crianças, enquanto procurava avidamente por uma lápide pequena, rústica, com uma cruz de madeira. Muito cansada, sentou-se em um banco que ficava sob uma árvore, pediu a Deus que a orientasse, que abreviasse a sua busca. Estava mal, sabia que iria precisar de cuidados médicos, mas não naquele momento.
         Voltou à portaria, havia um homem lá. Logo ele se apresentou como coveiro e responsável pelo cemitério. Domitila contou a ele toda a sua história, e o que buscava. Estendeu a ele o seu documento e disse que o nome da irmã era Virgínia, e que o sobrenome era o mesmo dela. O homem nem pegou o documento. Declarou que trabalhava ali havia mais de 40 anos, que não existia qualquer registro anterior a 1950. Então Domitila disse a ele que talvez o túmulo da irmã nem existisse mais. Mas ele garantiu a ela que todos os corpos sepultados até 1950 possuíam sepulturas perpétuas, definitivas. Todos continuavam no mesmo lugar. Explicou que os túmulos mais antigos ocupavam a área no entorno da capela. E como o cemitério fora ampliado posteriormente, os sepultamentos, quanto mais recentes, mais distanciados da capela ficaram.
         Percebendo que Domitila não estava muito bem, o homem ofereceu a ela água e café. Ela aceitou, agradeceu e recomeçou a sua busca. Parou junto à calçada da capela e procurou buscar na memória a direção que a sua mãe havia descrito. Seguiu em linha reta, depois retornou ao mesmo lugar. Refez a caminhada na diagonal. Muitas crianças sepultadas, muitas fotos, o que simplificava a busca. O túmulo da sua irmã não tinha foto. Buscava um túmulo simples, com uma cruz de madeira. E não conseguia encontrar. Sentia tanto frio, tossia incessantemente, tinha vontade de deitar, mas estava ali, pronta a realizar o seu desejo. Não recuaria, nunca...
         A tarde ia caminhando sem pena. E ela não encontrava o túmulo da irmã. Prostrada, chorando baixinho, sentindo a febre cada vez mais elevada, com a tosse a lhe castigar o peito, retornou novamente ao ponto de partida: a velha e minúscula capela. E desta vez seguiu sem rumo, novamente ziguezagueando entre os túmulos. Tropeçava aqui, pisava em falso ali, já não sentia os pés. O sol estava a descer, e ela continuava a busca. O encarregado do cemitério havia terminado o expediente. Pensara que Domitila tivesse desistido, e se foi. Além dela, não havia mais ninguém por ali.
         Não tendo mais forças para continuar, Domitila sentou-se na estreita calçada de um túmulo. Começou a chorar copiosamente. Sentia-se doente, incapaz de seguir a caminhada, e extremamente desolada. Não encontrara o túmulo da irmã. Voltou os olhos para o céu, o sol quase sumira por completo. Pensou na mãe. Olhou em frente, e depois desviou os olhos para o lado. Prestou atenção à lápide margeada pela calçada onde estava sentada. Com muito esforço, colocou-se de pé. Era um túmulo pequeno, antigo, com uma pequena elevação na cabeceira e um buraco no centro. Percebeu que aquele buraco não fora feito em vão. Sim, ali ficava a cruz de madeira. Certamente havia se desfeito com o tempo. Sentiu que finalmente havia encontrado o túmulo da irmã. E chorou, chorou como nunca havia chorado na vida. Chorou gritado. Nem soube por quantos minutos... Estava exaurida.
         Domitila sentou-se novamente ao lado do minúsculo túmulo, debruçou o corpo sobre ele, como se o abraçasse. Fechou os olhos e sentiu uma paz que há muito não sentia. Não havia mais cansaço, nem dor, não havia mais agonia. Cumprira a missão.
         Com a cabeça recostada na fria lápide, e com o rosto em brasa, Domitila guardava no pensamento a figura da mãe, dos amigos do asilo, do pai. De repente, o frio cessara, não havia desconforto, nem tosse, nem dor no peito. Tudo ficara muito leve, flutuava...
         Na manhã, Domitila foi encontrada.
         Sem saber o que fazer, e lembrando toda a história contada por ela, o coveiro conferiu a bolsa, procurou pelos documentos. Encontrou a folha de papel dobrada, toda amassada. Abriu rapidamente o papel e nele viu desenhado: QUERO FICAR AQUI. ESTE É O MEU LUGAR.
         E assim foi feito.

Regina Ruth Rincon Caires
                                         

JUVENAL E O ENTREGADOR DE PÃES


                                

             


                                          JUVENAL E O ENTREGADOR DE PÃES

             O dia de Finados estava se aproximando...
         Época do ano que rendia um ganho a mais para Juvenal, e que o ajudava a remendar as dívidas. Era pintor de parede, ajudante de pedreiro, enfim, era o que precisava que fosse. Pau pra toda obra! O que não lhe faltava era disposição. Homem de meia idade, sem estudo, nascido e crescido por ali. Benquisto, transitava bem entre todos os moradores da vila.
         O cemitério, que ficava na saída da vila, na parte alta, podia ser visto de longe. Era imenso, todo cercado com muro de tijolos. Dentro, muito espaço. A pequena capela ficava perto do portão de entrada, e, por toda a volta, túmulos largamente espalhados. No fundo do terreno, uma área enorme, desocupada, reservada para servir aos futuros funerais por muitos e muitos anos.
         Alguns jazigos eram religiosamente cuidados durante todo o ano. As famílias visitavam seus mortos semanalmente, quinzenalmente. Limpavam, podavam as plantas que cercavam as sepulturas, cuidavam da pintura quando descorada. Esses jazigos sempre estavam impecáveis! Os demais ganhavam trato apenas na época de Finados. E sempre havia muito trabalho. As chuvas, com as suas enxurradas volumosas, levavam a terra, as calçadas e os tijolos das sepulturas. E havia, ainda, as rachaduras provocadas pelas acomodações do terreno. Além disso, o sol impiedoso descorava as pinturas, deixava tudo muito triste, desgastado.
         Naquela época não havia floricultura nem flores plásticas. As flores colocadas nos túmulos eram colhidas nos quintais das casas. As famílias, no amanhecer do dia de Finados, levavam as flores e as acomodavam em vasos com água, sem a menor preocupação com doenças. Não se falava em dengue.
         Se não fosse dessa maneira, recorriam às flores de papel crepom e de pano, feitas em casa, ou às coroas de flores de lata. Compradas na funerária, pedidos feitos de acordo com as encomendas, essas coroas eram do tamanho de um aro de bicicleta. Tinham as folhas e flores feitas de lata, material parecido com o zinco, todas recortadas, trançadas, presas nos fios de arame que formavam a circunferência. E pintadas à mão.
         Essas coroas resistiam por anos e anos, mas desbotavam. Então, anualmente elas recebiam uma demão de tinta. Tinta a óleo verde para as folhas, e as flores sempre vermelhas, amarelas, ou brancas. Eram essas as cores que Juvenal usava. Não colocava outras cores. Nem sei se havia...
         Nunca ninguém ousou misturar o vermelho com branco para fazer a flor rosa. Vivi essa realidade por anos e anos a fio, e nunca vi uma flor de lata pintada de outra cor que não fosse vermelha, amarela, ou branca.
         E todos estes serviços, desde o aterramento dos túmulos até a pintura das coroas de lata, tudo era feito por Juvenal. Bastava olhar o túmulo no dia de Finados. Pelas cores da coroa era possível saber se tinha, ou não, recebido os cuidados do Juvenal.
         E, para dar conta de todo essa demanda, Juvenal começava a trabalhar com muitos dias de antecedência. Primeiro, fazia os serviços mais grosseiros. Aterrava, consertava as calçadas, recolocava os tijolos que faltavam, recompunha os túmulos com rachaduras, cuidava dos rebocos, da pintura dos jazigos. E eram muitos... Dezenas e dezenas deles. E, por último, ficava o serviço de pintura das coroas de lata. Que também eram muitas.
Trabalhava das seis da manhã às seis da tarde. Levava a comida num caldeirão com tampa, assim não perdia tempo em voltar para casa no meio do dia. E como trabalhava!
Particularmente nesse ano, bem no período de Finados, o trabalho estava atrasado. Talvez pelo calor excessivo, talvez por ter assumido mais tarefas que nos anos anteriores, ou até mesmo porque Juvenal estava mais velho, mais lento. Enfim, não interessava a razão, o que importava era que o trabalho estava atrasado, e precisava ser feito a tempo.
Assim, na véspera, faltando um dia para Finados, Juvenal, que precisava finalizar a pintura das coroas, e sabendo que para isso precisaria de mais horas de trabalho, decidiu que pintaria durante toda a noite. E assim fez. Afinal, uma noite em claro não o prejudicaria em nada.
Quando começou a escurecer, pediu ao coveiro que, antes de sair, deixasse acesa a luz do poste ao lado da capela. Juntou ali as coroas ainda a serem pintadas, as tintas, os pincéis, a moringa com água, e continuou seu trabalho.
Estava uma noite tranquila. Apesar do calor insuportável do dia, a brisa da noite era fresca. Noite escura, sem lua. E Juvenal trabalhava sem parar...
Lá pelas cinco horas da manhã, contente por estar chegando ao fim da empreitada, começou a ficar incomodado. Estava com fome, e não havia nada para comer. Tinha trabalho para mais duas horas, mas estava faminto.
Sem parar com as mãos nos pincéis, pensava, insistentemente, numa maneira de arrumar alguma coisa para comer. De repente, ouviu o trotar de um cavalo bem distante. Longe, bem longe...
Apurou os ouvidos, e percebeu que era a carroça do entregador de pães. Isso mesmo! A padaria do Seu Miguelão Português, única da vila, oferecia esse serviço. Os pães eram feitos na madrugada, e o empregado saía com a carroça para fazer as entregas nas casas dos fregueses mensalistas. Também vendia pães para quem os quisesse comprar.
Era uma carroça pintada de branco, feita de folha de flandres, ou de zinco, fechada, com portinhola na parte de trás. Nas laterais havia o desenho de um imenso bigode preto e uma boca com um discreto sorriso. Coisa do Seu Miguelão Português, que nem tinha bigode!
Em cada entrega, o empregado parava a carroça, descia, abria a portinhola traseira, acondicionava os pães em sacos de papel, e os colocava no embornal pendurado no portão, ou na porta, ou na parede da casa do freguês. Sempre havia um embornal esperando. E, muitas vezes, o próprio freguês estava de pé, aguardando na calçada.
Serviço trabalhoso e demorado.
Juvenal se animou. Afinal, quando a carroça passasse por ali, ele poderia comprar dois pães e aplacaria a fome. E continuou pintando enquanto esperava que o entregador rodasse pelos quarteirões, e finalmente descesse pela rua do cemitério. Não podia perder tempo!
Quando percebeu que a carroça estava bem próxima, Juvenal correu para o canto do muro do cemitério, subiu num cavalete de pau que ficava ali, e com a cabeça acima do muro, ergueu os braços e começou a balançá-los no ar para chamar a atenção do entregador de pães, sem que precisasse gritar. Afinal, ainda estava escuro, e muitas pessoas ainda dormiam.
O cemitério ficava num terreno bem alto, a rua da frente era de terra, forrada de pedriscos e cascalhos soltos, e formava uma ladeira em direção da vila.
Costumeiramente, quando o entregador de pães passava diante do cemitério, um tanto ressabiado, naquele lugar ermo, numa noite escura, tratava de fustigar o cavalo para que fosse mais rápido. Ao começar a descer a ladeira, vislumbrou no canto do muro a cabeça de Juvenal, os braços erguidos sendo sacudidos no ar... Na escuridão não dava para saber quem era quem. E ele nem queria saber... Ficou endoidecido! Soltou as rédeas, levou as mãos à cabeça, enfiou os dedos pelos cabelos e destampou a gritar. Urrava de pavor...
O cavalo, com as rédeas soltas, desembestou numa carreira doida ladeira abaixo. A carroça quase nem tocava as rodas no chão. Voava! E foram tantos solavancos que as amarras se soltaram, a carroça se desvencilhou, tombou. O entregador de pães, aos berros, foi arremessado longe, caindo sobre uma moita de capim. E berrava. Sentado, com as mãos enfiadas nos cabelos, os olhos estatelados, gritava...
Juvenal, atordoado, continuava no canto do muro, também com as mãos na cabeça. Tudo aconteceu tão rápido... Só então percebeu que havia assustado o entregador de pães
Como estava sem a chave do cadeado do portão, o coveiro o deixara trancado, Juvenal fez um esforço danado para pular o muro e ganhar a rua. E, no escuro, saiu à procura do entregador de pães.
Orientado pelos gritos, foi chegando perto. O cavalo escafedeu-se. A carroça estava ali, virada, de rodas para cima, pães esparramados pela rua inteira misturados com a terra, com o cascalho, uma desordem absurda!
Tateando no escuro e guiado pelos berros, avistou o entregador de pães. Esgoelando, ensandecido! E procurou aproximar-se, devagarinho...
Quanto mais se aproximava, mais ele berrava. E foi chegando gente... O entregador de pães acordara toda a vizinhança. Acho que toda a vila, tamanha a multidão que se juntava!
E todo mundo ali querendo saber o que estava acontecendo, o entregador se esgoelando, arrancando os cabelos, e Juvenal no meio daquela doideira. Numa encabulação que fazia pena!
Juvenal implorava ao entregador de pães que se calasse, ele queria explicar o que havia acontecido. Queria falar que foi ele quem acenou no muro do cemitério, que estava com fome, que estava trabalhando... Mas, que nada... Inútil. O entregador de pães só queria gritar...
O dia estava clareando, e Juvenal continuava ali, sentado no capim, olhando para os pães espalhados pela rua, na terra. E o entregador, aos berros.
Foi chamado o Seu João da botica, o único farmacêutico da vila. Ele tentou, por inúmeras vezes, falar com o entregador de pães. Inutilmente... Então, à força, cinco homens o imobilizaram e o levaram para o posto de saúde. E ele, gritando.
Pelo que se conta, ele gritou por dois dias e duas noites, até que a voz acabou. E, por muito tempo, acordava no escuro da noite e punha-se a gritar.
O entregador de pães se foi há muito tempo, mas durante o tempo em que viveu depois daquele dia de Finados, nunca mais foi o mesmo.
E Juvenal, que partiu um pouco depois, nunca conseguiu explicar ao entregador de pães o que realmente acontecera naquela madrugada. Sempre que tentava, o entregador se transtornava, e os gritos voltavam. Então, ele acabou desistindo.
Deixou por isso mesmo...



Regina Ruth Rincon Caires